Para Hermano Penna, 'Sargento Getúlio' é a obra mais completa de João Ubaldo

Adaptação do romance para as telas, feita pelo cineasta, foi sucesso de público e levou vários prêmios

Flavia Guerra , O Estado de S. Paulo

18 de julho de 2014 | 17h38

O diretor Hermano Penna, que adaptou o romance Sargento Getúlio para o cinema, tornou-se grande amigo de João Ubaldo Ribeiro. Para ele, a saga do sargento que recebe a missão, de levar de Paulo Afonso a Aracaju, um prisioneiro que é inimigo político do seu chefe, é literariamente a obra mais perfeita do escritor. “Glauber Rocha, aliás, dizia que era um dos cinco grandes livros da língua portuguesa. Concordo. É incrível”, comentou o diretor ao Estado

“O João, como bilíngue que era, falava tão bem inglês quanto português. Ele que traduziu o livro para o inglês. E a obra teve repercussão grande nos Estados Unidos”, acrescentou Penna, que contou com a ajuda de Ubaldo para escrever o roteiro do filme. 

Sargento Getúlio, o longa, foi rodado em 1978, mas só chegou às telas em 1983, quando levou os prêmios de melhor ator (Lima Duarte), melhor ator coadjuvante (Orlando Vieira), melhor som direto, melhor filme, Grande Prêmio da Crítica, Grande Prêmio da Imprensa e o Prêmio do Júri Oficial no Festival de Gramado. “A última vez que estivemos juntos, ele veio a São Paulo para a Balada Literária, de Marcelino Freire, e comemoramos os 30 anos de Sargento. Foi uma noite gloriosa. Ele tinha um humor maravilhoso. Era uma pessoa única. Quando ele chegava num lugar, ele, historiador nato, começava a contar histórias e histórias”, recordou o diretor, que neste sábado exibe em pré-estreia no novo Cine Caixa Belas Artes seu novo longa, Aos Ventos Que Virão

Penna ainda contou que para ele, o trabalho de levar Sargento Getúlio para as telas não foi um trabalho de adaptação. “Não adaptei, mas documentei um livro. Fiz questão absoluta de manter a oralidade do livro. Lutei para mante isso. E não só documentei como disse ao público: 'Isso é um comercial de um livro. Quero que leiam para sentir a beleza da criação literária.' É isso que encanta profundamente nesta obra.” 

Para o diretor, ainda que Viva o Povo Brasileiro seja o livro mais importante do escritor, e “devia ser a Bíblia de todos os lares brasileiros”, como forma, precisão semântica e temporal, Sargento Getúlio é um livro mais completo. “É um grande monólogo. Em Viva o Povo estamos nós com todas as grandezas e misérias. É a busca desta alma possível de Brasil. Tem momentos sublimes, tem uma ideia por trás que é pensar o Brasil, o encontro do País com suas feiuras”, analisa. 

“Mas  Sargento tomou minha alma. Talvez por eu ter sido um filho do sertão, compreendi muito o sargento, uma pessoa simples, a serviço do poder. Vivi muito aquele mundo”, relata o diretor. “Cresci no Cariri, era neto de um grande coronel, piloto de jagunço como o Ubaldo falava. Ao mesmo tempo, conheci uma parte da família que era de camponeses simples. Esta dualidade que está no livro para mim é muito viva e clara”, acrescenta Penna. 

Para o diretor, a  paixão pela obra foi um redescoberta de si mesmo. “De minhas raízes. Me encantei. Ao filmar essa história, não tinha medo de errar. É uma obra tão poderosa que ele está ali, em todos os pontos, em toda sua graça. A beleza de João é que é uma literatura que não é chata. O País está emocionado, eu perdi um amigo. Mas na obra dele está tudo dele. E certamente vai iluminar muito ainda este Brasil.” 

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