Paisagens emolduradas pelas letras

O que define uma ciência não é o objeto. É o ponto de vista. Uma floresta pode ser um composto de vegetais para o botânico. Será um objeto diverso para um pintor, um escritor, um físico. Assim também ocorre com a literatura. Não é o tema nem a forma que determinam a obra. É o olhar. Os gêneros se subordinam a essa definição mais ampla. A linguagem pode ser a mesma. Mas o olhar altera o sentido final. 

O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2014 | 03h00

Essa é uma boa maneira para captarmos a sensibilidade e o olhar de cronista que atravessa o Dicionário dos Apaixonados Pelo Brasil, do escritor e jornalista Gilles Lapouge. Escrito em forma de verbetes, estamos distantes da taxonomia dos dicionaristas. Tudo aqui é filtrado pela paixão. Lapouge organiza o Brasil a partir de sua experiência do Brasil. De A a V, não apenas as palavras, mas a vida mesma repousa em estado de dicionário. E emerge decantada pelo tempo. 

Primeiro, o desembarque no Rio de Janeiro de um jovem incerto quanto a seu futuro profissional nestas terras. Desde então, uma visão panorâmica da cultura brasileira adquirida ao longo de cinco décadas. Para cobrir esse arco, os verbetes se assemelham a paisagens emolduradas pelas letras. Um dos aspectos que conferem especial sabor é o trânsito que Lapouge estabelece entre referências cultas e cotidianas. E o vai e vem de dois pontos de vista incluídos em um mesmo autor. Um francês que observa o Brasil. E um brasileiro que relê a Europa em uma chave deslocada. 

Como especialista em missões, geografia e viagens, a ênfase de Lapouge recai sobre alguns desses pontos. Ora foca a história, a etnologia, os relatos. Ora se concentra na natureza e em suas peculiaridades. Em outros momentos, toma como ponto de partida temas, um personagens, aspectos das regiões, objetos. 

Por todos esses caminhos, a natureza salta aos olhos. Alheia a qualquer exotismo. Nesse sentido, a Amazônia ganha destaque, com seus tambaquis, preguiças-de-bentinho, antas, tamanduás, botos-cor-de-rosa, capivaras. O Café, a Borracha, as Imensidões, as Abelhas, os Peixes, ou seja, o Éden e o Fim do Mundo se desdobram aos olhos do leitor, frutos da reconstrução do que Lapouge leu e viveu. 

Os viajantes também o comovem. E por isso a presença marcante de um Brasil desenhado pelas penas de Hans Staden, André Thevet, Jean de Léry e descrito pelas tintas de Jean-Baptiste Debret e de Hércules Florence, cujos belos relatos sintetizam o misto de genialidade e marginalidade que pesa sobre quase todos esses entusiastas do Novo Mundo. Não por acaso a fotografia nasceu no Brasil, em 1833, pelas mãos de Florence, seis anos antes de Herschel, Wheatstone e Heinrich a terem instituído em termos mundiais. Porque o Brasil não é um país. O Brasil é um olhar. Lapouge parece nos dizer. 

Talvez por isso também a figura de Lévi-Strauss perpasse de modo subliminar toda a obra. Trata-se da figura real, intimidadora e distante com a qual Lapouge conviveu. E também de um intelectual mítico que, para além de exercitar o olhar da ciência, conseguiu criar uma nova ciência do olhar. Contudo, apesar de amoroso, Lapouge não poupa críticas. À mistificação da Cordialidade que encoberta a Crueldade nossa de todos os dias. Àqueles que, como Stefan Zweig, difundiram a imagem do Brasil como paraíso terrestre. 

Essas metamorfoses do olhar iluminam dois eixos destes verbetes: a antropofagia e a antropologia. Assimilação do outro e olhar distanciado. No fundo, ambas vertentes se complementam. Lapouge unificou essas duas metades. É um antropófago e antropólogo. Viajante e geógrafo. Estrangeiro e nativo. Mistura-se ao país distante que descreve. E relata os caminhos e descaminhos de um Brasil que surge estranho e familiar a nós mesmos. 

* RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR, FILÓSOFO E PROFESSOR DE PÓS-GRADUAÇÃO DA FAAP 

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