Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Pandemia inspira experimentações em novo livro de Felipe Franco Munhoz

Lançamento acontece nesta terça-feira, 31, na Livraria da Vila, que fica na Rua Fradique Coutinho

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2022 | 20h00

Durante a pandemia, o escritor Felipe Franco Munhoz venceu um desafio: permanecer, junto com a família, totalmente isolado, sem nenhum contato com o que estivesse fora de seu apartamento, durante 312 dias. O sacrifício ajudou a preservar a saúde de todos contra a covid, e também permitiu que ele trabalhasse em seu novo livro, Lanternas ao Nirvana (Record), que será lançado nesta terça, 31, na Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho, a partir das 18h.

“O título foi extraído de uma quadra-refrão do poema A Cena Mais Profana: ‘quase altar e quase arena / com lanternas ao nirvana; / da proposta mais obscena / para a cena mais profana’”, explica Munhoz. “Quando escrevi esse poema, percebi que o contraste de luzes e sombras, já impregnado na forma e no conteúdo, era o eixo central do livro.”

Como em suas obras anteriores, Mentiras (2016) e Identidades (2018), o escritor costura poesia e dramaturgia, que culmina em um relato que revela como a urgência da vida naquele período pandêmico de suspensão despertou diversos atos criativos no artista. O poema Segundo Andar: Defronte, Estou, por exemplo, que abre o livro, reproduz um olhar de quem acreditava que o confinamento seria passageiro, ou seja, ainda não era capaz de compreender a dimensão do futuro próximo.

Aos poucos, porém, a gravidade da situação fez com todos constatassem a necessidade de uma vida segredada, observada no livro na repetição de ideias. “O momento do mundo em que Lanternas ao Nirvana está inserido - o primeiro ano da pandemia - era um momento de repetição: repetição do tema covid na imprensa e nas conversas cotidianas; repetição, para muitas pessoas, do cotidiano em si; repetição de atitudes nos isolamentos; e as inquietudes diariamente repetidas, as inseguranças. Pensei, então, que seria o caso de inserir repetições e refrões em certas passagens.”

O isolamento, portanto, revelou-se incentivador para que Munhoz praticasse mais experimentações linguísticas, como fizera nas obras anteriores. “Com descobertas nos processos de experimentação: descobertas de possíveis efeitos provocados a partir do texto e, em sentido mais amplo, do próprio estilo”, explica. “Após Identidades, esse estilo ficou evidente para mim: desde a imagem do texto na página (como se a página fosse um espaço para determinada performance de palavras, como se as palavras configurassem um objeto visual), até o conceito estrutural de mesclar rubricas teatrais e vozes, muitas vezes em versos, com escolhas pontuais de métrica e de prosódia; tento sempre trabalhar com restrições que se delimitam pelo entrelace de forma e conteúdo - restrições, mas que, na verdade, são capazes de estimular que a linguagem seja esticada para várias direções.”

E, ao se aventurar por diversos caminhos, Munhoz transitou livremente entre o pop e o erudito, o que potencializou ou expandiu trechos específicos do livro. Segundo ele, a ideia é de reforçar certo ritmo ou ajudar a imprimir certo clima. “E, quando o leitor opta por mergulhar também nas referências, novas camadas do livro são reveladas”, afirma. “Tenho notícias de leitores que buscaram todas as músicas citadas em Identidades (não encontraram a composição de Adrian Leverkhün que, por ser uma obra ficcional de um personagem de Thomas Mann, não existe). Isso e o fato de que eu gosto, na vida, da fruição encadeada de arte erudita e arte pop, sem limites. Parte da minha formação se deu no universo underground; ou seja: no fundo, o palco é punk.”

Confira a entrevista completa, realizada por e-mail.

Qual a origem do título do livro?

