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'Os Velhos Também Querem Viver' recria a tragédia Alceste

Livro coloca personagens de um presente lendário, em Feras, na Tessália, para Sarajevo dos anos de 1990 sob o cerco do exército

Mariana Ianelli - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2015 | 03h00

Caso prodigioso na literatura portuguesa, Gonçalo M. Tavares, aos 44 anos, já acumula mais de 30 livros, entre ficções curtas, romance, poesia, teatro e ensaio. Ele que já criou uma epopeia do homem contemporâneo, contrariando o fôlego curto da poesia pós-moderna para empreitadas no gênero, agora transplanta Eurípides para o século 20. Os Velhos Também Querem Viver recria a tragédia Alceste, do século 5.º a.C., transpondo os personagens de um presente lendário, em Feras, na Tessália, para Sarajevo dos anos de 1990 sob o cerco do exército sérvio. 

Admeto, rei de Feras na tragédia de Eurípides, na “novela-poema” de Gonçalo é um entre os milhares de feridos em Sarajevo que não querem morrer. Num moderno cenário de guerra, o Deus Apolo, que “há muito recusou a distância divina / que impede os olhos de distinguirem um amigo”, que intercede pela vida de Admeto numa barganha com a Morte, e o herói Hércules em férias, na pele de um hóspede inoportuno e sedutor, são da estirpe cômica dos mitos demasiado humanos de Heine. 


Introduzindo o sarcasmo no coro dos “contabilistas”, que vagueiam pela cidade contando os mortos, e mais sarcasmo na lógica de comerciante dos que estão sempre a negociar um pouco mais de vida, Gonçalo fala de uma hipocrisia universal. Alceste, a única em toda a cidade que aceita morrer no lugar de seu marido Admeto, sacrifica-se por um covarde. “A questão é esta, não há outra: todos querem viver.” Jovens e velhos, pais e filhos, dentro e fora de Sarajevo, querem viver. “E por que razão a vida de um velho valeria menos / do que a vida de alguém que agora começa?”. A vida foge a um cálculo simples, é o que Feres, pai de Admeto, ensina ao filho: “Um velho como eu é pelo menos dois homens (...), pela experiência, pela sabedoria”. Eis a lógica da poesia como uma segunda matemática, embaralhando o trágico e o cômico. 

O maior alvo do sarcasmo nessa tragédia reinventada é o coro, esse “anónimo coletivo / que tem sugestões, barafusta, recrimina, aconselha, murmura”, mas não age: “Agir não é com eles, nunca foi”. De cidadãos téssalos a homens e mulheres de Sarajevo, lá está ele, sempre ao redor de uma tragédia, em qualquer lugar e tempo, o corpo coletivo de observadores, os omissos, os curiosos, “escolhidos por instituição absolutamente internacional e pacífica; / homens e mulheres sem braços, apenas com olhos e ouvidos; / o coro perfeito, portanto”. 

A injustiça moderna em tempos de guerra é a das máquinas que não param, a morte moderna é a que teme uma intervenção não no destino, “esse sentido abstrato para onde antigamente caminhavam as coisas”, mas na matéria. O narrador moderno, sarcástico, desconfiado, “esse, não acredita”. Numa dicção que é própria de Gonçalo, no seu tom “cruel mas exato”, o leitor verá Eurípides ressurgir, na essência de um drama atemporal, no cenário de uma Sarajevo devastada. Supondo que esse leitor seja também um cético, o que ele verá, no mínimo, é uma grande façanha de linguagem.

TRECHO

A Morte tem de levar alguém, já se sabe, / Trata-se de uma questão de peso último. / Sem corpo às costas, diz a Morte, sinto-me vazia - / Como um estômago que ainda não comeu. / E com tanta fome anda a morte pelas ruas da cidade de Sarajevo, / Que os homens, os piedosos universais, até por ela sentem compaixão. / E quem dá de comer a quem tem esta fome merece, pelo menos, / O inferno, ou mais abaixo - é essa a opinião geral.” (...) 

“O coro é composto de homens e mulheres de Sarajevo / “Que vagueiam pela cidade cercada; são bons e maus, / Como todos os coros. / Por vezes esse prazer sádico de estar forte e vertical / Ao pé de quem ensaia já a última posição que a morte exige; / Outras vezes uma compaixão genuína - / Um modo próximo de lamentar o que de mau acontece ao outro. / Mas não ajudam, esses homens e mulheres, / Não agem - lamentam, comentam, fazem juízos, / Críticas ou elogios. São observadores.”

OS VELHOS TAMBÉM QUEREM VIVER

Autor: Gonçalo M. Tavares

Editora: Foz (88 págs.,R$ 24,90)

MARIANA IANELLI É POETA E AUTORA DE O AMOR E DEPOIS, ENTRE OUTRAS OBRAS

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