‘Ocupação Antonio Candido’ mostra arquivos do acervo do intelectual pela primeira vez

‘Ocupação Antonio Candido’ mostra arquivos do acervo do intelectual pela primeira vez

Exposição no Itaú Cultural reúne cadernos, fotos e arquivos selecionados dos mais de 50 mil itens que o crítico deixou, incluindo o projeto do 'Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo'

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

20 Maio 2018 | 06h01

O primeiro ato público de divulgação do acervo de Antonio Candido (1918-2017) ocorre nesta semana: a Ocupação Antonio Candido, no Itaú Cultural, vai mostrar documentos, fotos e materiais de vídeo e áudio do acervo do intelectual. Inspirada pelo texto O Direito à Literatura, de 1988, a exposição celebra o centenário do autor (24 de julho de 2018) e abre na quarta-feira, 23. Um colóquio internacional reúne autores para discutir aspectos da obra de Candido, até a sexta, 25 — veja a programação abaixo.

O acervo pessoal de Antonio Candido e Gilda de Mello e Souza foi doado ao Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) no ano passado, e com apoio do Itaú Cultural está recebendo o processamento técnico necessário para ser aberto a pesquisadores e leitores. Com 126 cadernos de anotações de Candido (de um total de 45 mil itens textuais), 5 mil fotos, pelo menos 800 vinis e fitas cassetes, o acervo deve ficar disponível em 2019.

A biblioteca do autor – os 6,1 mil livros que ele selecionou e guardou até o fim da vida – será doada para a Unicamp.

Entre os itens que serão expostos na Ocupação, estão alguns dos cadernos: por orientação da mãe, Candido fez anotações desde os 10 anos idade e manteve o hábito durante a vida de pesquisador. Notas referentes à produção de Os Parceiros do Rio Bonito (sua tese de doutorado em Ciências Sociais) e de Formação da Literatura Brasileira, por exemplo, compõe a exposição, além de fotos e arquivos de vídeo e áudio.

Os itens são todos do acervo. Candido deixou tudo extremamente organizado, segundo a designer e editora Laura Escorel, curadora da exposição e neta do autor – bem como com a instrução de doar os itens ao IEB. Os trabalhos eram separados por pastas, etiquetados: ele voltava aos materiais e chegava a revisar artigos da Folha da Manhã, por exemplo, da década de 1940. Ele também organizou e anotou a produção intelectual de Gilda (1919-2005), também do IEB agora.

Questionada sobre a importância desse acervo para a cultura brasileira, a professora emérita da USP Walnice Nogueira Galvão disse simplesmente: “Não há paralelo possível. É o acervo mais importante que existe.” Ela abre o colóquio da Ocupação na quarta, 23, às 19h.

O coordenador do núcleo de literatura do Itaú Cultural, Claudiney Ferreira, afirma que o trabalho no acervo é um trabalho para o futuro. “Imagine quantos assuntos para estudo existem aí dentro”, diz Ferreira, também curador da Ocupação. “São pelo menos 100 anos de trabalho. Haverá gente trabalhando nesse material que ainda nem nasceu.”

A exposição é dividida em sete núcleos que pretendem oferecer uma amostra da produção intelectual do autor (destacando os dois livros citados, mas também sua participação nas revistas Clima e Argumento, o projeto do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo e célebres artigos seus para a Folha da Manhã, com uma revisão crítica posterior do autor), mas também dar forma ao seu reconhecido senso de generosidade com os alunos e sua dedicação à família. O lado militante político de Candido também é contemplado.

“Ele era muito dedicado, muito disciplinado, nada era mais ou menos”, lembra Laura Escorel. “Ele ia até o último fio de cabelo de perfeição que pudesse alcançar. É bonito porque é um sinal de respeito com o próximo. Ele fazia isso ao preparar uma aula, nas relações com os alunos, com os leitores, com os colaboradores, com os discípulos, com os mestres...”

Professor de literatura uruguaia na Universidade Federal do Uruguai, Pablo Rocca também participa do seminário. Ele explica que Candido ajudou a difundir a cultura brasileira no Uruguai depois de um curso de verão na universidade em Montevidéu, onde estabeleceu o contato com Ángel Rama (1926-1983), a quem Candido considerava “o maior crítico literário que a América Latina teve no meu tempo”.

Um livro com a correspondência entre os dois, Conversa Cortada, também será lançado na próxima semana, em coedição da Ouro Sobre Azul e da Edusp, com organização de Rocca. Ele teve contato com a obra de Candido por meio de um artigo de Rama. “Fui atrás dos livros do mestre e tive, ao longo dos tempos, a possibilidade de conhecê-lo, graças a meus estudos de doutorado na USP (e a generosidade do professor Jorge Schwartz), estudar sua obra, saber de sua sabedoria mas, em especial, de um ser humano excepcional”, diz.

O escritor Antonio Prata é outro convidado do colóquio (ele divide uma mesa com Luiz Ruffato, na quinta, às 20h). Quando Prata nasceu, sua família morava na mesma vila que Candido no Itaim Bibi. Uma amizade se criou até que ele decidiu se tornar escritor. Seu primeiro livro, Cabras, de 1999, assinado com outros três autores, acabou tendo prefácio de ninguém menos que Antonio Candido. “Mandei o livro pela faxineira em comum, a Gorete, e de tanto ela pressionar ele acabou escrevendo o texto”, diz Prata, aos risos. 

