Maciek Nabrdalik/The New York Times e Dominic Ebenbichler/Reuters
Olga Tokarczuk e Peter Handke ganham o Prêmio Nobel de Literatura de 2018 e 2019 Maciek Nabrdalik/The New York Times e Dominic Ebenbichler/Reuters

Olga Tokarczuk e Peter Handke ganham o Prêmio Nobel de Literatura de 2018 e 2019

A polonesa Olga Tokarczuk, autora de 'Vagantes', e o dramaturgo austríaco Peter Handke são os vencedores do Prêmio Nobel de Literatura de 2018 e 2019

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2019 | 08h02
Atualizado 10 de outubro de 2019 | 14h53

A polonesa Olga Tokarczuk é a ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura 2018 e o austríaco Peter Handke é o vencedor da premiação em 2019. O anúncio foi feito pela Academia Sueca nesta quinta-feira, 10.

Olga Tokarczuk precisou encostar o carro que dirigia por uma estrada alemã para conseguir absorver a notícia: tinha acabado de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Aos 57 anos, ela era a quarta colocada nas casas de apostas, e perdia para Anne Carson, Margaret Atwood e Maryse Condé na preferência dos apostadores, mas conquistou os membros da Academia Sueca num dos períodos mais conturbados da centenária instituição. 

“Estou extremamente feliz e orgulhosa porque meus romances, que se passam em pequenas vilas da Polônia, podem ser lidos como universais e podem ser importantes para pessoas ao redor do mundo”, ela disse à TVN24. E completou: “Acredito no romance como um profundo meio de comunicação, que transcende fronteiras, linguagens e culturas e que ensina a empatia.” Ela é autora de Vagantes, publicado em 2014 no Brasil e que será reeditado pela Todavia em 2020 possivelmente com o título Viagens. Antes, em novembro, a editora lança Sobre os Ossos dos Mortos (leia um trecho), o mais recente dela - ele mistura thriller e humor ao refletir sobre a condição humana e a natureza. 

Olga Tokarczuk é a 15.ª mulher a ser premiada pela Academia Sueca desde a criação do Nobel de Literatura, em 1901. Ela nasceu em 1962, estreou na literatura em 1993 e ganhou Booker International em 2018 com Flight. É um dos principais nomes da literatura polenesa e vem ganhando destaque em países de língua inglesa.

Olga Tokarczuk ganhou o Nobel de 2018 – vale lembrar que no ano passado, ainda mergulhada no escândalo de assédio sexual e de vazamentos envolvendo o marido de uma das integrantes, a Academia decidiu pular o ano e dar dois prêmios agora.

Mais conhecido o leitor brasileiro do que Olga, Peter Handke, que aos 76 ganhou o Prêmio Nobel 2019, teve livros lançados pela Brasiliense nos anos 1980 e estava presente nas livrarias com três títulos até o anúncio do Nobel. Segundo a Estação Liberdade, o estoque de A Perda da Imagem: Ou Através da Sierra de Gredos e de Don Juan (Narrado Por Ele Mesmo) esgotou assim que saíram os vencedores.

O editor Angel Bojadsen garantiu que já mandou imprimir uma nova tiragem e que tem mais um livro de Handke no prelo – Ensaio Sobre o Maníaco dos Cogumelos, uma obra que resume o que ele pensa sobre escrever, cinema e suas influências.

A editora tem outros quatro contratos com o autor, que encerram essa série de ensaios: Ensaio Sobre o Cansaço, Ensaio Sobre o Jukebox, Ensaio Sobre o Dia Feliz e Ensaio Sobre a Calmaria.

É autor, ainda, Peter Handke: Peças Faladas, publicado em 2015 pela Perspectiva, com quatro textos de meados dos anos 1960 (Predição, Insulto ao Público, Autoacusação e Gritos de Socorro). 

Na porta de casa, nos arredores de Paris, Handke se disse “atônito”. “Nunca pensei que me escolheriam. Foi muito valente da parte da Academia esta decisão”, completou. Handke foi duramente criticado por sua defesa dos sérvios na Guerra da Bósnia. Já Olga é criticada pela extrema-direita polonesa e recebeu até ameaça de morte. 

Peter Handke nasceu na Áustria em 1942. Para o Nobel, ele é "um dos mais influentes escritores europeus depois da Segunda Guerra Mundial". Entre os trabalhos destacados no anúncio está A Sorrow Beyond Dreams, romance de 1975 sobre o suicídio de sua mãe. No cinema, colaborou com Wim Wenders no roteiro de Asas do Desejo e de Os Belos Dias de Aranjuez.

A Academia Sueca destacou que Olga é foi escolhida por sua "imaginação narrativa que, com paixão enciclopédica, representa o cruzamento de fronteiras como uma forma de vida". Já Handke, "por um trabalho influente que, com engenhosidade linguística, explorou a periferia e a especificidade da experiência humana".

Assim como ocorreu em 2018, a Academia Sueca não premiou nenhum escritor em 7 ocasiões - nenhuma delas envolvendo crimes como os cometidos agora, mas, sim, duas guerras mundiais: 1914, 1918, 1935, 1940, 1941, 1942 e 1943. Em outras 7 ocasiões, ela adiou para o ano seguinte: 1915, 1919, 1925, 1926, 1927, 1936 e 1949.

​Livros de Olga Tokarczuk

Vagantes (Tinta Negra, 2014)

Coleção de relatos, alguns fictícios e outros baseados em fatos reais, reunidos por uma única narradora jamais nomeada. Ela assume ser uma vagante ou errante movida por um interesse de conhecer tudo que é estragado, imperfeito ou quebrado.

