Alex Wong/Getty
Alex Wong/Getty

Os gestos e a voz de Amanda Gorman

Poeta que participou da posse de Joe Biden explorou técnicas de contadores de histórias

Dirce Waltrick do Amarante, Especial para o Estadão

15 de abril de 2021 | 20h00

Em uma entrevista à ex-primeira-dama norte-americana Michelle Obama, publicada na revista Times em fevereiro deste ano, a jovem poeta Amanda Gorman, que, aos 22 anos, acabava de performar seu poema The Hill we Climb (Subimos o morro, na minha tradução) na posse presidencial de Joe Biden e de sua vice Kamala Harris, fala de sua trajetória, de suas referências e da poesia que ganhou a atenção mundial.

Gorman conta que na escola leu poemas de homens brancos já mortos, “os clássicos”, mas não se limitou a eles. A poeta e ativista se diz leitora de poetas negros contemporâneos, como Yusef Komunyakaa, Tracy K. Smith e Sonia Sanchez, nomes ainda pouco conhecidos por aqui.

Para compor The Hill we Climb, especificamente, Gorman explorou as técnicas dos contadores de histórias. A oralidade é, aliás, fundamental para o seu poema, que, a meu ver, tem uma cadência ritualística que se assemelha às das histórias sagradas. Segundo o escritor Joseph Bruchac, que estuda a cultura dos povos indígenas da América, “as histórias sagradas não devem ser vistas como mera combinação de palavras; elas não são histórias memorizadas e sem vida, narradas automaticamente. Elas carregam uma energia - uma verdade, uma lição, um insight, uma emoção - que pode penetrar em nosso ser e conectar-nos com o passado distante e com forças poderosas”.

Desse modo, a voz, a expressão e os gestos de Gorman são extremamente importantes para se ter a real dimensão de seus versos. É o que se pode observar ao assistir à performance, disponível na internet, do seguinte fragmento de The Hill we Climb: “Baixamos nossas armas e assim podemos estender nossos braços uns aos outros. Não desejamos o mal a ninguém e buscamos a paz para todos. Deixem o mundo, pelo menos, dizer que isso é verdade, que mesmo quando sofremos, crescemos. Mesmo quando ferimos, desejamos o bem. Mesmo quando cansamos, tentamos. Pois estaremos sempre juntos, vitoriosos, não porque nunca mais conheceremos a derrota, mas porque nunca mais semearemos a discórdia. A escritura sagrada nos diz que cada um de nós poderá se sentar debaixo de sua videira e de sua figueira, e ninguém poderá nos amedrontar”.

Em razão da ênfase na oralidade, compositores não ficam de fora do rol de referências da poeta, que cita, por exemplo, o alemão Hans Zimmer, o italiano Dario Marianelli, e o norte-americano Michael Giacchino, todos homens brancos, que compuseram trilhas para filmes norte-americanos, como O Rei Leão, Orgulho e Preconceito e Ratatouille, respectivamente.

Um dos versos de The Hill we Climb foi inspirado, como afirma Gorman, na música I Am Moana (Song of the Ancestors) (Eu sou Moana (Canção dos ancestrais), de Lin-Manuel Miranda, que integra a trilha sonora do filme Moana, de 2016: “Nós, os herdeiros de um país e de uma época, onde uma garota negra e franzina, descendente de escravos e criada por uma mãe solteira pode sonhar em se tornar presidente, só pelo fato de estar recitando para um”, conforme lemos no poema. Há nessa frase também uma referência a uma afirmação de Michelle Obama, em que ela falava que, como primeira-dama, acordava todos os dias em uma casa construída por escravos.

The Hill We Climb tem ainda ecos de outras referências de Gorman: Frederick Douglass, filho de uma escrava com um homem branco, um nome fundamental na causa abolicionista, que pregava que sem luta não há progresso; Abraham Yusef Komunyakaa Lincoln, autoditada, vindo de uma família carente, que se tornou o décimo sexto presidente dos Estados Unidos; e Winston Churchill, figura controversa, pois, se por um lado foi um líder fundamental na Segunda Guerra Mundial, por outro é acusado ainda hoje, ou sobretudo hoje, de ser “supremacista branco” e de ter sido responsável por piorar os efeitos da grande fome que matou milhões de pessoas em Bengala no ano de 1943.

