Acervo da Família
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Obra traz manuscritos de ‘A Hora da Estrela’, de Clarice Lispector

Textos originais revelam os estados de humor da escritora, que rascunhava também em cheques e envelopes

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2021 | 05h00

A escritora Clarice Lispector (1920-1977) tinha uma caligrafia bonita, como se pode observar em suas cartas e primeiros manuscritos. Mas, ao final da vida, acometida por doenças, a letra começou a ficar mais trêmula, nervosa, quase rabiscos incompreensíveis. É o que o leitor poderá observar na luxuosa edição de A Hora da Estrela, volume que traz a versão manuscrita integral da obra lançada por Clarice no ano de sua morte. Trata-se do primeiro trabalho em português da editora francesa Editions des Saints Pères, especializada na reprodução de grandes originais da literatura. A tiragem é especial, de 1 mil exemplares numerados. “Clarice é uma autora brasileira muito importante na França”, afirma Jessica Nelson, editora e cofundadora da Saints Pères. "Acompanhamos seu trabalho há muito tempo. O encontro com o filho dela, Paulo Gurgel Valente, foi decisivo para nossa escolha, e, em seguida, a beleza do manuscrito e o que revela sobre A Hora da Estrela.” 

A reprodução é apresentada o mais próximo possível de sua aparência original, como se a romancista tivesse acabado de largar sua caneta, revelando também as correções, variações e notas utilizadas na elaboração do romance. Nela, é possível encontrar mais de uma versão para diferentes passagens-chave do texto, como, por exemplo, duas versões da cena final do livro, o momento da morte de Macabéa – sua “hora da estrela”. A versão publicada seria o resultado da fusão dessas duas variantes.

Os originais de A Hora da Estrela estão arquivados no Instituto Moreira Salles, desde 2004. Os manuscritos são importantes não apenas pelo aspecto histórico, mas também por registrarem a forma como Clarice trabalhava em seus textos. “Desde as primeiras obras, a escritora adotara o método da anotação imediata. Assim, segundo Nádia Battella Gotlib, sua biógrafa, ‘passa a carregar um caderninho, onde vai fazendo as suas anotações. São as notas, soltas, que, em grande quantidade, e referentes ao mesmo assunto, constituirão já o seu romance’”, observa o professor Fábio Frohwein, em texto publicado no site do IMS. “Com o tempo, as anotações seriam feitas em qualquer tipo de papel, facilmente à mão, e até por outra pessoa, a quem Clarice solicitava ajuda”, continua ele. “Por isso, vemos notas de A Hora da Estrela em fragmentos de papel, folhas de cheque e envelopes.”

Clarice Lispector escrevia de forma muito peculiar: se, em alguns momentos, as anotações nasciam em fluxos contínuos, sobre folhas de caderno, em outros, realizava a chamada “escrita imediata”, ou seja, bilhetes dispersos e anotações em papéis de todos os tipos (envelopes usados, cartões de visita, folhas rasgadas, lembretes de compromissos). Em alguns momentos, quando não podia pegar em uma caneta ou lápis, pedia a alguém que estivesse por perto para rascunhar o que passava em seus pensamentos – assim, não é surpresa encontrar, em alguns fragmentos, caligrafias diversas.

“Escrevo de um modo cada vez mais pobre”, observava a autora a respeito de A Hora da Estrela. “É claro que há a tentação de fazer palavras bonitas: conheço adjetivos esplendorosos, substantivos carnudos e verbos esguios que agem agudos no ar. Mas se eu transformasse o pão dessa moça em ouro – ela não poderia mordê-lo e ficaria com ainda mais fome.” Publicado no ano da morte da escritora, 1977, o romance é considerado um dos mais importantes de sua carreira não apenas pelas qualidades literárias, mas também por apresentar uma reflexão franca sobre a própria vida e sua atividade de escritora. A trama acompanha Macabéa, uma jovem que fugiu da miséria de sua Alagoas natal para se tornar datilógrafa no Rio de Janeiro. O romance evoca o confronto entre o escritor brasileiro moderno e a miséria da população brasileira por meio de um conflito linguístico: como é possível falar dessa miséria sem distorcê-la?

Clarice foi uma escritora cuja obra ardente, enigmática e responsável por um movimento ficcional absolutamente novo despertou paixões. Daí a expectativa de que esta reprodução dos manuscritos provoque atenção. Em seus rascunhos, é possível notar documentos curiosos – como as 13 tentativas de título testadas por ela para nomear a obra, além de vestígios da identificação da autora com seu narrador; os erros de gênero perceptíveis nos rascunhos quando usa o feminino para falar dele; fragmentos que revelam a vida pessoal da escritora, como o horário de seus compromissos e mesmo o endereço de sua casa – o do último apartamento que ocupou no Rio antes de morrer, em dezembro de 1977; e até marcas de batom. 