Sobre os Ossos dos Mortos (Todavia, 2019)

Subversivo, macabro e discutindo temas como mundo natural e civilização, Sobre os Ossos dos Mortos parte de uma história de crime e investigação convencional para se converter numa espécie de suspense existencial. 

Livros de Peter Handke

Peter Handke: Peças Faladas (Perspectiva, 2015)

A antologia reúne os primeiros textos teatrais de Peter, escritos durante os anos de 1960. Nomeadas como Predição, Insulto ao público, Autoacusação e Gritos de socorro, as quatro peças são caracterizadas por uma contestação de princípios e valores da tradição ocidental. 

Perda da Imagem: Ou Através da Sierra de Gredos (Estação Liberdade, 2009)

O livro conta a história de uma banqueira que viaja para a região espanhola da Mancha, até a Sierra de Gredos, em busca de um escritor contratado para escrever a sua biografia. Lá, ela se depara com uma cidade surreal em que os meios de comunicação dominam todos os âmbitos. O romance discute o poder da imaginação, a importância da imagem e a influência do ritmo capitalista na vida e nas relações pessoais.

Don Juan (narrado por ele mesmo) (Estação Liberdade, 2007)

A história da figura lendária de Don Juan é recontada na contemporaneidade por um cozinheiro solitário que tem hábito de leitura. Um belo dia, ele decide dar um basta nos livros, justamente no mesmo momento em que o próprio Don Juan chega no jardim do albergue onde ele vive, nas ruínas de um monastério de Port-Royal-des-Champs, na França.

 

Entenda por que o Prêmio Nobel de Literatura não foi concedido em 2018

Em novembro de 2017, 18 mulheres acusaram uma conhecida personalidade da cultura francesa, com quem a prestigiada instituição tinha vínculos estreitos, de violência e/ou assédio sexual. O episódio envolvia o dramaturgo Jean-Claude Arnault, uma grande figura cultural na Suécia e marido da poeta Katarina Frostenson, membro da Academia.

A Academia cortou relações com Arnault e determinou uma auditoria sobre suas relações com a instituição, mas desacordos internos nas medidas a tomar geraram confusão. 

Diante das circunstâncias, sete membros da Academia - de um total de 18 - renunciaram, incluindo a secretária permanente, Sara Danius. Eles eram designados de forma vitalícia e não tinham "autorização" para renunciar, mas poderiam optar por não participar das reuniões e decisões.

O relatório da auditoria descartou que Arnault tenha influenciado em decisões sobre prêmios e confirmou que a confidencialidade sobre o ganhador do Nobel foi violada em várias ocasiões.

O escândalo provocou especulações nos meios de comunicação sobre o destino do prêmio liteário, que foi entregue em 2017 ao autor britânico-japonês Kazuo Ishiguro, e no ano anterior ao cantor e compositor americano Bob Dylan.

O rei da Suécia, Carlos XVI Gustavo, que é o principal responsável pela Academia fundada em 1786, concordou em modificar os estatutos para permitir que os membros renunciem e sejam substituídos, garantindo assim a sobrevivência da instituição.

Em maio, a edição 2018 do Prêmio Nobel de Literatura foi adiada para 2019.

Um novo capítulo da novela do Nobel foi acrescentado à história no dia 1.º de outubro. Aos 72 anos, Jean-Claude Arnault foi condenado a dois anos de prisão por estuprar duas vezes, em outubro e dezembro de 2011, uma jovem em um apartamento em Estocolmo.  

Em janeiro de 2019, Katarina Frostenson deixou a Academia Sueca. A investigação sobre se ela vazou informações não foi levada adiante, e em comum acordo com a instituição ela formalizou sua saída.


 

O crítico literário André de Leones conversa com Ubiratan Brasil e Maria Fernanda Rodrigues, do Estado, sobre Olga Tokarczuk e Peter Handke, ganhadores do Nobel de Literatura; assista:

 

 

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Análise: Nobel de Literatura Peter Handke tem obra marcada pela ousadia

Escritor austríaco tem romances, peças de teatro, contos e colaborações com Wim Wenders no cinema

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

10 de outubro de 2019 | 11h20

O escritor austríaco Peter Handke (1942), anunciado na manhã desta quinta-feira, 10, como o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2019, escreveu romances, peças de teatro, contos, ensaios e roteiros cinematográficos. No cinema, seu roteiro Movimento em Falso foi dirigido pelo diretor alemão Wim Wenders, com quem estabeleceu sólida parceria. Mas ele mesmo foi diretor de cinema: em 1985, dirigiu A Doença da Morte. Outra faceta de Handke é a de tradutor, aliás, bastante prolífero. Essa carreira diversificada é marcada pela ousadia e experimentação.

 Muitos textos de Handke já foram traduzidos para o português. Seu romance A Perda da Imagem ou Através da Sierra de Gredos (Estação Liberdade, 2009), por exemplo, foi belamente traduzido por Simone Homem de Mello. Nele, vem à tona um escritor preocupado com as imagens: “Qual o efeito das imagens? Elas exaltam seu dia. Reforçam-lhe o presente”. Contudo, essas mesmas imagens são fugidias, como ele destaca: “A qualquer tentativa de detê-las ou observá-las com calma, elas se dispersavam imediatamente, uma interferência dessas também destruía, a posteriori, o efeito de imagem-átimo, que surgia e sumia de repente”.