O título foi extraído de uma quadra-refrão do poema A cena mais profana: “quase altar e quase arena / com lanternas ao nirvana; / da proposta mais obscena / para a cena mais profana.” Quando escrevi esse poema, percebi que o contraste de luzes e sombras, já impregnado na forma e no conteúdo, era o eixo central do livro. Havia, pronto, um segmento importante do texto Parêntesis em que os personagens Ela e Ele - vizinhos de janelas face a face, ainda no começo da pandemia, apaixonados mas sem coragem de saírem dos apartamentos - projetam focos de lanternas contra suas mãos: para que, em turnos, a sombra da mão alcance o corpo posicionado na janela à frente; foi a maneira que esses personagens encontraram para fazer amor, mesmo que na representação de um ato falso. E depois de A cena mais profana, já com a centelha na cabeça, fui acendendo vários pontos luminosos (e apagando outros), procurando gerar as mais diversas atmosferas, do erótico ao funesto, dentro de Lanternas ao Nirvana.

A presença da incomunicabilidade foi reforçada, entre outros fatores, pelo período da pandemia, quando o livro foi escrito?

Acredito que, talvez, a incomunicabilidade tenha surgido vinculada ao medo e às incertezas que os personagens sentem (formulando hipóteses de experiências humanas decorrentes do início da pandemia, explorei bastante a aflição, a preocupação - e solidões). Há, por exemplo, o casal M. e W., introduzido na cena Lâminas embotadas, habitantes de uma quitinete no Copan; angustiados com a situação e com o relacionamento, eles trabalham muito, em home office, e conversam pouco. Tudo, porém, é um tanto velado no livro. Além disso, tenho a impressão de que enquanto o mundo virtual mistura-se cada vez mais ao tangível, propondo inúmeras portas para a comunicação interpessoal (à distância, em grupos, imediata), intensificamos o desejo de que tais trocas sejam múltiplas e sucintas; e o contexto pandêmico teria acelerado tal percurso ao efêmero. É o excesso de ruídos que produz, paradoxalmente, um excesso de silêncios e de becos sem saída. Procurei, portanto, arquitetar esses becos sem saída no território da ficção.

É possível dizer que o Lanternas se encaixa em um processo de experimentação, iniciada com 'Mentiras' e continuada com 'Identidades'?

Sem dúvida. Com descobertas nos processos de experimentação: descobertas de possíveis efeitos provocados a partir do texto e, em sentido mais amplo, do próprio estilo. Após Identidades, esse estilo ficou evidente para mim: desde a imagem do texto na página (como se a página fosse um espaço para determinada performance de palavras, como se as palavras configurassem um objeto visual), até o conceito estrutural de mesclar rubricas teatrais e vozes, muitas vezes em versos, com escolhas pontuais de métrica e de prosódia; tento sempre trabalhar com restrições que se delimitam pelo entrelace de forma e conteúdo - restrições, mas que, na verdade, são capazes de estimular que a linguagem seja esticada para várias direções.

É possível perceber que ideias se repetem, como os refrões. Fale, por favor, sobre a importância dessas repetições.

O momento do mundo em que Lanternas ao nirvana está inserido - o primeiro ano da pandemia - era um momento de repetição: repetição do tema covid na imprensa e nas conversas cotidianas; repetição, para muitas pessoas, do cotidiano em si; repetição de atitudes nos isolamentos; e as inquietudes diariamente repetidas, as inseguranças. Pensei, então, que seria o caso de inserir repetições e refrões em certas passagens. Mais radical foi trancafiar definitivamente - coitados - os personagens Ela e Ele, de Parênteses, em um loop infinito: condenados àquele diálogo (sem começo, meio ou final) e ao amor das sombras, jamais haverá qualquer encontro de seus corpos.

Como é balancear o pop e o erudito? Quando um precisa ceder espaço para o outro?

A escolha de cada referência, pop ou erudita, na costura das intertextualidades, é feita para potencializar ou expandir trechos específicos: é a ideia de reforçar certo ritmo ou ajudar a imprimir certo clima; e quando o leitor opta por mergulhar também nas referências, novas camadas do livro são reveladas. Faz parte da performance de palavras. Tenho notícias de leitores que buscaram todas as músicas citadas em Identidades (não encontraram a composição de Adrian Leverkhün, que, por ser uma obra ficcional de um personagem de Thomas Mann, não existe). Isso e o fato de que eu gosto, na vida, da fruição encadeada de arte erudita e arte pop, sem limites. Parte da minha formação se deu no universo underground; ou seja: no fundo, o palco é punk.

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