Essas referências, mencionadas pela própria poeta, dão uma ideia da diversidade de gêneros, nomes e culturas que ajudaram e ainda ajudam Gorman a construir sua obra. Essa multiplicidade de vozes, que unidas são mais pujantes, é o que parece querer dizer a poeta: “Estamos lutando para construir nossa nação com o propósito de compor um país comprometido com todas as culturas, cores, características e condições humanas. E assim lançamos nosso olhar não para o que está entre nós, mas para o que está à nossa frente. Damos um basta à divisão porque sabemos priorizar nosso futuro. Precisamos primeiro deixar de lado nossas diferenças”.

Instigada pela própria poeta, mais especificamente por uma frase de seu poema (“uma garota negra e franzina, descendente de escravos e criada por uma mãe solteira pode sonhar em se tornar presidente, só pelo fato de estar recitando para um”), me aventurei a traduzir os fragmentos citados neste artigo. Senti-me, pelo simples fato de tê-los traduzido, como aquela garota franzina, mas cheia de energia, que ergueu sua voz sem medo diante de uma audiência mundial que a observava e julgava.

TRADUZIU, ENTRE OUTROS, EDWARD LEAR, JAMES JOYCE, LEONORA CARRINGTON, GERTRUDE STEIN

*

Subimos o Morro

(Poema de Amanda Gorman, tradução de Dirce Waltrick do Amarante)

Quando amanhecer, vamos perguntar onde podemos encontrar luz nesta sombra sem fim? Carregamos um fracasso, precisamos cruzar um oceano. Enfrentamos o dragão.

Aprendemos que o silêncio nem sempre é paz e que as normas e as noções do que é justo nem sempre definem a justiça. E, contudo, amanhece antes mesmo de nos darmos conta de que tivemos êxito de algum modo, de que resistimos de algum modo e percebemos uma nação que não está esfacelada, mas tão somente inconclusa.

Nós, os herdeiros de um país e de uma época, onde uma garota negra e franzina, descendente de escravos e criada por uma mãe solteira pode sonhar em se tornar presidente, só pelo fato de estar recitando para um.

Está certo, estamos longe de sermos polidos, longe de sermos puros, mas isso não significa que iremos lutar para constituir uma nação perfeita. Estamos lutando para construir nossa nação com o propósito de compor um país comprometido com todas as culturas, cores, características e condições humanas. E assim lançamos nosso olhar não para o que está entre nós, mas para o que está à nossa frente. Damos um basta à divisão porque sabemos priorizar nosso futuro. Precisamos primeiro deixar de lado nossas diferenças.

Baixamos nossas armas e assim podemos estender nossos braços uns aos outros. Não desejamos o mal a ninguém e buscamos a paz para todos. Deixem o mundo, pelo menos, dizer que isso é verdade, que mesmo quando sofremos, crescemos. Mesmo quando ferimos, desejamos o bem.

Mesmo quando cansamos, tentamos. Pois estaremos sempre juntos, vitoriosos, não porque nunca mais conheceremos a derrota, mas porque nunca mais semearemos a discórdia.

A escritura sagrada nos diz que cada um de nós poderá se sentar debaixo de sua videira e de sua figueira, e ninguém poderá nos amedrontar.

Se estamos à altura do nosso tempo, então a vitória não tornará mais leve o fardo, mas todas as pontes que fizemos são a promessa de abertura, o morro que subiremos se ousarmos, porque ser americano é mais do que o orgulho que herdamos. É o passado que trilhamos e como podemos repará-lo.

Vimos uma força que partiu nossa nação em vez de partilhá-la, que destruiria nosso país se significasse o adiamento da democracia.

E esse esforço por muito pouco não foi bem-sucedido. Mas se a democracia periodicamente pode ser adiada, definitivamente nunca pode ser vencida. Nessa verdade, nessa fé, nós confiamos. Pois enquanto mantemos os olhos no futuro, a história tem seus olhos sobre nós.

Esta é simplesmente uma era de redenção. Tememos – sua ilusão. Não nos sentimos preparados para sermos os herdeiros de uma hora tão terrível, mas ela nos dá o poder de sermos os protagonistas de um novo capítulo, para oferecermos esperança e alegria para nós mesmos.

