Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Paulo Bomfim, que teve livros ilustrados por Tarsila, conjugou poesia e arte

Com o pintor Alfredo Volpi, o Príncipe dos Poetas dividiu o profundo amor pela segunda cidade mais antiga do Brasil, Itanhaém

Pedro Mastrobuono, Especial para o Estado

07 de julho de 2019 | 17h44

Plutarco, ilustre magistrado e embaixador, escreveu, há cerca de dois mil anos: “A pintura deve ser uma poesia muda e a poesia uma pintura que fale”. Pensamento que se encaixa perfeitamente ao Príncipe dos Poetas Brasileiros, nosso Paulo Bomfim.

Amante das artes visuais, Bomfim teve seus livros ilustrados por ninguém menos que Tarsila do Amaral, foi também amigo de Anita Malfatti que lhe retratou ainda bem jovem. Conviveu com vários dos integrantes do Grupo Santa Helena, chegando a abrir uma galeria de arte com Clóvis Graciano, salvo engano, denominada Atrium, da qual tenho alguns poucos flashbacks do período de minha infância, levado pelas mãos de meu pai, caminhando pela região central da Capital, posto que ficava no edifício Zarvos, na Avenida São Luís.

Com Alfredo Volpi, Bomfim dividiu o profundo amor pela segunda cidade mais antiga do Brasil, Itanhaém, que Volpi pintou à exaustão nos anos 1940. Quando o pintor e sua esposa por ali chegaram, o poeta já desfrutava desse lindo trecho da baixada santista. Caminhando por suas alamedas, encontra-se a biblioteca municipal Paulo Bomfim, rebatizada com seu nome e que também ostenta outro retrato do Príncipe dos Poetas, novamente no esplendor de sua juventude. Terra de Benedito Calixto e de seu assistente, Emydgio Emiliano de Souza, pintor primitivo de quem Volpi, alegremente, admitia ter aprendido pintar céus.

Paulo Bomfim era padrasto do artista plástico Dudú Santos, que já foi um dos mais proeminentes marchands do Brasil, então casado com a saudosa Marilú Cunha Campos com sua inseparável piteira, quando juntos eram titulares da renomada Galeria Grifo, com memoráveis exposições de Ismael Nery, Carybé, Di Preti, Goeldi, Tito de Alencastro, Aldo Bonadei, entre tantos outros. Em certo jantar na casa de Marilú, conheci o pintor Antonio Henrique Amaral, nascendo ali uma bela amizade. 

O entorno a Paulo Bomfim era bem assim, respirava-se Cultura e Arte, pinturas e pintores. No que diz respeito à sua obra literária, através de seus pensamentos e poemas, ensinou-me o real significado de autenticidade na vida e resiliência. Alguns de seus ensinamentos frequentam assiduamente minhas reflexões, como por exemplo: “É preciso que nos renovemos diariamente. Os hábitos e as ideias velhas tornam-se doenças.” Ou ainda: “Julgo-me me todos os dias, condeno-me todas as horas e deixo que a esperança me absolva sempre”. Não obstante, aquele ensinamento que insiste em ecoar dentro de mim, com o qual me identifico seriamente é: “Procuro renascer todos os dias. Não concordo em morrer vivo. Sou um rebelde de paletó e gravata, & nbsp; grão que teima em não virar massa, pássaro que persiste no canto dentro da gaiola dos horários“.

Itanhaém e todos nós restamos órfãos, reverberando os versos finais de seu poema titulado justamente Do Poeta Morto:

“E aquele que do amor fez sua vida,

Conquista na paixão que lhe desperta

A morte essa mulher desconhecida!”

*PEDRO MASTROBUONO É PRESIDENTE DO INSTITUTO VOLPI

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