“A imagem dele já trazia um pouco do que ele era”, explica o cronista. “Ele era ‘O’ professor. Aquilo dava a dimensão de uma coisa muito distinta. Não era pomposo, não era arrogante, exibicionista. Depois, quando descobri a obra, os textos se encaixavam perfeitamente.”

‘Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo’ tem espaço na mostra

Páginas do projeto original do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, elaborado por Antonio Candido em 1956 por encomenda do jornal estarão expostas na Ocupação. Um fac-símile da primeira edição do Suplemento, que circulou em 6 de outubro de 1956, estará disponível para leitura, com um artigo de Candido.

Com instruções detalhadas sobre seções, nomes indicados e sobre as remunerações – que Candido considerava fundamental – seu projeto foi base do Suplemento, que existiu até 1974.

A professora emérita da USP Walnice Nogueira Galvão, colaboradora do Suplemento, atesta que Candido sempre teve a iniciativa “na mais alta conta”. 

OCUPAÇÃO ANTONIO CANDIDO

Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, São Paulo. De 23/5 a 12/8. De 3.ª a 6.ª, das 9h às 20h. Sáb., dom. e fer., das 11h às 20h. Grátis.

Programação do Colóquio Internacional

23 DE MAIO (QUARTA-FEIRA)

Às 19h

Obra e militância: a vida de um intelectual brasileiro

Walnice Nogueira Galvão fala sobre a obra e militância de Antonio Candido: um grande professor, bem como um grande orientador de teses e de carreiras. 

Walnice é professora emérita Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLECH-USP). Foi aluna e depois assistente de Antonio Candido nessa faculdade. Tem cerca de 40 livros publicados, especialmente sobre Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, crítica literária e cultural.

24 DE MAIO (QUINTA-FEIRA)

Às 18h

Antonio Candido: a visão de dois brasilianistas

Šárka Grauová e Pablo Rocca fazem um paralelo sobre a obra de Antonio Candido e de hispano-americanos contemporâneos, como David Viñas, Ángel Rama e Rafael Gutiérrez Girardot.

 Šárka possui mestrado em Letras (Filologia Inglesa e Portuguesa) e doutorado em Literaturas Românicas pela Universidade Carolina de Praga. Em 1988 publicou a dissertação Laurence Sterne e Machado de Assis: Metamorfoses da Forma Livre. A sua tese, de 2012, é Tradução como Fato Cultural – Caso George Steiner. Atualmente é pesquisadora, docente e chefe do Departamento de Estudos Luso-Brasileiros do Instituto de Estudos Românicos da Faculdade de Letras da Universidade Carolina e presidente da Sociedade Checa de Língua Portuguesa. É tradutora de livros de literatura brasileira. Dirige a coleção Biblioteca Luso-Brasileira das editoras Torst e Triáda.

Rocca é professor titular de Literatura uruguaia na Universidade Federal do Uruguai, onde pesquisa sobre literatura do Rio da Prata e do Brasil. Vem publicando livros e artigos sobre sua especialidade desde 1991, entre eles a tese de doutorado, realizada na Universidade de São Paulo (USP) sobre Ángel Rama, Emir Rodríguez Monegal e o Brasil. Preparou, fez o prólogo e anotou a correspondência entre Candido e Rama.

Às 20h

A pessoa e a obra: a percepção de dois autores

Luiz Ruffato fala sobre a influência das leituras de Antonio Candido em sua visão de escritor. Antônio Prata revela como foi crescer tendo "o professor" e dona Gilda como vizinhos, em uma vila do Itaim. 

Ruffato é escritor. Seus livros ganharam os prêmios Machado de Assis, APCA, Jabuti e Casa de las Américas e estão publicados na Argentina, Colômbia, Cuba, México, Estados Unidos, Portugal, França, Itália, Alemanha, Finlândia e Macedônia. Em 2016 recebeu o Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha.

Prata nasceu em São Paulo, em 1977. Tem 10 livros publicados. Escreve roteiros para televisão e cinema e mantém uma coluna no jornal Folha de S. Paulo aos domingos.

25 DE MAIO (SEXTA-FEIRA)

Às 18h

Antonio Candido em duas obras: O albatroz e o chinês e O direito à literatura

Marisa Lajolo comenta e debate aspectos da obra de Antonio Candido à luz de sua proposta de incluir a literatura entre os direitos humanos. Celso Lafer faz uma reflexão sobre O Albatroz e o Chinês, último livro organizado e publicado por Antonio Candido, e de que maneira se insere na sua trajetória de crítico literário e pensador da cultura.

Marisa tem mestrado e doutorado em Teoria Literária, pela USP. Professora titular (aposentada) da Unicamp. É, também, professora da Universidade Presbiterana Mackenzie.

Lafer é professor-emérito da USP e da Faculdade de Direito da mesma universidade. Presidiu a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), de 2007 a 2015. É membro da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Às 20h

Aulas, seminários, conversas: a pedagogia de Antonio Candido

José Miguel Wisnik é ensaísta, músico e professor aposentado de Literatura Brasileira na USP. Fez mestrado e doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada, sob a orientação de Antonio Candido.

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