Orides Fontela ganha biografia e livro com toda sua poesia

'Enigmas de Orides' cria uma sensível teia da vida da poeta; no lançamento, nesta quarta, 16, haverá leitura de poemas

Mariana Ianelli, Especial para O Estado de S. Paulo

16 de dezembro de 2015 | 05h00

Importantes revisões históricas têm sido possíveis, ao longo dos últimos anos, com o relançamento das obras completas de poetas brasileiras da segunda metade do século 20, como Hilda Hilst, Ana Cristina César e Lélia Coelho Frota. Inclui-se agora nesse rol, ensejando a conquista de um maior público leitor, o nome de Orides Fontela (1940-1998), que acaba de ganhar duas novas publicações pela editora Hedra: Obras Completas, que reúne, além dos cinco livros já conhecidos (Transposição; Helianto; Alba; Rosácea; Teia), mais de 20 poemas inéditos de 1997-1998, e O Enigma Orides, excelente biografia da poeta pelo escritor, jornalista e antropólogo potiguar Gustavo de Castro – ele teve o apoio do Rumos Itaú Cultural para escrevê-la.

Fruto de um cuidadoso trabalho de pesquisa, relacionando fragmentos de histórias, fervorosos contextos de época (final dos anos 1960 ou os anos 1990), depoimentos de amigos, registros de entrevistas e citações de Orides, indícios de sua rotina e a matéria mesma de sua poesia, O Enigma Orides, inspirado nos romances reportagens, cria uma sensibilíssima teia da vida da poeta, para a qual o suporte da imaginação contribui com tanta eficácia que beira a invisibilidade. Deve-se, ainda, ao autor a descoberta dos inéditos cujos originais aparecem, numa pequena amostra, em páginas fac-similares no livro, juntamente com outros documentos pessoais, como o testamento de Orides e seu depoimento de 1997 Sobre Poesia e Filosofia.

Esse resgate da vida paralelamente à obra propicia uma leitura mais consciente e criativamente interativa de uma poesia antes geralmente lida como o absoluto oposto da figura folclórica de uma mulher caótica, antissocial e imprevisível. Verdade é que, embora afirmasse ser “melhor criar que comentar”, Orides tecia observações sobre o seu trabalho que se mostravam mais precisas que diversas interpretações da crítica especializada. Enquanto definiam sua linguagem como áspera, melancólica, metafísica ou filosofante, Orides, mais íntima da poesia do que muitos do meio literário, feito uma mística selvagem em meio a eclesiásticos, via-se numa trajetória poética “do abstrato ao concreto”, do etéreo à matéria, cumprindo uma necessidade própria de ir se despojando daquilo que, em sua expressão, considerava um “barroquismo”. Pois, ainda que à primeira vista o que mais transpareça seja a concisão dos poemas, basta um olhar um pouco mais atento para identificar que, proporcionalmente à economia dos versos, essa é uma poesia pródiga em adjetivos, os mesmos que reforçam o atributo enigmático de Orides, como: “secreto”, “eterno”, “infinito”, “oculto”, “inconsciente”, “inominável”, “impenetrável”, “incorruptível”, “inatingível”, “inesgotável”, “absoluto”, “altíssimo”. 

Teia, último livro da poeta publicado em vida, em 1996, e em cujo lançamento não compareceu nenhum poeta ou crítico, traz um prefácio de Marilena Chauí (professora de Orides, no início dos anos 1970, no curso de filosofia da USP) bastante pertinente ao tratar do que a poesia de Orides não é: nem metafísica, nem feminismo nem filosofia. Ao que se pode acrescentar que tampouco é uma poesia clara ou popular, mesmo quando se aproxima do tom aforístico ou quando passa uma impressão de cristalinidade. Nos versos que a poeta diz “inspirados”, há uma pensada geometria, uma procura surdamente violenta por uma palavra que redunde em verbo vivo, em signo com sangue, sendo o sangue, por sua vez, uma “densidade inverbal”. Para Orides, “toda palavra é crueldade”. Sua busca por “apreender o real”, o ser na palavra, a vida que habita o instante, assume frequentemente a forma de um pássaro em voo, de fato incapturável: apreendê-lo seria desnaturá-lo.