Foi justamente este último detalhe que encantou o americano Benjamin Moser, autor de Clarice, alentada biografia de Clarice Lispector. Ao Estadão, ele disse que fez uma viagem no tempo ao folhear a edição com reprodução do original de A Hora da Estrela. “Não estão ali apenas os manuscritos do romance, mas também os últimos escritos feitos por ela”, comenta ele, que manuseou inúmeros documentos e originais para a escrita de seu livro. “Estão ali os esboços que Clarice fez enquanto estava no hospital, bilhetes escritos com uma caligrafia já muito ruim. Mas, para clariceanos como eu, a grande emoção foi se deparar com uma marca de batom, possivelmente deixado ali quando ela retirou um excesso nos lábios. É como estar fisicamente muito perto dela.”

De fato, manuscritos, em geral, são matérias vivas, mas, no caso de A Hora da Estrela, despertam mais interesse por revelar, com detalhes, quase todo o processo de escrita. “Originais oferecem uma visão única dos bastidores da criação”, observa Jessica Nelson, fundadora e editora geral da editora Saints Pères. “Trata-se de um mergulho íntimo no laboratório de escrita dos autores, e de uma experiência de leitura muito diferente e comovente. Por que um autor escolheu uma palavra em vez de outra? Como ele retrabalhou uma passagem que mais tarde se tornou famosa? O que havia nas versões anteriores que não existe mais na versão editada? O que podemos aprender por meio das hesitações e correções? Hoje, essas etapas do trabalho, esses documentos testemunhos, tendem a desaparecer porque os artistas usam mais o computador do que papel e caneta.”

A Saints Pères foi fundada em 2012, em Paris, buscando oferecer ao leitor a reprodução de grandes manuscritos da literatura. Logo, as pesquisas e negociações com detentores dos documentos permitiram a criação de um catálogo com originais franceses (Victor Hugo, Marcel Proust, Gustave Flaubert) e anglo-saxões (Charlotte Brontë, F. Scott Fitzgerald, Virginia Woolf).

“Nosso gatilho foi uma grande exposição na Biblioteca Nacional da França sobre rascunhos de escritores. Achamos tudo isso fascinante, e extremamente pessoal. Cada manuscrito é uma obra completa, única, que varia em conteúdo e em forma, e que revela muitos segredos através da caligrafia”, explica Jessica, cuja primeira publicação foi com os originais de Higiene do Assassino, da belga Amélie Nothomb. “Ela achou nosso projeto um pouco louco, mas, como ela aprecia particularmente o que está fora do comum, concordou em nos seguir”, diverte-se a editora que, embora não revele qual escritor em língua portuguesa será o próximo contemplado, aponta algumas preferências: José Saramago, Fernando Pessoa e José Mauro de Vasconcelos.

Entrevista com a editora Jessica Nelson:

‘MANUSCRITO TESTEMUNHA O PROCESSO CRIATIVO’

Como você seleciona os manuscritos que publica?

Começamos pelos autores que admiramos, é claro. Jean Cocteau, por exemplo, é um dos escritores favoritos da casa. Pessoalmente, eu o descobri e me apaixonei por ele quando era adolescente, e ele nunca deixou de me acompanhar desde então. Nicolas (Tretiakow, também editor) sempre foi um admirador fervoroso de Boris Vian. Em seguida, surgem outras questões: o manuscrito da obra existe? Onde está conservado e em que condições? O documento foi digitalizado? Quais permissões precisamos obter? A partir do momento em que localizamos o manuscrito, muitas vezes começa uma longa aventura com mil perguntas e desafios.

Houve algum trabalho que não foi possível reproduzir o manuscrito? Por quê?

Alguns manuscritos antigos representam desafios reais em termos de reprodução. Levamos mais de dois anos para conseguir editar a Bíblia Historial e sua iluminuras, um manuscrito excepcional conservado na Biblioteca Britânica em Londres. Mas alguns outros apresentam ainda mais dificuldades (estou pensando, por exemplo, no manuscrito de Ligações Perigosas, muito danificado). E outros são simplesmente impossíveis de encontrar (os de Shakespeare) porque foram, sem dúvida, destruídos.

Existem alguns detalhes que nos dizem mais coisas e isso só é visível nos manuscritos?

Com certeza! Os manuscritos são testemunhos únicos do processo criativo. A crítica genética (a comparação entre o manuscrito e a versão final) é uma disciplina muito dinâmica. No caso de Clarice Lispector, foi fascinante observar sua escrita circular, as diferentes versões que existem do início e do final de A Hora da Estrela e as páginas de anotações feitas na hora pela escritora, e que precisaram ser posteriormente organizadas e integradas ao texto por Clarice e sua secretária. Vemos também uma confusão de pronomes entre Clarice e seu narrador, o que implica uma identificação entre a escritora e sua personagem – uma perspectiva de leitura que diz muito.

Já existem outros autores brasileiros em seus planos? É possível dizer um nome?

Sim, temos vários nomes e manuscritos em mente, revelaremos quais em breve.


 

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