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Para não dizer que não falei de flores

Entristecia-me saber que meu dom com as plantas tinha um custo: nunca seria feliz no amor

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2021 | 03h00

Maurice Druon (1918-2009) é escritor consagrado da língua francesa. Foi militante da resistência contra os nazistas. Tornou-se um controverso ministro da Cultura no pós-guerra. Como secretário da imponente Academia Francesa, resistiu à presença da primeira mulher naquela casa de letras, a escritora Marguerite Yourcenar (1903-1987). Gaullista histórico, é conhecido por seu talento, alguma misoginia e por suas críticas aos comunistas.

No Brasil, o membro da Academia Francesa foi muito conhecido pela coleção dos Reis Malditos, contando o colapso da dinastia dos Capetos e a extinção dos Templários no século 14. Foi um sucesso estrondoso de público. George R. R. Martin confessou que tinha lido e se inspirou nela para escrever o que seria a base da aclamada série Game of Thrones.

Os livros sobre Filipe IV e seus filhos são um vício. Sempre que os emprestava a alguém, advertia: “Você está com tempo?”. Até hoje, os títulos povoam minha imaginação: O Rei de Ferro, A Loba de França, Os Venenos da Coroa e outros. Tive de estudar muito aquele momento para poder dar aulas sem confundir a imaginação de Druon com fatos históricos.

A série sobre os reis é muito boa. Porém, hoje volto minha memória a outro livro de Maurice: Tistu, O Menino do Dedo Verde (Tistou les Pouces Verts).

Tistu tinha um dom. Colocava o dedo em um lugar e as flores germinavam. O velho jardineiro Bigode percebeu o talento incomum e com ele teve conversas instrutivas sobre o dom do “polegar verde”.

Tistu semeou flores nos muros e paredes da comunidade mais pobre, bem como no hospital e até na prisão. A cidade de Mirapólvora foi sendo transformada em Miraflores. 

O livro critica a escola formal, as guerras, as cidades frias e cinzentas e a falta de imaginação de muitos adultos. Há trechos com ecos do Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry. Surge uma escada de flores na cidade que leva ao céu. Ao subir nela, acabamos sabendo que o pequeno do dedo verde era, na verdade, um anjo. Será que alguma criança ou jovem ainda lê esses livros?

Eu achava possuir o “dedo verde”, mesmo sem nunca ter sido anjo. Tudo o que eu plantava florescia com força. Li uma biografia de Santa Rita de Cássia e descobri que ela recebera ordens da superiora para regar um galho seco diariamente. Maldade da freira mais velha para testar obediência. A videira verdejou e lançou suas gavinhas fortes para crescer. Da mesma forma, a roseira que a agostiniana plantou fornecia flores mesmo sob a neve do inverno. Teria Rita também um “dedo verde”?

Porém, sempre existe um porém, minha avó advertia: “Sorte com flor, azar no amor”. Entristecia-me saber que meu dom com as plantas (abaixo de Tistu e de Santa Rita, claro) tinha um custo: eu nunca seria feliz no amor. Ou se achava a pessoa perfeita ou se tinha flores. Felicidade ou rosas! Boa vida a dois ou vergéis. Os campos floridos sob meus pés seriam para eu andar sozinho, profetizava a mãe da minha mãe. A sabedoria dos ditados populares é total e não pode ser contrariada. Nada do que eu fizesse poderia impedir a sina. Eu seria um homem solitário, cercado de cravos e de ranúnculos. Choraria em casa tomada de heras lindas. Seria a solidão com o suave perfume de magnólias viçosas.

Há poucos meses, durante o apogeu do recolhimento da pandemia, minha esperança aumentou. Ganhei um bonsai muito bonito. Decidi cuidar dele com minha conhecida habilidade, meu indefectível dedo verde e a certeza da minha harmonia com plantas. Borrifava água filtrada, levava para a melhor luz e testava diariamente todos os cuidados. O resultado? O pequeno pinheiro morreu de forma lenta e progressiva, indiferente aos mimos. No lugar da planta renitente, coloquei um asplênio jovem e promissor. Evitei deslocar o vaso, quem sabe fosse isso que tivesse matado o antecessor... A planta, que se usa em jardins verticais em condições mais complexas, ainda não morreu, mas está quase partindo para o paraíso das samambaias ou para o purgatório das epífitas.

Desolação. Foi um bonsai baixado à cova e um asplênio agonizante em um curto período. Eu tinha perdido o dom de Rita e da personagem de Maurice Druon... Logo... Sorte no amor! Posso sair à rua e, quando houver chance, confraternizar em bares indagando sobre plantas mortas ou agonizantes. Claro! A pessoa em questão deve também ter muito “azar” com plantas, ou ela será uma má companhia. Talvez seja o caso de levar até uma pequena violeta para a vida noturna. Oferecer no primeiro encontro. Já observar se a florzinha, sob nova administração, permanece viçosa até o fim do encontro. Se houver um segundo, perguntar: “E o vasinho? Floresceu? Como está?”. Um novo teste de namoro, um termômetro de compatibilidade.

E as pessoas que têm o dom de Rita e do menino do livro? O que fazer com os pobres “pouces verts”? Já sabemos que a sorte com a flor indicaria desastre no amor. Então, ela procurará alguém também com o dom e, assim, serão infelizes em um lindo jardim com plantas que causarão inveja ao casal, como sabemos, condenado à infelicidade. Não se pode ter tudo! Amor ou flor? O importante é ter esperança em alguma primavera à frente.

É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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