Sacks. Texto revela empatia, erudição e simpatia pela alma humana. Foto: José Luis da Conceição/Estadão
Sacks. Texto revela empatia, erudição e simpatia pela alma humana. Foto: José Luis da Conceição/Estadão

Oliver Sacks revela o profundo dom de artista e médico em nova autobiografia

Em ‘Sempre em Movimento – Uma Vida’, ele exercita os poderes descritivos e analíticos sobre sua própria vida

Michiko Kakutani, THE NEW YORK TIMES

24 Julho 2015 | 08h00

Num artigo direto, eloquente e devastador publicado no New York Times em fevereiro, o dr. Oliver Sacks revelou que o câncer no fígado só lhe deixara dois meses de vida. Este fato, escreveu, permitira que ele enxergasse a sua vida “como de uma grande altitude, como uma espécie de panorama e com um sentimento cada vez maior da conexão de todas as suas partes”. Sentia-se agradecido por “ter amado e ter sido amado”, e também pelo “relacionamento especial” com o mundo que os escritores e leitores têm o privilégio de conhecer.

“Acima de tudo”, acrescentou, “fui um ser sensível, um animal deste maravilhoso planeta, e isso em si foi um enorme privilégio e experiência”.

Este amor pelo mundo e o conhecimento do dr. Sacks a respeito dos seres humanos – e também das misteriosas relações entre o cérebro, a mente e a imaginação – inspiraram sua escrita ao longo dos anos, desde Enxaqueca, publicado há 45 anos, Tempo de Despertar, O Homem Que Confundiu Sua Mulher com Um Chapéu, e mais recentemente obras como Tio Tungstênio – Memórias de Uma Infância Química, Alucinações musicais e Sempre em Movimento – Uma Vida, seu novo livro de memórias profundamente comovedor (lançado agora no Brasil pela Companhia das Letras).

Professor de Neurologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York e exercendo há muito tempo a profissão de médico, o dr. Sacks escreve não apenas com uma compreensão da medicina e da ciência típica do médico, como com uma compaixão chekhoviana por seus pacientes e uma apreciação metafísica de suas angústias emocionais. Seus estudos de casos nos proporcionaram uma compreensão palpável do que é sofrer de síndrome de Tourette, de epilepsia do lobo temporal, daltonismo ou perda de memória, e alguns deles têm a estranheza e a afinidade dos contos de Borges ou de Calvino.

O dr. Sacks está tão interessado no efeito que os distúrbios neurológicos dos seus pacientes têm sobre sua vida interior e as rotinas do dia a dia quanto nas manifestações psicológicas de suas doenças. Seus escritos sobre suas lutas são o testemunho da recuperação humana, da capacidade de as pessoas se adaptarem às suas aflições, e até mesmo de encontrar nelas um incentivo para a criatividade e a realização.

Em Sempre em Movimento, o dr. Sacks exercita seus poderes descritivos e analíticos sobre a própria vida, proporcionando-nos uma visão reveladora de sua infância e chegada à idade adulta, a descoberta e o apego à sua vocação e seu crescimento como escritor. Ele nos oferece retratos tocantes, transbordando de vida e de carinho, de amigos, familiares (entre eles, o cartunista Li’l Abner Al Capp e o diplomata israelense Abba Eban). Narra suas conversas sobre o labor da escrita com o poeta Thom Gunn – “os ímpetos e as paradas, as iluminações e as trevas”. E descreve W. H. Auden deixando os Estados Unidos depois de 30 anos para regressar à pátria, a Inglaterra, com um aspecto “terrivelmente envelhecido e fragilizado, mas formal com a nobreza de uma catedral gótica”.

Este é um livro mais íntimo do que as investidas anteriores do dr. Sacks no território autobiográfico, como Tio Tungstênio, e quanto mais ele fala a respeito de si mesmo, mais percebemos quão profundos são seus dons de artista e médico nas primeiras experiências familiares na Inglaterra e no que imaginara como cargas emotivas.

Durante a 2.ª Guerra, ainda menino, ele foi mandado para longe de Londres, num “horrível colégio interno”, em que sofreu assédio e foi espancado, e embora ele se conformasse com a separação da família, continuou por grande parte de sua vida, com problemas, segundo as palavras de outro interno como ele “para ligar-se, pertencer e confiar” – dificuldades que o ajudariam a se compadecer dos pacientes, que, frequentemente, se sentiam como desajustados e estrangeiros. 

Os médicos diagnosticaram a doença do seu irmão Michael como esquizofrenia e seus episódios psicóticos apavoravam o jovem Oliver; ele lembra que sentia pena por não passar mais tempo com Michael e pela necessidade de se afastar dele, o que o levou em parte a se mudar para os EUA, nos anos 1960. A ciência – com sua promessa de ordem e lógica – ofereceu-lhe um refúgio do caos representado pela doença de Michael, enquanto a medicina cumpria ao mesmo tempo seu destino familiar (a mãe, o pai, e dois dos irmãos mais velhos eram médicos) para que pudesse “explorar a esquizofrenia e os distúrbios do cérebro e da mente a ela relacionados em meus pacientes e à minha maneira”.

Tímido e propenso a manter-se “a certa distância da vida”, o dr. Sacks escreve que inesperadamente se apaixonou – “(pelo amor de Deus!) eu tinha 77 anos” – por uma americana de nome Billy, o que significava abandonar “os hábitos de uma vida de solidão”, como décadas se alimentando, em geral, de cereais ou sardinhas, comidas “na própria lata, de pé, em 30 segundos”.

Se a timidez e a dificuldade de guardar as fisionomias (distúrbio conhecido como prosopagnosia, que discutiu longamente num artigo publicado em 2000 na revista New Yorker) podiam inibi-lo socialmente quando era mais jovem, o dr. Sacks se deu conta de que se encontrasse alguém que compartilhasse dos seus interesses (em geral científicos) – como vulcões, águas-vivas ou ondas gravitacionais – se deixaria atrair para uma conversa animada. E sua curiosidade e entusiasmo por uma ampla gama de paixões (fotografia, natação, levantamento de peso e motocicletas, e por um período, anfetaminas) consumiam o escasso tempo livre que ele tinha quando trabalhava 18 horas diárias, examinando pacientes e pesquisando.

E escrever. Sempre escrever. Começou com diários íntimos aos 14 anos, e segundo afirma, chegou a escrever mil, além de uma volumosa correspondência e mais de mil anotações clínicas ao ano sobre pacientes, mantidos ao longo de muitas décadas. Escrever leva-o a outro lugar, diz o dr. Sacks: “É onde eu fico totalmente absorto e esquecido de tudo o que distrai, pensamentos, preocupações, temores, ou mesmo da passagem do tempo”.

“Nesses raros e divinos estados de espírito”, prossegue, “posso escrever ininterruptamente até não conseguir mais enxergar o papel. Somente então, me dou conta de que anoiteceu, e que escrevi o dia todo”.

Esta escrita, que tanto prazer lhe traz, também foi um dom para os seus leitores – de erudição, empatia e uma compreensão permanente das alegrias, das provações e dos consolos da condição humana. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

SEMPRE EM MOVIMENTO – UMA VIDA

Autor: Oliver Sacks 

Tradutora: Denise Bottmann

Editora: Companhia das Letras (392 págs., R$ 59,90 impresso, R$ 39,90 e-book)


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