“As imagens”, diz Handke, “estavam em extinção”. Ainda assim, ele as busca em toda sua obra, por isso, talvez, suas personagens tenham que deambular à procura delas. Personagens andarilhas estão, por exemplo, tanto em A Perda da Imagem quanto em A Tarde de um Escritor, que conta a história de um escritor que precisa peregrinar pela cidade e se perder nela para encontrar o fio de sua narrativa: “Mas esse temor de ficar parado, de não poder seguir [...], não esteve presente em toda a sua vida na hora de escrever e em todos os outros projetos: no amor, no estudo, em qualquer participação, ou seja, em tudo aquilo que requer persistência?”. A tarde de um escritor foi escrita depois de uma viagem a pé pela antiga Iugoslávia, nos anos 1980.

Em 1989, Handke publica Ensaio sobre o Cansaço, no qual o cansaço pode ser paralisante e assustador, já que estaria vinculado a um “sentimento de culpa”, e causaria sofrimento e deformaria as coisas, quando não a si mesmo.

No teatro, Handke abandou o ilusionismo. Acreditava que, “quanto maior fosse a artificialidade – feita de distanciamento e hermetismo – daquilo que se apresentava sobre o palco, mais o espectador poderia aplicar concreta, clara e racionalmente essas abstrações à sua situação real, exterior ao campo teatral”, como afirma Samir Signeu, que organizou e traduziu Peter Handke: Peças Faladas (Perspectiva).  

O Nobel de 2019 tem uma visão crítica do teatro. Para ele, é preciso transformar a cena para que o tédio não tome conta de todos: encenadores e público. Insulto ao Público, peça pioneira escrita na década de 1960, começa alertando os espectadores: “Vocês têm ideia do padrão do mundo do teatro. Vocês não precisam desse padrão agora. Vocês não estão assistindo a uma peça de teatro [...]. Vocês são o ponto focal. Vocês estão no fogo cruzado”.

Handke sempre viu na literatura uma forma de transformar o mundo, educando e conscientizando as pessoas.

 

 *Autora, entre outros, de Cenas do teatro moderno e contemporâneo (Iluminuras).

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Análise: Nobel de Literatura Olga Tokarczuk retrata o mundo fragmentado pelas inquietações

Escritora polonesa aborda temas como esoterismo, questões históricas, ecológicas e feministas

Piotr Kilanowski, Especial para o Estado

10 de outubro de 2019 | 12h17

Embora se falasse na possibilidade de um prêmio Nobel ir para algum dos importantes escritores e poetas poloneses desde 1996, quando foi premiada a já conhecida poeta Wisława Szymborska, o comitê sueco não premiou Ryszard Kapuscinski nem Stanisław Lem nem o eterno candidato polonês Adam Zagajewski. Há apenas alguns anos, o nome de Olga Tokarczuk começou orbitar as especulações a respeito do prêmio e, depois do International Booker Man Prize recebido por ela no ano passado, as expectativas, que estavam no alto, foram atendidas. O comitê decidiu outorgar quinto prêmio para um escritor da língua polonesa. Depois de Sienkiewicz, Reymont, Miłosz e Szymborska, a nova laureada é Olga Tokarczuk.

A prosadora polonesa que, no Brasil, conta com apenas um título traduzido (Os Vagantes, Tinta Negra, 2014), nasceu em 1962. Graduada em psicologia, deixou de praticar a profissão quando seus primeiros livros conquistaram certo êxito, dedicando-se apenas ao trabalho de escrever. Até agora, publicou cerca de 20 obras entre romances, contos e ensaios. Seu primeiro livro, A Viagem das Pessoas do Livro, foi publicado em 1993 e contava a viagem em busca do misterioso Livro, que poderia mudar o curso da história e devolver a juventude, feita por um marquês alquimista e sua estranha comitiva: um banqueiro filantropo, uma cortesã, um cocheiro mudo e um cachorro amarelo. Logo na sequência, a escritora publicou E.E. (1995), sobre uma jovem que repentinamente ganha poderes paranormais e que, igualmente, desaparecem repentinamente.

O livro seguinte, O Primevo e Outros Tempos (1997), uma espécie de saga de duas famílias do interior polonês, que vivem a conturbada história do século 20 em um mundo recheado de elementos fantásticos e reflexões sobre a natureza do tempo, lhe trouxe o prêmio Nike dos leitores. Nike é o prêmio literário mais importante da Polônia, concedido pelos críticos, mas, um dia antes do anúncio oficial, é outorgado o prêmio dos leitores. A escritora reuniu seis nomeações ao prêmio principal, recebeu o laurel duas vezes, e cinco vezes foi a autora preferida pelos leitores. No livro publicado na sequência, A Casa Noturna, a Casa Diurna (1998), ela descreve uma mulher que, saindo da cidade grande, enfrenta a vida cotidiana num pequeno vilarejo interiorano polonês, repleto de histórias, mística e costumes locais.

Seus primeiros escritos reúnem elementos fantásticos (poderíamos falar em uma espécie de realismo fantástico) com uma reflexão sobre a conturbada história (principalmente polonesa), além da forte presença do olhar feminino. As protagonistas e heroínas do universo criado por Tokarczuk observam o mundo com sensibilidade e compreensão de mulher e atuam nele com força (por vezes, a força que parece proveniente de uma bruxa) e energia. Sentem necessidade de mudar o mundo para melhor, atuando social e misticamente contra os esquemas da dominação patriarcal.

