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Patrícia Melo lança seu primeiro romance policial

Com ‘Fogo-fátuo’, escritora adentra a clássica escola americana do gênero, com detetive, assassinato e culpado

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2014 | 03h00

Patrícia Melo sempre resistiu ser considerada autora de literatura policial – sua obra, na verdade, apesar de pinceladas criminais, até pode ser classificada como de suspense. Com o lançamento de Fogo-fátuo (Rocco), porém, seu décimo livro, ela já aceita a nova alcunha. “Agora posso dizer que escrevi um romance policial come il fault, ou seja, inserido na clássica escola americana, com detetive, crime, assassino e, como pano de fundo, um retrato da violência das grandes cidades.”

Fogo-fátuo tem como protagonista Azucena, a bela chefe do setor de perícias da Central Paulista de Homicídios. Filha de um delegado aposentado, que é amante de ópera (daí a origem de seu nome), ela é um oásis em meio a uma corporação corrupta e decadente – além da falta de pessoal e de viaturas, o departamento é suspeito de mascarar boletins de ocorrência, o que dificulta as investigações.

Em um momento em que o índice de crimes na cidade atinge um número alarmante – o que desperta crítica constante da imprensa –, Azucena é incumbida de investigar a morte de Fábbio Cássio, belo ator que estoura os miolos na última cena de uma peça de teatro: o revólver carregava balas de verdade e não de festim.

Aos poucos, a hipótese de suicídio é trocada pela de assassinato, surgindo suspeitos como Cayanne, namorada de Fábbio, alpinista social, aspirante a celebridade, participante de reality show. “Ao lidar com o caso, Azucena descortina uma faixa cruel da sociedade, que trata a morte como espetáculo e não diferencia fama e infâmia”, conta Patrícia, que planejava escrever a trama desde que publicou Acqua Toffana, em 1994.

O tempo em que o projeto permaneceu na gaveta certamente facilitou o endurecimento da escrita – Fogo-fátuo traz lirismo em vigas mestras, e harmonia em canos enferrujados. Os personagens, em sua grande maioria, são movidos por ganâncias, que ganham enormes proporções quando retratadas pela imprensa marrom.

Azucena, nesse caso, assemelha-se a grandes detetives da literatura, como Philip Marlowe (de Raymond Chandler) e Sam Spade (de Dashiell Hammett), ou seja, profissionais íntegros e incorruptíveis. “E, como eles, ela tem uma vida pessoal caótica, especialmente quando é obrigada a se separar de um marido que, depois, se volta contra ela”, explica. 

A construção do personagem é um dos trunfos do romance. Patrícia apresenta os motivos: “ela acredita que o silêncio dos mortos é apenas uma linguagem, com sintaxe e semântica próprias, como o inglês ou a música. Quando aceitou, na juventude, a sugestão do pai de cursar biologia, e mais tarde, ao se especializar em criminologia e prestar concurso para entrar na polícia técnica, o que tinha em mente era isso, entender aquele idioma”. 

O título do romance faz alusão ao livro do mesmo nome do escritor colaboracionista francês Drieu de la Rochelle (1893-1945), obra que inspirou o filme Trinta Anos Esta Noite, de Louis Malle. “Tanto a obra como o longa me incentivaram a escrever o meu Fogo-fátuo”, conta Patrícia que, ao mesmo tempo em que produzia sua história, desenvolvia uma nova arte: a pintura. A própria capa de Fogo-fátuo traz um de seus desenhos. “É algo misterioso, que parece um quebra-cabeça.” Nesta quinta-feira, 13, durante o lançamento, os fãs poderão apreciar outras pinturas, que estarão expostas.

FOGO-FÁTUO

Autora: Patrícia Melo

Editora: Rocco (200 págs., R$ 29,50)

Lançamento: Clube das Artes. R. Mato Grosso, 388, Higienópolis; 3567-4988, às 21 h

Leia trecho de Fogo-Fátuo, décimo romance escrito por Patrícia Melo:

"Não é câncer ou insuficiência renal. Não é coração. É outra coisa, ela pensa, é uma fortuna de 12 bilhões de neurônios começando a ser dilapidada. É também uma doença metafísica que, para alguns, vem junto com a aposentadoria. A rapidez com que tudo acontece é assustadora: num dia, você é o chefe da casa. No outro, anda de pantufas, sem objetivos, esquecendo coisas, e de repente já estão enfiando pílulas na sua boca, controlando o que você gasta, o que você come. Pelo menos com seu pai foi assim. Aos poucos, o velho foi se curvando, encolhendo, apagando. É disso que ele vai morrer em breve. Na verdade, já está morrendo. Dia após dia, ela o vê apodrecendo, com uma árvore centenária que só precisa de uma boa tempestade para tombar. Seu censor interno vem apitando há tempos: está chegando o dia. Ela odeia ter ciência do fato, mas tem. Por esta razão inventou aquela viagem. O pretexto são os 80 anos do patriarca. Para ela, porém, é uma despedida secreta. Não quer que ele se vá sem isso: sem conhecer aquela terra, aquela arena, sem ouvir todos aqueles cantores.

Da mesa onde está, Azucena Gobbi vê os pais saltarem do elevador e caminharem em direção oposta ao restaurante. Damaso avança em passos mínimos, inseguro, os olhos miúdos grudados no chão. A mãe vai na frente, com sandálias ortopédicas que fazem seus pés parecerem maiores.

Quando Azucena se levanta para resgatá-los, os turistas das mesas ao lado se viram para olhá-la. Não é bonita. Mas tem um tipo atlético, longilíneo, e olhos azuis que desviam a atenção do nariz com ossinho saltado que ela tanto odeia.

Com um aperto no coração, ela se dá conta, mais uma vez, de que aquele homenzinho lá na frente, seguindo a esposa como um cachorro obediente, não tem mais nada a ver com o delegado de Guarulhos da sua infância, o velho leão carcamano – como era conhecido na cidade. “Pai”, ela diz, aproximando-se pelas costas. “É do outro lado”, indica."

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