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Paciente, generoso e disciplinador, o crítico Sábato Magaldi ensinou a amar o teatro

Ex-aluna e parceira em 'Cem Anos de Teatro em São Paulo', Maria Thereza Vargas escreve sobre crítico e seu trabalho

Maria Thereza Vargas, Especial para O Estado de S. Paulo

31 Janeiro 2015 | 03h00

É com enorme prazer que rabisco algumas linhas sobre o doutor (!) Sábato, como costumo me referir a ele. Vi-o pela primeira vez nos anos 1950, em visita à Escola de Arte Dramática de São Paulo, ainda situada no segundo andar do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Anos depois, fui sua aluna nas aulas sobre teatro brasileiro, dadas no curso sobre dramaturgia e crítica na escola de Alfredo Mesquita. 

Sempre de bom humor, paciente, mas disciplinador, falávamos de maneira inteligente, crítica e generosa sobre uma história pouco contada. Aprendi com ele a amar não só o Teatro do Estudante do Brasil, o Teatro Brasileiro de Comédia, mas todo o movimento desde os primórdios sofridos e incansáveis. Suas notas nos jornais Estado e Jornal da Tarde, elaboradas com profundidade, às vezes com depoimentos sobre as estreias, além de ajudarem na divulgação, lidas hoje em dia constituem uma breve história do cotidiano do teatro paulista e de muitos outros grupos que por aqui passavam – nacionais ou estrangeiros. 

Culto, informadíssimo, suas críticas imparciais guiavam o leitor e, certamente, os ensaiadores e intérpretes. Zangadíssimos, a princípio, quando criticados, dias depois estavam mais calmos, revendo contritos os defeitos apontados. 

Não por vaidade de escritor e ensaísta, seus escritos, mais por encanto e dedicação ao teatro, exigiam dele amplas reflexões que possibilitassem mais tarde informações sobre os altos e baixos de um caminho percorrido. Assim, unia o lado de observador arguto à generosidade ao se referir aos atuantes, guardando carinhosamente na memória trabalhos exemplares, como o de Geraldo Mateus em Esperando Godot, dirigido por Alfredo Mesquita, em 1955. Incentivou e acompanhou as montagens do recém-criado TBC, do grupo de Nicette Bruno, da Companhia Nydia Lícia e Sérgio Cardoso, da Companha Tônia-Celi-Autran, do Teatro Cacilda Becker, do Arena e suas constantes modificações, do Teatro Popular de Arte Maria Della Costa, Teatro Oficina, do Grupo Tapa e de tantos outros que construíram ou ainda constroem o teatro em São Paulo.

Crítico imparcial, mas amigo dos artistas, quantas e quantas vezes sugeriu textos, elaborou solicitações ou respostas aos poderes governamentais. Em 1958, em uma das crises do teatro paulista, redigiu um manifesto, lido por Cacilda Becker, ao governador. Pensando ser a atriz a própria autora do texto, Carvalho Pinto disse baixo a um assessor: “Como essa moça entende do assunto”. Tudo isso porque, além de crítico, Sábato Magaldi soube e sabe ainda ser um homem de teatro. 


Maria Thereza Vargas é pesquisadora do teatro e autora de diversas obras, entre as quais Cem Anos de Teatro em São Paulo, em parceria com Sábato Magaldi

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