"Onde está a punição dos culpados?", questiona Bernardo Kucinski

Em entrevista ao 'Estado' em Paraty, escritor comentou os problemas dos quais ele não vê solução em relação à ditadura militar brasileira

Entrevista com

Bernardo Kucinski

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2014 | 14h26

Bernardo Kucinski está em Paraty para alguns debates sobre os 50 anos do golpe militar – na programação principal e também na Casa Rocco e na Casa Sesc – e aproveita para lançar, pela Rocco, Alice, novela policial escrita antes dos sucessos de K. e de Você Vai Voltar para Mim (Cosac Naify), que retratam, de forma ficcional e um pouco autobiográfica, o período da ditadura militar. O professor aposentado da USP falou ao Estado durante uma caminhada pela cidade nesta sexta-feira.

O que esperar da mesa sobre os 50 anos do golpe?

Tenho participado de muitos encontros sobre esse tema, e sempre espero um debate literário sobre o meu livro, o processo de criação, minhas escolhas e a linguagem, mas quase sempre acaba indo para o caminho da política. É natural que esteja acontecendo isso muito por conta da Comissão da Verdade e também pelo clima que estamos vivendo. A violência está impressionante – a guerra em Gaza e na Síria, o sequestro de estudantes na África e a violência urbana no Brasil – li esta semana sobre duas chacinas pelo esquadrão da morte do tipo do que tínhamos nos anos 1960, formado por polícia militar e bandido - e ainda a prisão dos manifestantes, a questão das liberdades individuais. Isso tudo se junta e faz o político predominar nas debates.

E as pessoas estão mais politizadas?

Não. As pessoas das classes mais humildes ignoram as questões políticas e a classe média alta e os intelectuais estão muito confusos porque não há mais um norte ideológico. No caso das questões internacionais, eles estão muito mal informados. Acabam, assim, operando na base dos arquétipos, do bem e do mal. Quando chega numa situação como a da Síria, eles não sabem onde está o bem e o mal, então não se pronunciam, e com todos quietos não há um debates. E a barbárie continua. Sinto muita confusão entre as pessoas de formação superior, inclusive sobre a política brasileira. Essas propostas de voto nulo, por exemplo, refletem essa confusão.

Sobre a ditadura, pelos debates de que participa, percebe que há gente que ainda não acredita que houve toda a repressão?

Na quinta-feira participei de uma mesa com a Eugenia Zerbini, que sofreu violência nas mãos dos militares, a mãe ficou presa um ano, o pai, general, foi expulso do Exército porque se opôs ao golpe e quase no final de sua fala alguém pergunta: 'Mas não foi uma ditabranda'? E tem, basicamente, muita ignorância. Nesse sentido o K. seria uma boa porta de entrada para o assunto, especialmente para adolescentes. Ele foi adotado no Cervantes e fui convidado para participar da feira do livro deles. Fiquei impressionado com os trabalhos feitos a partir do livro. Um grupo fez até um trabalho sobre as receitas que o Estadão publicava na época da censura.

Como a literatura ajudou a dar conta dessas vivências?

Entrei na literatura antes de entrar nessa fase de revisão do período. Coincidiram alguns fatores, como minha aposentadoria, a saído do Governo, e eu queria escrever um ensaio acadêmico sobre determinado assunto e acabei transformando isso numa novela policial, Alice, que está sendo lançada agora pela Rocco. Escrevi essa novela e vi que pegava jeito. Depois, foi havendo um processo de rememorização, escrevi uns contos sobre o meu pai e acho que aí começou a ideia do K. Eram contos engraçados, que não tinham nada a ver com a ditadura, mas eles trouxeram a questão da reminiscência.

A ditadura demorou um pouco para entrar na ficção brasileira, ao contrário do que aconteceu na Argentina, por exemplo. Precisamos de um tempo de descanso da história e uma distância para poder tratar do assunto?

Acho que o que aconteceu foi uma ocupação do espaço por relatos pessoais factuais, por necessidade pessoal daqueles que participaram, e por biografias de amigos de desaparecidos. Os escritores, por sua vez, estavam num novo modo literário, vivendo outras coisas. Houve, de lá para cá, uma mudança muito violenta no modo de viver, de se socializar, na estrutura das famílias, o que gera uma literatura ligada a isso. A ditadura virou uma coisa da história, não da vida, algo que você estuda na escola. A alma brasileira não está interessada na ditadura. No Brasil, diferentemente do que aconteceu na Argentina, ela atingiu minorias, e não foi algo que traumatizou a sociedade como um todo. Nos primeiros dias, sim, ela traumatizou a sociedade, e surgiram aqueles primeiros livros, como Quarup, porque foi algo que rompeu o processo histórico e a ordem geral. Mas quando as coisas se acomodaram, ela ficou restrita a um pequeno grupo. Embora muito bestial e cruel, a sociedade como um todo não se sentiu atingida. Na esfera mais intelectual, sim. Mas hoje as universidades não querem falar de ditadura. A Usp, por exemplo, não quer nem ouvir falar da comissão da verdade da Usp.

Como foi, pessoalmente, voltar a esse assunto durante o processo de escrita dos livros?

Costumo dizer que K. foi um livro psicografado porque saiu com muita facilidade e mexeu muito pouco enquanto eu escrevia. Mas depois remexeu tudo de novo com os debates, as entrevistas, o depoimento do (Claudio) Guerra, que era diretamente sobre a história da minha irmã. Aí me incomoda. Quando fui escrever Você Vai Voltar Para Mim, de contos, minha atitude foi outra. Comecei a assistir as reuniões da Comissão da Verdade na Assembleia, voltei a conversar com amigos, com uma ideia mais planejada de traçar um panorama. K. nasceu do estômago. O outro, da cabeça.

Esse assunto já está encerrado para você ou ainda há algo a dizer?

Fiquei encantado com essa história de ser escritor. Tenho uma novela pronta, que pega quatro gerações e o desenlace é no período da ditadura. E outro, também pronto embora eu ache que deva refazer, que chamo de anti-K. Nele, alguns personagens do K. visitam o escritor e reclamam. É baseado também em coisas que aconteceram de verdade. E queria publicar um daqueles livrões de contos, porque ainda devo ter uns 150 sobre assuntos diversos.

Como está vendo essas investigações? Essa história terá uma conclusão?

Acho que não. Faltam duas coisas a serem resolvidas, que não serão: onde estão os corpos do desaparecidos e a punição dos culpados. Por isso, este é um assunto que nunca vai se encerrar. E precisaríamos fazer algo como o que vi na Alemanha, com o nazismo, ou seja, uma política pública de educação para as novas gerações sobre o que é a violência e a ditadura. Algo que ajude a modificar o que é a polícia paulista, por exemplo. Não podemos mais conviver com uma polícia desse tipo. Num desses debates na Assembleia descobriu-se que em São Paulo enterram-se os indigentes sem avisar as famílias, mesmo eles tenho documentos. Três mil pessoas foram enterradas sem que as famílias fossem avisadas. Eles nem sequer se comunicam com a delegacia de desaparecidos. Não existem os direitos mais elementares.

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