O esoterismo, principalmente a astrologia, é um dos elementos que também aparece frequentemente em sua prosa. Por outro lado, as protagonistas de Tokarczuk estão fortemente ligadas a problemas ecológicos. Desde o início, a autora se sensibilizava com os problemas ecológicos e pregava vegetarianismo - quando o assunto nem estava em voga ainda. Um dos seus livros, que foi indicado ao Booker deste ano, Pelos Ossos dos Mortos (de 2009, que a Todavia lança no próximo mês), e adaptado ao cinema por Agnieszka Holland e Kasia Adamik (Pokot, 2017) tem como seu tema principal as questões ecológicas e feministas.

O mundo em movimento, em viagem, o mundo fragmentado pelas inquietações, tanto as criadas pelo mundo moderno, quanto as inerentes ao ser humano, é o tema de seu premiado livro Os Vagantes (2007). A construção atípica do livro, tecido de vários fios narrativos aparentemente não ligados, que se unem em um multicolorido tapete, coloca em voga os temas atuais e eternos, como a tentativa de imortalizar o ser humano ou de criar um compêndio de toda a experiência e ciência humanas ou ainda a necessidade que temos de permanecer em movimento. Isso faz com que o leitor seja obrigado a se defrontar com uma obra complexa e fascinante.

Um outro elemento presente em seus escritos é a História, mostrada a partir de sua complexidade. No premiado Livros do Jacó (2014) ela narra a pouco conhecida trajetória de Jakub Frank, místico judeu que se proclamou messias e criou uma seita herege de franquistas no seio do judaísmo. A história é narrada sob o colorido pano de fundo da Polônia do século 18, nos momentos finais da sua existência independente, e mostra um país multiétnico, complexo, muito diferente da visão idealizada da Polônia que a história oficial polonesa apregoa.

Essa tentativa de apresentar a Polônia histórica de um modo não maquiado, repleta de injustiças, desigualdades, violência e pobreza, assim como a denúncia da história polonesa como um fabricado que omitia e camuflava os pecados de colonização, violência contra as minorias ou a quase escravidão dos camponeses, denúncias que ela fez ao receber o seu segundo prêmio Nike em 2015 (o primeiro foi em 2008, por Os Vagantes), lhe rendeu uma onda de ódio na internet promovida pelos grupos direitistas. E, é claro, depois do ódio veio uma tentativa de ignorar sua importância. Há poucos dias, aliás, o ministro da cultura polonês pertencente ao partido governante de direita populista, PiS, ao ser indagado sobre Tokarczuk em contextos do prêmio Nobel, declarou não ter conseguido terminar de ler nenhum dos seus livros. Talvez o prêmio faça com que ele seja obrigado a tentar de novo.

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Peter Handke assina três filmes com o cineasta Wim Wenders

Ganhador do Nobel de Literatura de 2019, escritor austríaco participa do cultuado Asas do Desejo, do diretor alemão

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2019 | 10h08

Apesar de considerado por vários críticos como o mais importante dramaturgo universal depois de Samuel Beckett, o escritor austríaco Peter Handke, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2019,  é mais conhecido no Brasil como roteirista, parceiro do diretor alemão de cinema Wim Wenders. Ambos participaram juntos de três longas dirigidos pelo cineasta, O Medo do Goleiro Diante do Pênalti (1972), Movimento em Falso (1975) e Asas do Desejo (1987).

O que os une é a noção de que o cinema pode ser o refúgio da literatura. Assim, a partir da ideia de que a bola de futebol tem alma, a dupla criou O Medo do Goleiro Diante do Pênalti, filme que utiliza o esporte mais popular do planeta como meio para discutir a angústia que corrói o homem.

O protagonista é um ex-goleiro que comete um crime. Por conta disso, o título do filme é expressivo ao traduzir um sentimento diante da vida e do esporte. O livro de Handke que inspirou o longa é texto muito concentrado, com profusão de frases curtas.

Com roteiro de Handke, Movimento em Falso traz, em tom de comédia, a história de Wilhelm, aspirante a escritor que vive trancado em seu quarto. Cansada dessa situação, sua mãe compra uma passagem de trem, o que permite ao rapaz entrar em contato com diversos personagens, desde um antigo atleta participante de um Olimpíada até salvar a vida de uma pessoa que tentava um suicídio. Aqui, um tema caro para os dois artistas: a importância de se derrubar fronteiras afim de se ampliar o conhecimento.  

Já o clima onírico de Asas do Desejo é pontuado principalmente pela poesia do autor austríaco. Na trama, anjos conseguem ouvir os pensamentos das pessoas, mas não conseguem interferir na realidade, o que provoca angústia existencial. Anjos, aliás, sempre foram vistos como criaturas míticas e até místicas. No longa, Wenders e Handke usam seus anjos para perseguir conceitos de beleza e encantamento. Como bem observa o crítico do Estado Luiz Carlos Merten, o filme não é realista, mas metafísico.

A relação entre Handke e Wenders, aliás, inspirou o livro O Cinema como Refúgio da Escrita – Roteiro e Paisagens em Peter Handke e Wim Wenders, de Pablo Gonçalo, lançado pela editora Annablume. O prefácio, escrito pelo crítico e professor Ismail Xavier, destaca a feliz relação entre as duas artes.

“O percurso amplia as referências do leitor ao equacionar um intrincado campo de relações que envolvem palavra e imagem na dinâmica de realização e recepção do cinema, da literatura e das artes visuais, encaradas no livro como mídias em constante interação”, escreve Xavier.

“Os dois compartilharam mais projetos estéticos similares do que objetivos profissionais mais imediatos. Penso que as questões da imagem e do espaço – do lugar, das paisagens – são temas recorrentes em ambas as obras”, observa Pablo Gonçalo.

