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Oswald de Andrade completaria 125 anos neste domingo

Autor de romances, manifestos, peças, ensaios, o escritor paulista escolheu a pluralidade como linha de atuação crítica

Beatriz Azevedo, Especial para O Estado de S. Paulo

10 Janeiro 2015 | 03h00

Oswald de Andrade disparou, do século 20, linhas elétricas e flechas fulminantes. O autor, que completaria 125 anos neste 11 de janeiro, criou aforismos, fragmentos filosóficos, “poemas-piada”, bordões revolucionários e frases emblemáticas que continuam reverberando até hoje.

Autor de romances, crônicas, manifestos, peças teatrais, ensaios, o escritor paulista é também o criador do menor poema da língua portuguesa: “amor humor”. Amor é o título; humor é o poema.

Se menos é mais, de menos a menos, Oswald é também merecedor daquele “Epitáfio” de José Paulo Paes (para Manuel Bandeira, que se dizia um “poeta menor”): Poeta menormenormenormenormenor Menormenormenormenormenorenorme”.

Um poeta enorme, no mínimo, bardo “de orelhada”, com ouvido musical que não é normal, Oswald intuiu e entoou que “a gente escreve o que ouve – nunca o que houve”. No Manifesto Pau Brasil (1924) alertava para a “contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos”.

Oswald já sabia o que é (ainda hoje) fundamental para o Brasil: “A floresta e a escola”. É trágico constatar que menos de um século depois a floresta já foi destruída – e ainda não se completou a escola. Aquele dilema brasileiro, o que é construção, o que é ruína?! Ou como lamenta o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: “Infelizmente, parece que já deixamos de ter uma e ainda não temos a outra. Pois sem escola, já não cresce a floresta”.

Oswald, no entanto, fez escola com suas florestas de palavras, com o célebre “Tupi, or not tupi, that is the question”. Neste aforismo do Manifesto Antropófago (1928), Oswald aglutina em poucos caracteres – em apenas 8 palavras – uma impressionante densidade de ressignificações. O autor devora Hamlet, Shakespeare e os tupinambás, referenciais da cultura ocidental, ícones do Renascimento.

Aludindo à fala da personagem Hamlet, “to be or not to be, that is the question”, Oswald substitui a angústia metafísica do príncipe Hamlet, de origem patriarcal, por uma formulação antropofágica, de viés matriarcal, encarnada no sentido não cristão de vingança para os tupinambás. A Antropofagia é parte essencial do complexo social da vingança entre os Tupi, e portanto, na tradução filosófica de Oswald, a questão não é mais “ser ou não ser”, mas sim “Tupi, or not Tupi”.

Entre tantas outras, destaco esta máxima por sua habilidade ao parodiar a construção de Shakespeare em sentença tão curta, lançando mão apenas de um termo da Língua Geral (Tupi), misturado a outros extraídos do inglês (or, not), criando uma frase sem dispor de palavras da língua portuguesa – o poeta brasileiro não inclui nenhum verbete em português no seu “Tupi, or not Tupi, that is the question”.

Falando em Antropofagia, sobretudo para os incautos que a confundem com o samba do ‘criolo’ doido, é sempre bom lembrar: devorar é sobretudo criticar. Comer em alta voltagem crítica. 

A exemplo do Manifesto Antropófago, a utilização da polifonia de autores, e a partir desta, a multiplicação de pseudônimos, revela a eleição da pluralidade como linha de atuação crítica. Oswald de Andrade não apenas cita Marx, Freud e Nietzsche. O mais importante é que ele cria um Freud Nietzscheano, um Marx Freudiano, um Nietzsche Oswaldiano. A paródia e a mistura de elementos díspares numa mesma imagem sempre foram suas estratégias preferidas contra as ortodoxias.

Ao mesclar Anchieta e Padre Vieira, Jacy e Guaracy no seu Manifesto Antropófago, Oswald está propondo uma reflexão sobre as hierarquias entre o que seria “pré-lógico” e “lógico”, entre o que é considerado “selvagem” ou “civilizado”. Confrontando o materialismo Marxista com a psicanálise Freudiana, e as visões do “selvagem” a partir da ótica de Rousseau ou de Montaigne, Oswald constrói o seu ponto de vista crítico. Nada disso é o “samba do ‘criolo’ doido”, ou um “caldeirão de misturas” aleatórias. Do ponto de vista de Oswald, “Freud é apenas o outro lado do catolicismo. Como Marx é o outro lado do capitalismo”.

