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Acervo Pessoal/Otto Guerra
Acervo Pessoal/Otto Guerra

Otto Guerra lança autobiografia 'Nem Doeu', que deve inspirar longa-metragem

'Fiz antes de a bebida levar todos os meus neurônios', conta o desenhista sobre abrir o baú de memórias aos 65 anos

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

12 de julho de 2021 | 05h00

Além de trazer saborosos causos frutos de um modo irreverente de viver e de funcionar como um seminal resgate da história da animação no Brasil, Nem Doeu, a autobiografia de Otto Guerra lançada pela editora Mmarte e subtitulada por ele mesmo de Autopornografia, é um estudo sobre como ser “álcooldidata” no cinema latino-americano.

Aos 65 anos, o realizador de Wood & Stock – Sexo, Orégano & Rock’n’roll (2006) resolveu abrir o baú das memórias – “Fiz antes de a bebida levar todos os meus neurônios”, confessa – em forma de um livro de recordações e digressões. Gaúcho de Porto Alegre, nascido em 1956, ele dá o tom jocoso de suas andanças pela vida já na epígrafe, em que usou uma frase do diretor Domingos de Oliveira (1935-2019): “O humor é a única forma de falar sério da vida”. 

Não por acaso, o texto tem ironia mesmo nos parágrafos iniciais: “No caminho entre a sala de parto e o depósito de recém-nascidos, quase ninguém percebeu quando o robusto bebê pegou o prontuário, uma caneta Bic e, ali mesmo, desenhou um pequeno pônei em cujo lombo escreveu, de forma torta, SOS”, escreve Otto, falando de sua origem.

“Quando vi o primeiro álbum do Tintin, eu tinha 13 anos e me deu uma coisa: ‘Putz, o cara está publicando desenhos’. Era uma revista europeia, que encontrei por acaso e vi que era possível viver de quadrinhos. Apostei nisso, mas não era fácil fazer isso em Porto Alegre. E ainda não é. Era uma encrenca conseguir dinheiro com quadrinhos, ainda mais na década de 1970. Então, migrei para fazer filmes para propaganda. Vendi a minha alma ao diabo, porque propaganda deveria ser crime inafiançável”, conta Otto ao Estadão, anunciando já o projeto de fazer uma adaptação dessas suas recordações para o cinema.

Nelas, vão alguns problemas da juventude e a luta recente contra um tumor, que ele já abordou no longa A Cidade dos Piratas (2018), ao mesclar sua própria vivência com tiras de quadrinhos da cartunista Laerte. “Tive a sorte de desenhar desde criança e não tinha muita escolha sobre esse fato. Adorava – meu mundo era dentro dos quadrinhos e das histórias. A minha expectativa era contar histórias, fazer filmes e HQs. E isso era uma coisa que perturbava muito a minha família”, conta o cineasta, que se destacou no cenário dos festivais de cinema a partir dos curtas O Natal do Burrinho (1984), Treiler (1986) e Novela (1992).

“O padrão para minha família era ser médico, advogado, engenheiro. Meu irmão é médico. Quando fiz um comercial para a Coca-Cola, ganhei muito mais grana que ele e minha mãe disse: ‘Meu filho é um gênio!’. Antes eu era o pior, era a ovelha negra. Esses padrões da nossa civilização de dinheiro estão ferrando com tudo. Não que eu não goste de dinheiro, mas não é o objetivo, que é fazer filmes. O (escritor americano Henry David) Thoreau, pré anarquista, já falava: ‘O momento em que o dinheiro vira o objetivo da vida de uma pessoa, essa pessoa está perdida’. Não foi meu caso, faria tudo de novo, do mesmo jeito”, comenta.

A agenda de Otto para o futuro anda movimentada, pois tem dois longas aprovados para desenvolver. Um atende pelo provocativo nome Filho da P.... “É um longa sobre um menino no sertão de Minas. Conta a história de um garoto que é filho da prostituta mais famosa da região e as agruras disso. Ele sai em busca do pai na trama”, conta o diretor, que já produz o primeiro longa infantil de sua Otto Desenhos, chamado Joe e o Vale Vazio. “É sobre uma menina que salva um príncipe. É uma espécie de A História Sem Fim da gente.”

Mas, no passado, o realizador passou por duras situações que são revividas nas 132 páginas de Nem Doeu, com ilustrações de Marco Pilar. “Eu revelava os filmes, na década de 1980, em São Paulo, no laboratório Líder. Aproveitei uma viagem e levei uma fita com o primeiro curta que eu havia feito, O Natal do Burrinho, para Mauricio de Sousa. Ele não me recebeu porque eu deveria ter marcado hora. Fui ao banheiro e chegou um cara do meu lado. Era o próprio Mauricio de Sousa. Nesse momento, entrei em pânico e fiquei feliz. Ali mesmo, eu disse: ‘Oi! Sou de Porto Alegre’. Maurício perguntou o que eu queria. Eu tinha uma cara de 12 anos naquele momento, olhei para ele e disse: ‘Faço desenho animado em Porto Alegre e trouxe um filme’. Ele respondeu: ‘Desenho animado! Então vem comigo’. Ele me levou para a sua sala e, depois, a gente fez um longa dos Trapalhões, que ele produziu, mais uma série da Mônica”, conta Otto.

As situações descritas em Nem Doeu são a cartografia de um artista cuja vida pessoal e a atividade em uma produtora se misturam. “No livro, afirmo que o estúdio não passa da continuação do meu quarto de infância, contando histórias, escrevendo e desenhando quadrinhos”, diz Otto, lembrando de tempos difíceis. “Desanimei bastante nos anos 1990, quando fiz muito comercial – foram cerca de 600. Meu desenho ficou pasteurizado e parei. Com os editais, a situação voltou a se aquecer e nosso cinema disparou. Embalamos com Wood & Stock e não paramos mais. Estou gostando de trabalhar no roteiro do longa baseado no Nem Doeu e voltei até a desenhar.”

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