Antes, perguntávamos: “como poderemos triunfar sobre a catástrofe? Agora afirmamos: “como a catástrofe poderia triunfar sobre nós!?”. Não marcharemos de volta àquilo que foi, mas nos moveremos para aquilo que será, um país que está partido, mas inteiro, que é condescendente, mas ousado, destemido e livre. Não voltaremos atrás ou seremos interrompidos por intimidação.

Porque sabemos que a nossa inação e inércia serão a herança da próxima geração. Nossos erros irão se tornar seus encargos. Mas uma coisa é certa. Se unirmos clemência com dever e dever com direito, então o amor se tornará nosso legado e destino, o direito nato das nossas crianças.

Então, permitam que deixemos um país melhor do que aquele que nos legaram, com cada sopro do meu golpeado peito de bronze, vamos fazer desse mundo machucado um maravilhoso. Surgiremos dos morros dourados no oeste, surgiremos do nordeste varrido pelo vento onde nossos ancestrais fizeram a primeira revolução. Surgiremos das cidades cercadas de lagos dos estados do meio-oeste.

Surgiremos do sul banhado pelo sol. Vamos reconstruir, reconciliar e resgatar, em todo recanto da nossa nação, em todos os cantos chamados de nosso país, nossas pessoas distintas e belas, vamos emergir maltratados e belos.

Quando amanhecer, sairemos da sombra, radiantes e destemidos.

A nova aurora surge porque a libertamos, pois há sempre luz se formos ousados o bastante para vê-la, se formos ousados o bastante para sê-la.

*

The Hill We Climb

Amanda Gorman

When day comes, we ask ourselves where can we find light in this never ending shade? The loss we carry, a sea we must wade. We braved the belly of the beast.

We've learned that quiet isn't always peace and the norms and notions of what just is, isn't always justice. And yet the dawn is hours before we knew it, somehow we do it, somehow we’ve weathered and witnessed a nation that isn't broken but simply unfinished.

We, the successors of a country and a time, where a skinny black girl descended from slaves and raised by a single mother can dream of becoming president, only to find herself reciting for one.

And yes, we are far from polished, far from pristine, but that doesn't mean we are striving to form a union that is perfect. We are striving to forge our union with purpose, to compose a country committed to all cultures, colors, characters, and conditions of man. And so we lift our gazes not to what stands between us but what stands before us. We close the divide because we know to put our future first. We must first put our differences aside.

We lay down our arms so we can reach out our arms to one another We seek harm to none and harmony for all. Let the globe, if nothing else, say this is true, that even as we grieved, we grew. That even as we hurt, we hoped.

That even as we tired, we tried. That we’ll forever be tied together, victorious, not because we will never again know defeat, but because we will never again sow division.

Scripture tells us to envision that everyone shall sit under their own vine and fig tree, and no one shall make them afraid.

If we’re to live up to our own time, then victory won't lighten the blade but in all the bridges we've made, that is the promise to glade, the hill we climb if only we dare, it's because being American is more than a pride we inherit. It's the past we stepped into and how we repair it.

We've seen a force that would shatter our nation rather than share it, would destroy our country if it meant delaying democracy.

And this effort very nearly succeeded. But while democracy can be periodically delayed, it can never be permanently defeated. In this truth, in this faith, we trust. For while we have our eyes on the future, history has its eyes on us.

This is the era of just redemption. We feared – at its deception. We did not feel prepared to be the heirs of such a terrifying hour, but within it we found the power to author a new chapter, to offer hope and laughter to ourselves.

So, while once we asked, “how could we possibly prevail over catastrophe?”, now we assert, “how could catastrophe possibly prevail over us?” We will not march back to what w0as, but move to what shall be, a country that is bruised but whole, benevolent but bold, fierce and free. We will not be turned around or interrupted by intimidation.

Because we know our inaction and inertia will be the inheritance of the next generation. Our blunders become their burdens. But one thing is certain. If we merge mercy with might and might with right, then love becomes our legacy and change, our children's birth right.

So let us leave behind a country better than one we were left with, every breath from my bronze pounded chest, we will raise this wounded world into a wondrous one. We will rise through the gold-limbed hills in the west, we will rise from the windswept northeast where our forefathers first realized revolution. We will rise from the lake-rimmed cities of the Midwestern states.

We will rise from the sun-baked South. We will rebuild, reconcile, and recover, in every known nook of our nation, in every corner called our country, our people diverse and beautiful, will emerge battered and beautiful.

Tudo o que sabemos sobre:
literaturaAmanda Gormanpoesia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.