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Leia um trecho do novo livro de Olga Tokarczuk, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura

A Todavia lança em novembro Sobre os Ossos dos Mortos, da escritora polonesa Olga Tokarczuk, que acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2019 | 10h32

A editora Todavia prevê para novembro o lançamento de Sobre os Ossos dos Mortos, o mais recente romance da escritora polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2018. O anúncio dos vencedores do Nobel de 2018 e 2019 (Peter Handke) foi feito na manhã desta quinta-feira, 10, em Estocolmo.

Segundo a editora, Sobre os Ossos dos Mortos é um livro subversivo e macabro, que mistura thriller e humor. Discutindo temas como mundo natural e civilização, ele parte de uma história de crime e investigação convencional para se converter numa espécie de suspense existencial.  

"Dona de uma obra vasta na ficção, e observadora sagaz e crítica da política do Leste Europeu, Olga faz dos seus livros uma celebração do inusitado, da inteligência afiada e do prazer inesgotável da melhor literatura. Uma obra contemporânea, que trata de assuntos urgentes e necessários com humor, graça e intensidade", disse a editora em comunicado.

A tradução de Sobre os Ossos dos Mortos foi feita do polonês por Olga Bagińska-Shinzato. Há outras obras no prelo. O lanlamento seguinte será Viagens (título provisório), publicado anteriormente como Os Vagantes pela Tinta Negra. A obra ganha nova tradução, também a cargo de Olga Bagińska-Shinzato.

Leia o trecho inicial de Sobre os Ossos dos Mortos

E agora prestem atenção!

Outrora dócil, e em perigosa senda,

O justo seguiu seu curso ao longo

Do vale da morte.

Com a minha idade e nas minhas condições atuais, deveria sempre lavar bem os pés antes de dormir, caso uma ambulância precise vir me buscar à noite.

Se tivesse examinado nas Efemérides o que acontecia no céu naquela noite, nem me deitaria para dormir. Entretanto, caí num sono muito profundo; recorri ao chá de lúpulo e tomei ainda dois comprimidos de valeriana. Por isso, quando fui acordada no meio da noite pelo som — violento, excessivo, e por isso agourento — de alguém batendo na minha porta, não consegui me recompor. Levantei às pressas e fiquei em pé junto da cama, vacilando, pois o corpo sonolento, trêmulo, não conseguia dar o salto da inocência do sono para a vigília. Desfaleci e cambaleei, como se estivesse prestes a perder a consciência. Isso tem me acontecido ultimamente, e está relacionado com as minhas moléstias. Precisei me sentar e repetir algumas vezes para mim mesma: estou em casa, é noite, alguém está batendo na porta, e só então é que consegui controlar os nervos. Enquanto procurava os chinelos no escuro, podia ouvir que aquele que tinha batido agora circundava a casa, murmurando. No térreo, na caixa do relógio de luz, guardo gás de pimenta que ganhei de Dionísio por causa dos caçadores ilegais. Foi justamente nele que pensei agora. Consegui achar na escuridão o formato frio e familiar do aerossol e, assim armada, acendi a luz do lado de fora. Olhava para o alpendre pela janela lateral. A neve rangeu e apareceu no meu campo de visão o vizinho que costumo chamar de Esquisito. Estava enrolado numa velha samarra, com a qual às vezes o via quando trabalhava do lado de fora de casa. Debaixo dela podia ver seu pijama listrado e suas botas pesadas para caminhar nas montanhas.

— Abra — disse.

Com um espanto evidente olhou para o meu terno de linho (durmo vestida com as peças que o Professor e sua esposa quiseram jogar fora no verão, e que me lembram da moda antiga e da minha juventude. Assim, combino o útil com o sentimental) e entrou sem pedir licença.

— Vista-se, por favor. Pé Grande morreu.

Por um instante perdi a fala e, em silêncio, calcei as botas de cano alto e vesti o primeiro casaco de frio que encontrei no cabideiro. Lá fora, a neve, na mancha de luz jogada pelo abajur no alpendre, virava uma ducha vagarosa e sonolenta. Esquisito estava do meu lado, calado, alto, esbelto e ossudo como uma silhueta esboçada com alguns riscos a lápis. A neve caía do seu corpo ao mínimo movimento, como se fosse um cavaquinho polvilhado com açúcar de confeiteiro.

— Como assim “está morto”? — perguntei, por fim, ao abrir a porta, com a garganta apertada, mas ele não me respondeu.

De modo geral, ele fala pouco. Deve ter Mercúrio num signo silencioso, acho que em Capricórnio ou em conjunção, quadratura,

ou talvez em oposição a Saturno. Podia ser, também, um Mercúrio retrógrado — que, nesse caso, acarretava discrição.

Saímos de casa e, imediatamente, nos envolveu esse ar muito familiar — frio e úmido — que nos relembra todos os invernos que o mundo não fora criado para a humanidade, e durante pelo menos a metade do ano nos demonstra a sua hostilidade. O frio atacou brutalmente as nossas bochechas, e emergiram nuvens brancas de vapor de nossas bocas. A luz no alpendre se apagou automaticamente e caminhamos pela neve crepitante na escuridão completa, a não ser pela lanterna de cabeça de Esquisito

que penetrava as trevas num único ponto oscilante logo à sua frente. Eu andava na penumbra, saltitando às suas costas.

— Não tem lanterna? — perguntou.

Claro que tinha, mas conseguiria achá-la apenas de manhã, à luz do dia. Com as lanternas é sempre assim: são visíveis só durante

o dia.

A casa de Pé Grande ficava um pouco afastada, acima das demais. Era uma das poucas habitadas durante o ano inteiro. Apenas

ele, Esquisito e eu vivíamos aqui sem temer o inverno; os outros moradores fechavam a casa já em outubro; esvaziavam os canos de água e voltavam para a cidade.

