Armando Babani/EFE
Armando Babani/EFE

Olga Tokarczuk discursa na Alemanha sobre a força política do livro

Prêmio Nobel de 2018, autora polonesa fez aparição na 71.ª Feira do Livro de Frankfurt, onde destacou a dimensão social da escrita 

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

15 de outubro de 2019 | 18h20

A 71.ª Feira do Livro de Frankfurt abre oficialmente nesta quarta, 16, com a apresentação do país homenageado, a Noruega. Mas o clima já ferveu na manhã desta terça-feira, quando aconteceu a tradicional entrevista coletiva com o diretor da feira, Jurgen Boos, mas acompanhado de uma ilustre convidada: a escritora polonesa Olga Tokarczuk, prêmio Nobel de Literatura de 2018.

Em seu discurso, ela destacou a dimensão política da escrita em tempos conturbados. Olga foi a última personalidade a falar e começou recordando do momento em que recebeu a notícia que seria a premiada pelo Nobel. “Eu estava em algum lugar sem nome entre Berlim e Bielefeld (noroeste da Alemanha), o que considero significativo porque esse lugar sem nome é uma boa metáfora para o mundo em que vivemos hoje: vivemos um tempo em que perdemos muitas referências de orientação”, disse.

Em relação ao papel da literatura diante dessa constante mudança, a polonesa reconheceu que os livros em geral são lentos para espelhar a realidade, o que coloca em dúvida, muitas vezes, sua eficácia. “Precisamos de tempo para expressar o que sentimos e o que nos rodeia. Às vezes, me questiono se é possível descrever esse mundo ou se estamos perdidos diante do desaparecimento de parâmetros de referência”, comentou a autora.

Para ela, ao final a fé na obra literária prevalece, o que pode, segundo sua opinião, levar a escrita a um nível mais profundo de comunicação, se comparada a outras mídias. “Na literatura – e penso especialmente no romance –, não se trata apenas de uma troca de informações, mas principalmente na transmissão de uma experiência vital, o que permite um encontro em um plano mais profundo.”

Em relação à própria obra, Olga Tokarczuk ressaltou sua fé em conseguir uma união das pessoas que sobressaia às “diferenças de orientação étnica, nacional ou sexual”. E, quando comentou sobre seu país, a escritora reconheceu sua insatisfação com o resultado das eleições na Polônia, que deram a vitória ao partido atualmente no poder, mas acrescentou que a chegada ao parlamento da esquerda e dos Verdes lhe dá alguma esperança.

Olga foi precedida pelos discursos do diretor da feira, Boos, e do presidente da Associação Alemã de Livrarias, Heinrich Riethmüller. Ambos destacaram a importância do livro como forma de luta política. “Precisamos de autores que denunciem situações ruins, que exercem resistência e estejam dispostos a correr riscos. E precisamos de editores que colecionem esses conteúdos e encontrem formatos apropriados para eles”, afirmou Boos.

(COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)

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