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‘Os Rebeldes’ analisa os escritores da beat generation americana

Livro de Claudio Willer propõe investigação a caminho de um anarquismo místico

Rodrigo Petronio , Especial para O Estado de S. Paulo

07 Novembro 2014 | 19h00

Há uma rica tradição da teoria da literatura que se propõe recuperar o elo perdido entre a literatura moderna e tradições religiosas ocidentais ou orientais, antigas ou recentes. Alguns teóricos realizam essa tarefa a partir de um recuo antropológico às raízes míticas e rituais da própria literatura. Entre eles se encontram alguns notáveis helenistas ingleses, como Cornford, Guthrie, Dodds, West. Em outros casos, reconstrói-se a herança de uma tradição específica. É o caso dos estudos de Jonas, Monerot, Yates, Festugière sobre os gnósticos antigos e sua presença na arte e no pensamento moderno. 

Além desses estudos, há teóricos que ressaltam a importância da dimensão religiosa em obras de arte e de literatura aparentemente profanas. É o caso de Frye, Mielietínski, Steiner, Webb. Por seu lado, o papel do mito e das formas arcaicas de pensamento, recuperados pelos poetas e artistas modernos, conta com uma vasta e eminente lista de entusiastas: de Paz a Cassirer, de Warburg a Eliade, de Jung a Caillois, de Lévi-Strauss a Didi-Huberman. Já os escritores que exploraram visões de natureza religiosa ou mística em suas obras formam uma lista quase infinita. 

No Brasil, essa área de estudos na interface entre a ciência da religião, a antropologia, a literatura e a arte ainda continua pouco explorada. A despeito do estudo impecável de Moacir Amâncio, que vincula a poeta israelense contemporânea Yona Wollach à cabala, e dos belos estudos de Eduardo Losso, Faustino Teixeira e Marco Lucchesi sobre a relação entre literatura e mística, essas interfaces ainda precisam ganhar maior espaço e visibilidade. 

Nesse sentido, o trabalho desenvolvido pelo poeta, ensaísta e tradutor Claudio Willer pode ser visto como pioneiro. Em Gnose, Gnosticismo e Poesia Moderna (2010), resultado de seu doutorado, Willer havia explorado as origens do imaginário transgressor que funda a modernidade. Encontrou-as nas heresias gnósticas do início da era cristã. Agora a L&PM acaba de lançar Os Rebeldes: Geração Beat e Anarquismo Místico

Resultado de uma minuciosa pesquisa de pós-doutorado, Willer parte do conceito de anarquismo místico para analisar os escritores direta ou indiretamente ligados à beat generation norte-americana, como Gregory Corso, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Gary Snyder, William Burroughs. No centro, Jack Kerouac, cujo Visões de Cody (1952), extensão do clássico On the Road, serve de linha unificadora da argumentação. 

Willer encontra as origens remotas dessa geração de escritores na chamada doutrina do Espírito Livre, de raiz medieval. Despojamento radical, marginalidade social, crítica dos costumes, insubordinação religiosa. Essas seriam algumas das crenças recuperadas pela geração beat, que as encarna tanto em seu aspecto místico e visionário quanto em sua dimensão política de combate a valores do século 20. 

Interessante notar que essas referências a doutrinas religiosas marginais e relatos de asceses estão presentes nas próprias obras desses escritores. Portanto, não se trata apenas de uma conjectura teórica, mas de um procedimento criativo interno à literatura. Em todos os casos, a literatura transforma-se na utopia de uma religião total. Em um mundo desencantado, na acepção de Max Weber, onde mesmo as instituições religiosas perdem paulatinamente sua aderência à vida, vitimadas pela racionalização, esses escritores encontram na literatura um meio de ressacralizar a experiência. 

Os aspectos tácteis, auditivos, plásticos, imagéticos, ou seja, o campo do imaginário é entendido como uma força capaz de reconectar o ser humano a forças ancestrais adormecidas. A literatura se transforma em mitografia: ao invés de fornecer um relato edulcorado para o consumo do mercado editorial, os autores convertem suas próprias vidas em mito. Narram-se a si mesmos como a encarnação de deuses e demônios. 

Entre santidade e pecado, entre licenciosidade e ascese, entre marginalidade e memória, entre lei e transgressão, fica claro que o sagrado que os beats pretendem recuperar não é isento de ambiguidade. Ambiguidade esta anterior às codificações das instituições religiosas, essencial à própria dinâmica do sagrado, como o conceberam Rudolf Otto e Georges Bataille. 

“Tudo me pertence porque sou pobre.” Essa máxima de Kerouac parece definir todo projeto difuso desses anarquistas místicos que encontraram na literatura o seu Grande Veículo. Willer descreve esse trajeto como teórico. Mas também o vive e o viveu como poeta, ao lado de Roberto Piva, Antonio De Franceschi, entre outros. Representantes de uma geração de poetas brasileiros sempre às voltas com o sagrado-profano da poesia. Sobre eles, ainda virão hagiografias. Mas esta é uma outra história. 

RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR E FILÓSOFO. AUTOR, COORDENADOR, EDITOR DE DIVERSAS OBRAS E PROFESSOR DA FAAP

OS REBELDES

Autor: Claudio Willer

Editora: L&PM (296 págs.,R$ 34,90)

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