Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Otávio Júnior, o livreiro do Alemão, conta o cotidiano das crianças nas favelas em dois livros

O escritor e mediador de leitura Otávio Júnior lança 'Da Minha Janela' e 'Grande Circo Favela'

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2019 | 03h00

Otávio Júnior tinha 8 ou 9 anos quando saiu de casa para encontrar os amigos no campinho para uma partida de futebol. No meio do caminho, tinha um lixão. E no lixão tinha um livro que mudou a vida do garoto. 

Não havia exatamente nenhuma mensagem transformadora naquele Don Gatón que alguém jogou fora e Otávio encontrou e levou para casa. “Mas, se não fosse esse encontro, não sei como seria a minha trajetória. Descobri a grande paixão da minha vida ali”, conta Otávio, hoje com 36 anos, e que naquele momento passou a frequentar a pequena sala de leitura da escola, depois as bibliotecas do bairro e as da cidade. Foi quando veio a vontade de ser escritor, e, ao contar isso para os amigos, foi ridicularizado. Ali, percebeu que havia algo a ser feito antes de escrever livros. 

Otávio deixou o sonho descansando e criou o projeto Ler é 10 – Leia Favela. A ideia era aproximar a literatura dos moradores, formar leitores (até para ter com quem conversar sobre os livros que lia) e para provar que é possível realizar sonhos – e essa tem sido sua grande mensagem. 

“Eu sou um grande sonhador. Acho que o ápice do ser humano é ter seus sonhos realizados e, por causa da literatura eu estou tendo esse grande privilégio de realizar um sonho. É sobre isso que vou falar para as crianças quando eu for apresentar meus livros novos: que é possível sonhar e lutar pelos sonhos. O meu está aqui materializado”, diz, apontando para Da Minha Janela, seu novo livro infantil que está sendo lançado agora pela Companhia das Letrinhas e que ele estava vendo pronto pela primeira vez. O outro lançamento, Grande Circo Favela, estava no prelo da Estrela quando o escritor conversou com o Estado e vai ser lançado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, entre os dias 30 de agosto e 8 de setembro.

Por causa de seus projetos de mediação de leitura e formação de leitores, Otávio Júnior ficou conhecido como o ‘livreiro do Alemão’, embora tenha nascido e viva até hoje na Penha, no Rio de Janeiro. Sua trajetória é contada em O Livreiro do Alemão, publicado em 2011 pela Panda Books e que deve virar filme. De 2011 para cá, há outras histórias.

Da Minha Janela

Há muito tempo Otávio queria escrever um livro sobre o que ele e milhares de crianças veem de suas janelas – um pouco inspirado, também, pelo seu filho que, pequeno, olhava a Igreja da Penha ali mais adiante e imaginava que ela era um castelo encantado. 

Otávio é morador do Complexo da Penha, e o que ele via quando menino é basicamente o que João Victor, hoje com 11 anos, vê: crianças brincando, os amigos passando, os pais chegando do trabalho, os irmãos voltando da escola – e coisas ruins.

Autor de O Chefão Lá do Morro e O Garoto da Camisa Vermelha, publicados pela Autêntica com ilustrações de Angelo Abu, Otávio Júnior realiza mais esse sonho agora com Da Minha Janela, que ele lança pela Companhia das Letrinhas e que, antes de chegar às livrarias, foi enviado para 30 mil assinantes do Leiturinha

Para ilustrar a obra, convidou a argentina Vanina Starkoff, que vive no Brasil, com a condição de que ela fosse conhecer as comunidades cariocas. Juntos, visitaram cerca de 10. “Em Manguinhos, aconteceu uma situação que é recorrente. Houve um confronto entre policiais e traficantes e ficamos na rua, no meio do fogo cruzado. Conseguimos ir para a biblioteca e havia crianças abrigadas lá”, conta. 

Vanina viu os meninos e as meninas num momento de tensão e conseguiu, depois desse passeio por diversas regiões, captar tudo o que envolve a vida na favela: a diversidade e os momentos de alegria e de tristeza. O resultado é um livro supercolorido, com passagens um pouco sutis, e mais escuras, por questões que afligem os moradores, como as fortes chuvas e os confrontos – e as balas perdidas e a impossibilidade de ir para a escola nesses dias. 

“O Rio é uma cidade partida por causa das facções e das milícias, e a ideia desse projeto foi juntar todas as favelas em uma só. No livro, faço uma brincadeira com o que a criança de cada favela vê de sua janela; por exemplo, o mar, no caso da Mangueira, ou o Maracanã, do Morro dos Macacos”, conta o autor.

Ainda é uma infância livre, explica Otávio, mas as crianças têm seus códigos. “E elas entendem os sinais do lugar, sabem o significado dos fogos e percebem pelo olhar dos moradores quando vai ter uma operação.”

Ainda assim, tem que ter espaço para o sonho, para brincar e se divertir. “E elas têm que ir para a escola. Eu fico muito triste quando vejo que as crianças não tiveram aula por causa dos conflitos e quis tocar nesse assunto no livro para chamar a atenção para essa questão inaceitável.”

Otávio Júnior nunca pensou em sair da favela e encontrou na literatura – como escritor ou mediador de leitura – a sua missão de vida. “Creio que posso ajudar um pouco na transformação do bairro e das favelas. A literatura mudou minha vida completamente no que diz respeito aos meus sonhos e profissão. Quero ser um agente transformador e tem que estar lá sentindo as dores que meus familiares e amigos sentem”, diz o autor que gostaria de escrever um livros sobre seus pais, e sobre profissões invisíveis na literatura – ele é pedreiro e ela, dona de casa e faxineira. 

Ele tem ideias para muitos outros livros e diz que quer se concentrar em sua carreira de escritor agora. Mas não consegue deixar de lado sua origem como formador de leitores e tem se dedicado, nos últimos anos, a estudar jogos e a criar jogos literários. Acredita que com o que já recebeu pelos dois livros que lança agora por editoras grandes – o outro é Grande Circo Favela – vai conseguir desenvolver pelo menos um. “E vou sair com a maleta vendendo”, diz, animado o autor que será o destaque da Estrela na Bienal do Livro do Rio, que começa na sexta, 30. O estande será ambientado com a tenda de um circo na favela e quem passar por lá no sábado, 31, vai ver a bateria mirim do Salgueiro.

Isso porque o samba-enredo da escola para 2020 e o livro de Otávio retratam o mesmo personagem: Benjamin de Oliveira, o primeiro palhaço negro do Brasil. Ele está lá em Grande Circo Favela, mas a obra traz a primeira protagonista menina de Otávio, uma garota de 10 anos que sonha em montar um circo na favela. “Tem toda uma jornada de sonho e empreendedorismo”, conta o autor.

 

Da Minha Janela

Autor: Otávio Júnior

Ilustradora: Vanina Starkoff

Editora: Companhia das Letrinhas (48 págs.; R$ 34,90)

 

Grande Circo Favela

Autor: Otávio Júnior

Ilustradora: Roberta Nunes

Editora: Estrela Cultural (32 págs.; R$ 39,90)

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