Entre os aspectos biográficos que enriquecem uma leitura poética está a relação companheira de Orides com seu pai Álvaro, que, embora analfabeto, era considerado por ela sua primeira influência literária, com quem aprendeu a pescar, ouvir os pássaros e de quem observava o trabalho de marchetaria, com a madeira e as plainas, na criação de relevos e formas. Também o sol em São João da Boa Vista, cidade natal da poeta, sugere interessantes conexões, exploradas por Gustavo de Castro, entre a lenda tupi do lugar, a luz, tão presente na obra de Orides, e as sombras na gênese de seu nome, corruptela de Eurídice. Outro aspecto interessante é a iniciação de Orides na prática zen-budista, entre 1972 e 1976, que a conduziu à meditação, à tradição do chá e ao iquebana. Lê-se, na sequência, em outros níveis, a reincidência das flores em seus poemas, sobretudo a rosa e o girassol, associados ao silêncio e à plenitude.

O duplo lançamento, comemorado nesta quarta, 16, às 20h, no Itaú Cultural, faz lembrar que este ano se completa o cinquentenário de descoberta da poesia de Orides por Davi Arrigucci Jr., seu conterrâneo e colega de infância, que leu pela primeira vez um de seus poemas num jornal de São João da Boa Vista. Foi depois disso que começou a se tramar, a cargo do crítico, uma rede de leitores de alta linhagem acadêmica e literária de Orides, a exemplo de Antonio Candido, que, como outros, acabou por se afastar por conta do famoso temperamento explosivo da poeta. Ainda que a solidão preservasse a liberdade de pensamento de Orides, sempre alheia a bandeiras, foi essa mesma solidão que, somada à pobreza, à falta de amor e a uma inépcia para a “prosa da vida”, a despeito de uma lucidez feroz, a levou a um insustentável abandono de si mesma. O Enigma Orides dá a ver esse fundo invisível de uma personalidade de aparência louca e muitas vezes agressiva: uma alma, no fim de tudo, insuportavelmente sozinha e sofrida.

MARIANA IANELLI É POETA E AUTORA DE O AMOR E DEPOIS, ENTRE OUTRAS OBRAS

O ENIGMA ORIDES

Autor: Gustavo de Castro

Editora: Hedra

(240 págs.; R$ 59,90)

ORIDES FONTELA – POESIA COMPLETA

Org.: Luis Dolhnikoff

Editora: Hedra

(440 págs.; R$ 79,90)

Lançamento

Itaú Cultural. Av. Paulista, 149. Leitura de poemas com Alcides Villaça, Bruna Beber, Micheliny Verunschk, Camila Márdila. Hoje (16), 20h

Confira poemas de Orides

Pouso (II)

Difícil para o pássaro

pousar

manso

em nossa mão - mesmo

aberta.

Difícil difícil

para a livre 

vida

repousar em quietude

limpa

densa

e inda mais

difícil

- contendo o 

voo

imprevisível -

maturar o seu canto

no alvo seio

de nosso aberto

mas opaco

Silêncio.

(Alba, 1983)

*

Teologia II

Deus existir

ou não: o mesmo

escândalo.

(um dos inéditos incluídos no volume lançado agora)

*

Mosaico

Os anjos fortes eretos.

Faces

neutras

vestes

claras

asas tranquilas

imotas.

Os anjos.

Inamovíveis.

(Alba, 1983)

*

PORTA

O estranho 

bate:

na amplitude interior

não há resposta.

É o estranho (o irmão) que bate

mas nunca haverá 

resposta:

muito além é o país

do acolhimento

(Teia, 1996) 

 

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