Desviamos então levemente da estrada, desobstruída, que passa pelo nosso vilarejo e se ramifica em trilhas que levam às respectivas casas. Um caminho pela neve profunda, tão estreito que nos obrigava a pisar colocando um pé atrás do outro, alternadamente,

enquanto tentávamos manter o equilíbrio, nos guiava até Pé Grande.

— Não vai ser uma imagem nada agradável — avisou Esquisito, virando-se para mim e, por um átimo, me cegando completamente.

Não esperava nada de diferente. Silenciou por um instante e, em seguida, disse, como se quisesse se desculpar:

— Fiquei preocupado com a luz acesa na cozinha e o latido desesperado da cadela. Você não ouviu nada?

Não, não ouvi. Estava dormindo, entorpecida pelo lúpulo e pela valeriana.

— Onde ela está agora, essa cadela? 

— Levei embora, está na minha casa. Eu a alimentei e ela pareceu se acalmar.

Mais um instante de silêncio.

— Ele sempre ia dormir cedo e apagava as luzes para economizar, e dessa vez a luz ficou acesa o tempo todo. Uma faixa brilhante de luz sobre a neve, visível da janela do meu quarto. Foi por isso que decidi ir até lá. Pensei que ele poderia estar bêbado, ou que estivesse implicando com o cão, para que latisse daquele jeito.

Passamos por um estábulo arruinado e, logo em seguida, a lanterna de Esquisito caçou na escuridão dois pares de olhos reluzentes,

esverdeados, fluorescentes.

— Olha só, corças — eu disse num sussurro excitado e agarrei a manga de sua samarra. — Chegaram muito perto da casa. Não têm medo?

As corças estavam com as patas imersas na neve até a altura da barriga. Olhavam para nós com calma, como se as tivéssemos

apanhado no meio de um ritual cujo sentido não conseguimos entender. Estava escuro, portanto não sabia reconhecer se eram

as mesmas jovens que vieram da República Tcheca no outono. Ou será que eram outras, novas? E por que, essencialmente, havia

apenas duas? Aquelas eram no mínimo quatro.

— Voltem para casa — eu disse, espantando-as com as mãos. Estremeceram, mas não se moveram. Elas calmamente nos acompanharam com o olhar até a porta. Senti calafrios.

Enquanto isso, Esquisito limpava os sapatos, batendo os pés contra o solo diante da porta de uma casa descuidada. As pequenas

janelas haviam sido calafetadas com papéis de vedação e plástico. Feltro betumado cobria as portas de madeira.

Pedaços de lenha de diversos tamanhos recobriam as paredes do vestíbulo. Era, de fato, um interior desagradável, sujo e descuidado.

Sentia-se o cheiro de mofo, madeira e terra — molhada e voraz. O odor de fumaça, de longa data, envolveu as paredes com uma camada de gordura.

A porta da cozinha estava entreaberta. Assim, de imediato avistei o corpo de Pé Grande prostrado no chão. Meu olhar roçou nele

fugazmente, para logo recuar. Demorou um bocado antes que eu conseguisse olhar para lá outra vez. Era uma cena horrível.

Estava deitado, retorcido numa posição estranha, com as mãos junto do pescoço como se quisesse afrouxar a gola apertada. Ia me aproximando aos poucos, como que hipnotizada. Vi os seus olhos abertos fixados em algum ponto debaixo da mesa. A camiseta suja estava rasgada na altura da garganta. Parecia que o seu corpo tinha travado uma luta consigo mesmo, foi derrotado e se entregou. Fiquei com frio de tanto horror, meu sangue gelou nas veias e senti como se tivesse cedido para o próprio fundo do meu corpo. Ainda ontem havia visto esse corpo vivo.

— Meu Deus — balbuciei. — O que aconteceu?

Esquisito deu de ombros.

— Não consigo ligar para a polícia, o sinal da operadora tcheca deu interferência outra vez.

Tirei meu celular do bolso e digitei o número que conhecia da televisão — 997 — e, em seguida, uma voz tcheca automática ressoou no aparelho. Aqui é assim. O sinal vagueia, sem se importar com as fronteiras nacionais. Às vezes, a fronteira entre as operadoras ficava por um tempo na minha cozinha. Outras, se fixava durante alguns dias junto à casa de Esquisito ou no terraço. No entanto, era difícil prever o seu caráter quimérico.

— Você devia ter subido a colina — o aconselhei tardiamente.

— O corpo vai enrijecer por completo antes que eles cheguem — disse Esquisito num tom que eu não gostava, particularmente no seu caso: era um tom sabichão. Tirou a samarra e a pendurou no encosto da cadeira. — Não podemos permitir que fique assim. Está com um aspecto repugnante, mas, enfim, era nosso vizinho.

Olhava para o pobre e retorcido corpo de Pé Grande e me custava entender que ainda ontem tinha medo desse homem. Não gostava dele. Talvez não gostar fosse até um eufemismo. Deveria, aliás, dizer: ele me parecia repugnante, horrível. De fato, nem sequer o considerava um ser humano. Agora estava prostrado no chão manchado usando uma cueca suja, pequeno e magro, impotente e inofensivo. Ora, um fragmento de matéria que, em consequência de transformações difíceis de ser imaginadas, virou um ser frágil, isolado de tudo. Fiquei triste, extremamente triste, pois mesmo uma pessoa tão desagradável não merecia morrer. Aliás, quem mesmo merece morrer? Eu também compartilharei o mesmo destino, assim como Esquisito e aquelas corças lá fora; todos nós seremos um dia nada mais que um corpo morto.

