Os críticos versus o enigma

A polarização da leitura crítica sobre Machado se deu entre a noção de localismo e universalidade

Francisco Quinteiro Pires,

26 de setembro de 2008 | 23h59

Não há sujeito mais corajoso do que um crítico de Machado de Assis, o maior enigma da literatura brasileira. Tal como a esfinge na entrada de Tebas, cidade da Grécia antiga, a obra do Bruxo do Cosme Velho lança ao leitor aventureiro a famosa advertência: "Decifra-me ou te devoro!"  E no início, o teatro Um romance pelo avesso Corpo de pedra sem nenhum rosto 'As casas de Machado não tinham jardim' Concisão com HQ e cordel Diário da loucura O pai da prosa brasileira Um escritor saudosista Assim mesmo, muitos correram o risco da devoração, tendo o prazer de legar à posteridade as pistas para um possível desvendamento. A resposta, na Antiguidade, no século 19 e hoje, é a mesma. Ela está no homem, aquela criatura que pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois e à tarde tem três, e para a qual devem estar voltadas as atenções. Como um dia voltou Machado de Assis, para se tornar um autor universal sendo ao mesmo tempo local. Já no berço, a polarização da leitura crítica sobre Machado se deu entre a noção de localismo e universalidade. Esse embate sinaliza outra questão maior: o que é o Brasil e, por tabela, qual o lugar que o País ocupa no mundo. Essa é uma constante cujos contornos apareceram mais ou menos nítidos nos primeiros críticos, que assestaram a artilharia quando o autor carioca ainda era vivo. Autor de Os Leitores de Machado de Assis, Hélio de Seixas Guimarães estrutura a fortuna crítica do Machado em três "tríades": Sílvio Romero, José Verissimo e Araripe Júnior; Astrojildo Pereira, Lucia Miguel Pereira e Augusto Meyer; e John Gledson, Alfredo Bosi e Roberto Schwarz. Ao idealizar a classificação, Guimarães tem em mente uma afirmação do crítico Antonio Candido no ensaio Esquema de Machado de Assis, segundo a qual as obras de grandes escritores permitem que, nelas, "cada grupo e cada época encontrem as suas obsessões e as suas necessidades de expressão". A primeira trinca vê Machado pela ótica da "negatividade". O lugar único da obra machadiana provoca espanto: o arsenal crítico parece despreparado para absorver a desconcertante novidade. Machado de Assis abre mão dos recursos do romantismo para elaborar outra estrutura literária. Dono de um humor do tipo inglês, ele causava espécie dentro de uma cultura subordinada à francofilia. Entre outras coisas, o escritor é acusado de ter uma "imaginação fria", sem exibições sentimentais. Nos anos 1890, Araripe e Verissimo reagiram a Romero que, na década anterior, tachara Machado de "tênia" e de criador de "bolorenta pamonha literária". Segundo Guimarães, que desde 1997 pesquisa as críticas ao escritor, Verissimo foi o primeiro a tirar Machado do enquadramento localista. Sílvio Romero, autor de Machado de Assis: Estudo Comparativo de Literatura Brasileira, valeu-se de teorias deterministas, em que fisiologia e raça baseiam o juízo sobre o escritor, para açoitar o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. "As críticas de Sílvio Romero são ataques que beiram a maldade pessoal", diz Samuel Titan Jr., organizador da fortuna crítica da nova edição das obras completas de Machado de Assis, que a Nova Aguilar publica em quatro volumes, no início do próximo mês. As linhas de interpretação de Verissimo, Araripe e Romero prevaleceram até os anos 1930, quando foi construída a imagem oficial do escritor. Nesse momento, Astrojildo Pereira, Augusto Meyer e Lucia Miguel Pereira entram em cena com um entendimento mais sistemático da obra machadiana. Professor da USP, Hélio de Seixas Guimarães explica que as políticas culturais do Estado Novo configuram Machado como o "funcionário público exemplar", "o homem humilde" que soube subir na vida. "É esse Machado que aparece até hoje nos manuais de escola como o maior escritor brasileiro", ele diz. O marxista Astrojildo Pereira ressaltou as relações entre ficção e realidade empírica e, afora os anacronismos e exageros, ele foi importante por abrir essa vereda para autores como Raymundo Faoro, Schwarz e o inglês John Gledson. (Estes dois compõem com Bosi a terceira tríade). A princípio, Lucia Miguel Pereira dedicou-se a interpretações que relacionam vida e obra machadianas. Depois, ela alertou para a prática de considerar Machado de Assis "pouco brasileiro". Propôs uma compreensão dialética entre local e universal. E serviu de fonte para Candido, Bosi e Schwarz. Entre 1930 e 1960, Meyer descobriu o autor em Machado, deslocando-o do contexto histórico e social. Uma influência para Schwarz e, sobretudo, Bosi, ele se ligou aos estudos comparativos e às noções de intertextualidade para traçar paralelos entre o Bruxo e escritores como Dostoievski. Sua crítica é livre, ela aposta na imaginação, um estilo que se perdeu com o domínio dos estudos machadianos pela academia a partir dos anos 1960. "Embora tenha ganhos, o conhecimento especializado da academia, que deseja provar uma tese, sufoca a crítica intuitiva, que apresenta os insights." Na crítica de Schwarz, autor de Ao Vencedor As Batatas e Um Mestre na Periferia do Capitalismo, a polaridade entre local e universal ganhou tratamento dialético consistente. Há uma interdependência desses pólos. "A realidade local em Schwarz ganha alcance internacional, ele pensa o Brasil na periferia do capitalismo", diz Guimarães. "O enigma machadiano ainda é pensar uma obra periférica com estatura internacional", diz Samuel Titan Jr., professor da USP. Com Schwarz, Bosi (O Enigma do Olhar) e Gledson (Por Um Novo Machado de Assis) são até hoje as linhas mestras de interpretação das criações machadianas, segundo Titan. Gledson e Bosi têm em comum a atenção dada aos narradores do Bruxo do Cosme Velho. O crítico inglês faz uma leitura transversal, apoiando-se no vasto conhecimento das crônicas e das poesias de Machado. Titan diz que é cedo para apontar outra tríade, mas destaca alguns trabalhos recentes: os de Abel Barros Baptista, José Miguel Wisnik, José Antonio Pasta Jr. e Alcides Villaça. A ambigüidade dos escritos do autor de Dom Casmurro permanece provocante: o intérprete que se vire e se responsabilize na tarefa de decifrar um segredo impenetrável. "Se tudo der certo, o enigma vai continuar", diz Titan. "Se alguém decifrar, eu pego o filho da mãe", brinca. Praticantes da velha mania da superação, os críticos de Machado enfrentaram o medo de ser devorados. Por vezes, o homem é maior do que a natureza e contraria o instinto de sobrevivência.

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