Minha pesquisa sobre a obra de Oswald de Andrade, que sairá em livro em 2015, procura exatamente destacar a heterodoxia de Oswald, a justaposição anárquica de referenciais teóricos, enquanto devoração crítica. A pluralidade Oswaldiana parece afirmar que sua visão de mundo é, por natureza, contra qualquer ortodoxia.

Para Oswald, “O homem europeu falou demais. Mas a sua última palavra foi dita pelo príncipe Hamlet, que Kierkegaard repetiu em Elsenor”. (…) “É preciso ouvir o homem nu”. No texto Mensagem ao Antropófago Desconhecido, Oswald menciona “a última palavra dita pelo príncipe Hamlet”. Como sabemos, a fala da peça de Shakespeare escrita no século 16 é exatamente “e o resto é silêncio”. Ela é pronunciada por um Hamlet à beira da morte. Assim, Oswald afirma que o civilizado, moribundo, já monopolizou demais a palavra, e que sua última fala, “o resto é silêncio”, seria a “deixa” (teatral) para “passar a palavra” ao homem nu. 

"A nossa independência ainda não foi proclamada"

Aos 20 anos, presenciou no Rio de Janeiro a revolta dos marinheiros liderada por João Cândido em 1910: “Buscavam a extinção do regime primitivo da chibata”. O poeta adormeceu no banco da praça e, ao acordar, escreveu: “Eu estava diante da revolução. Seria toda revolução uma aurora?”.

Enfant terrible da burguesia paulistana, seu padrinho de casamento com Tarsila do Amaral foi ninguém menos que o presidente da República, Washington Luis. Herdeiro da Avenida Paulista e de grande parte de Cerqueira César, nas décadas de ativista comunista morava no barraco de um motorista de táxi, seu amigo.

Oswald conseguiu ser expulso tanto da Aristocracia Rural Paulista – propôs no Congresso da Lavoura que latifundiários dividissem os lucros da terra – como também do Partido Comunista. Suas contradições pessoais, e também as da história do Brasil, encontram-se nas frases emblemáticas do Manifesto Antropófago: “A nossa independência ainda não foi proclamada”. 

Em entrevista a Milton Carneiro, Oswald reafirmou essa ideia: “Precisamos, menino, desvespuciar e descolombizar a América e descabralizar o Brasil. Os índios eram sereníssimos, absolutamente ametafísicos. Não sofriam de psicose como todos nós sofremos hoje, porque pensavam a favor da natureza a céu aberto, em ambiente ilimitado, sem os entraves e as limitações que nossa civilização turbilhonante, hertziana, ultravioleta proporciona ao pensamento comprimido do brasileiro da atualidade”. 

Até parece que Oswald estava antevendo o Antropoceno, o desenvolvimentismo destrutivo do século 21, as novas cruzadas ortodoxas, de todos os lados... Lutando por sua liberdade de ir e devir, a Antropofagia permanece potente, porque pode mudar. Proposição eminentemente pluralista e heterodoxa, a Antropofagia de Oswald ecoa aquela máxima que muito bem o define: “Todas as religiões, mas nenhuma igreja”. Sem “papas na língua”, o poeta esteve sempre em movimento, e propôs a noção de que a cultura antropofágica é processo de reinvenção infinita. 

Oswald de Andrade permanece vital para o mundo contemporâneo. Seus questionamentos abalam “o pensamento comprimido do brasileiro da atualidade”. Oswald já defendia, no século passado, que se escutasse os ameríndios, pois eles não sofrem “de psicose como todos nós sofremos hoje”. O poeta queria “ouvir o homem nu”; o resto é silêncio. E a pergunta de Oswald continua ecoando: “Será esse o brasileiro do século 21?”. 

BEATRIZ AZEVEDO É COMPOSITORA, POETA E AUTORA DE 'ANTROPOFAGIA PALIMPSESTOS SELVAGENS' E 'ENCONTROS OSWALD DE ANDRADE', AMBOS NO PRELO 

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