Olhei para Esquisito, na esperança de algum consolo, mas ele já tinha se entregado à tarefa de arrumar a cama revirada, improvisada sobre um sofá-cama em ruínas, então fiz o possível para me consolar sozinha. Passou, então, pela minha cabeça a ideia de que a morte de Pé Grande poderia ser considerada, de alguma forma, algo bom, pois o libertou da bagunça que era a sua vida. E libertou outros seres vivos dele. Eis que, repentinamente, me dei conta dos benefícios da morte e de como ela era justa, à semelhança de um desinfetante ou de um aspirador. Admito, foi o que pensei, e continuo com a mesma convicção.

Era meu vizinho, menos de um quilômetro de distância separava as nossas casas, mas, por sorte, o meu contato com Pé Grande era esporádico. Normalmente avistava-o de longe — sua figura franzina e rija, sempre um pouco instável, se deslocava com a paisagem ao fundo. Ao andar, balbuciava algo e, de vez em quando, a acústica ventosa do planalto propagava os farrapos desse monólogo, essencialmente simples e pouco diversificado, trazendo-os até mim. Seu vocabulário era composto principalmente de palavrões aos quais acrescentava apenas nomes próprios.

Conhecia cada pedaço de terra deste lugar, pois parece que nasceu aqui e nunca foi além de Kłodzko. Era perito na floresta — sabia como usá-la para ganhar dinheiro, o que poderia vender e para quem. Cogumelos, mirtilos, lenha roubada, gravetos para acender o fogo, armadilhas, o rali off-road anual, as caçadas. A floresta alimentava esse pequeno gnomo, e por isso ele deveria respeitá-la, mas não era o caso. Uma vez, em agosto, durante a estiagem, ele incendiou todo o mirtileiro. Liguei, aliás, para os bombeiros, mas não consegui salvar quase nada. Nunca soube por que ele fez aquilo. No verão, caminhava pelas redondezas com uma serra e cortava as árvores cheias de seiva. Quando chamei sua atenção, reprimindo a raiva com dificuldade, ele respondeu de forma simples: “Cai fora, sua velha”. Só que com mais grosseria. Ele sempre ganhava um dinheirinho extra roubando alguma coisa, dando um jeitinho; quando os veranistas deixavam uma lanterna ou um podador no quintal, Pé Grande sempre aproveitava a ocasião para levar tudo e depois vender na cidade. Na minha opinião, inúmeras vezes deveria ter recebido punições, ou até ido para a cadeia. Não sei como sempre saía impune. Talvez tivesse a proteção de certos anjos; às vezes eles tomam o lado errado. (...)

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Confira cinco curiosidades sobre o Prêmio Nobel de Literatura

Em seus mais de cem anos de existência, a premiação já enfrentou de escândalo sexual a ameaça de morte contra um de seus ganhadores

AFP, Agências

09 de outubro de 2019 | 19h00

O Prêmio Nobel de Literatura será concedido este ano a dois escritores, correspondentes aos contemplados de 2019 e 2018. A situação acontece depois da atribuição do prêmio no ano passado, ter sido adiada devido a um escândalo sexual, que revelou os segredos que ocorriam no interior de uma instituição afetada por intrigas e corrupção.

A Academia Sueca, criada em 1786 e fundada no modelo da antiga Academia Francesa, teve que adiar por um ano o anúncio do Nobel de Literatura 2018, algo sem precedentes nos últimos 70 anos. Na época, a instituição precisou lidar com as relevações de agressões sexuais do francês Jean-Claude Arnault, influente personalidade da cena cultural sueca, que recebia generosos subsídios da academia. Ele foi condenado a dois anos e meio de prisão por estupro.

Como todos os anos desde 1901, os prognósticos apontam para uma série de nomes, embora a academia guarde o segredo da votação de seus 18 membros até o último momento. Quer saber mais algumas informações sobre o Nobel de Literatura? Então confira logo abaixo cinco curiosidades sobre este prestigioso prêmio, que é entregue desde 1901 pela Academia Sueca.

 

1. O de maior prestígio

A Academia Sueca concede ao todo 16 prêmios, dos quais o de maior prestígio é o Nobel de Literatura. Em seu testamento, o inventor Alfred Nobel confiou à instituição sueca a missão de recompensar, a cada ano, o "autor da obra literária mais transcendente de inspiração idealista".

Entre quatro e cinco membros - de um total de 18 - são encarregados de compilar e debater as propostas de nomeação, antes de propor uma lista de nomes ao conjunto de membros da Academia. Eles são os responsáveis por discutir as propostas antes de submetê-las a uma votação por maioria absoluta.

Nesse quesito, como novidade para os próximos anos, a Fundação Nobel, que concede o prêmio, adicionou para 2019 e 2020 "cinco especialistas externos", principalmente críticos, editores e escritores. 

 

2. 350 propostas ao ano

Os arquivos da Academia Sueca lotam com mensagens dos principais nomes das letras e do setor editorial, reivindicando de forma mais ou menos sutil a atenção dos acadêmicos.

Anualmente, são enviadas 350 propostas por escrito de candidaturas procedentes de personalidades já premiadas, acadêmicos, organizações e outros profissionais do meio literário e linguístico, que destacam as vantagens de seu candidato, chegando inclusive a fazer uma oferenda aos acadêmicos - um gesto que costuma ser mal visto.

Para que sejam válidas, as candidaturas devem ser renovadas a cada ano e ser apresentadas antes de 1º de fevereiro. Os candidatos devem estar vivos e, a princípio, ter publicado no ano corrente.

 

3. Sete anos em branco e uma recusa

O Nobel de Literatura já foi atribuído para 114 contemplados, dos quais apenas 14 foram mulheres. Entre as premiações, houve quatro duplas. Foi rejeitado uma vez, em 1964, quando o filósofo francês Jean-Paul Sartre recusou a recompensa, algo que não estava previsto no testamento de Nobel. Assim, continua sendo considerado um contemplado, embora nunca tenha recebido o dinheiro do prêmio. Anos antes, em 1958, Boris Pasternak foi forçado a rejeitar o prêmio por pressão do governo soviético.

Além disso, o Nobel de Literatura não foi concedido em sete ocasiões desde 1901, coincidindo principalmente com anos de guerra: em 1914, 1918, 1935, 1940, 1941, 1942 e 1943.

 

4. Literatura francesa no topo

Entre os países, a França está na liderança com 15 premiados, inclusive na primeira edição, que recompensou Sully Prudhomme. É seguida dos Estados Unidos e do Reino Unido, cada um com 12 prêmios. A língua de Molière, ao contrário, foi desbancada pela de Shakespeare, com 29 autores anglófonos premiados desde a criação do prêmio.

 

5. O caso Salman Rushdie

Os acadêmicos se abstiveram de se posicionar, em nome da 'independência da literatura' sobre o caso Salman Rushdie em 1989, quando o britânico, autor de Os Versos Satânicos, foi ofendido por islamitas. Na época, os membros da Acadêmia Sueca ficaram divididos entre aqueles que de fato queriam lhe dar apoio e aqueles que apenas prezavam pela neutralidade do cenáculo.

Três acadêmicos, que ficaram indignados com o silêncio da Academia Sueca, abandonaram suas poltronas, embora não tenham sido autorizados a se demitir. Tiveram que se passar três décadas para que a Academia denunciasse a público, em 2016, a fatwa (sentença de morte proferida pelo Islã) contra o escritor.

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Qual escritor brasileiro merecia um Prêmio Nobel de Literatura?

O Prêmio Nobel de Literatura anuncia os vencedores de 2018 e 2019 na quinta-feira, 10; vote na enquete

Redação, O Estado de S. Paulo

07 de outubro de 2019 | 07h00

Depois de um ano conturbado para a Academia Sueca, com acusações de assédio sexual e de fraude, e que resultou em um 2018 sem Prêmio Nobel de Literatura, a instituição anuncia na quinta-feira, 10, de uma só vez, os vencedores de 2018 e 2019.

Criado em 1901, o Nobel nunca premiou um escritor brasileiro. E também deixou de fora de sua história grandes autores como Tolstói, Proust, Virginia Woolf e Philip Roth.

Pensando nos grandes autores brasileiros, quem você acha que merecia ter ganhado o Prêmio Nobel de Literatura, ou que merece ganhar? 

Machado de Assis, autor de Dom Casmurro e de tantas outras obras que se tornaram clássicas, ou Clarice Lispector, sucesso de crítica e de público? O ‘moderno’ Mário de Andrade ou o ‘eterno’ Carlos Drummond de Andrade? Dos contemporâneos, Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan, Raduan Nassar ou Chico Buarque, o mais recente Prêmio Camões?

Se o escritor que você considera injustiçado não estiver na lista (abaixo relembramos suas principais obras), deixe o nome dele nos comentários.

Machado de Assis (1839-1908)

Membro da Academia Brasileira de Letras, autor de Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, O Alienista e muitas outras

Euclides da Cunha (1866-1909)

Cobriu a Guerra de Canudos para o 'Estado' e escreveu o primeiro clássico da não ficção brasileira: Os Sertões.

Mário de Andrade (1893-1945)

Autor de Macunaíma, Pauliceia Desvairada e Amar, Verbo Intransito

Cecília Meireles (1901-1964)

Autora de uma vasta obra, com títulos que vão de O Ramanceiro da Inconfidência a Ou Isto ou Aquilo

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Autor de Sentimento do Mundo, A Rosa do Povo e Claro Enigma, entre tantos outros títulos

João Guimarães Rosa (1908-1967)

Sua obra-prima é Grande Sertão: Veredas

Rachel de Queiroz (1910-2003)

Autora de O Quinze, Três Marias e Memorial de Maria Moura

Jorge Amado (1912-2001)

Um dos nomes mais internacionais da lista, ele é autor de Gabriela Cravo e Canela, Capitães da Areia e Dona Flor e Seus Dois Maridos, entre outros livros 

Clarice Lispector (1920-1977)

Autora de A Paixão Segundo G. H. e A Hora da Estrela

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

Autor de Morte e Vida Severina e O Cão Sem Plumas

Ferreira Gullar (1930-2016)

Autor de Poema Sujo e Dentro da Noite Veloz

João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)

Autor de Viva o Povo Brasileiro e A Casa dos Budas Ditosos

Lygia Fagundes Telles (1923)

Ela abre a lista dos escritores vivos que ainda teriam alguma chance no Nobel. É autora de As Meninas, Ciranda de Pedras e Antes do Baile Verde

Dalton Trevisan (1925)

Um dos mais reclusos brasileiros, ele é autor de O Vampiro de Curitiba e O Anão e a Ninfeta

Raduan Nassar (1935)

Também recluso, Raduan Nassar se retirou da literatura depois de Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera

Chico Buarque (1944)

O músico e compositor que tem se destacado em prêmios literários é autor de Benjamin, Budapeste e Leite Derramado

 

 

 

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