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Obra reescreve vida da irmã preferida de Sigmund Freud

Vencedor do Prêmio da União Europeia para a Literatura, polêmico 'A Irmã de Freud' chega ao País

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

29 Janeiro 2014 | 03h00

Adolfine foi uma criança frágil, hostilizada pela mãe, que repetia que teria sido melhor se ela não a tivesse “parido”. Porque tinha a saúde frágil, não frequentou a escola, como os irmãos e as irmãs fizeram, e se educou na companhia, e no quarto, do irmão mais velho, Sigmund, seu ídolo, de quem se afastou ao flagrá-lo se masturbando.

Não se casou, mas teve um amor na juventude que resultou num raro momento de felicidade: uma gravidez. O namorado teve um destino trágico e o desejo de ser mãe foi aniquilado com a ajuda daquele mesmo irmão querido, que pediu a um colega médico que fizesse o aborto. Mais tarde, ela se internou voluntariamente numa clínica psiquiátrica tradicional, enquanto Sigmund estudava métodos alternativos para o tratamento de doenças mentais.

Viveu infeliz, solitária, melancólica, ora entre loucos de toda a sorte, ora pajeando a mãe carrasca – sempre à sombra do irmão. Morreu ao lado das irmãs, como muitos outros judeus, numa câmara de gás de um campo de concentração nazista. Isso, depois de implorar, à toa, pela ajuda de Sigmund, que com a família mais próxima, o cachorro, o médico, a família do médico e os empregados se refugiou em Londres sobrevivendo, assim, ao Holocausto.

Essa foi, basicamente, a vida de Adolfine Freud (1862-1943) na imaginação do escritor macedônio Goce Smilevski, que se lançou na corajosa tarefa de revirar a vida do pai da psicanálise, inventando fatos e diálogos que às vezes o denigrem. Vencedor do Prêmio da União Europeia para a Literatura, seu polêmico A Irmã de Freud chega ao País.

Trata-se de uma obra de ficção que tem como personagens algumas pessoas com trajetórias muito conhecidas e como pano de fundo fatos históricos. E o autor faz um alerta: “Ao ler um romance, deve-se tomar por ficção até mesmo os eventos históricos descritos ali”.

Em sua pesquisa, encontrou pouca informação sobre a mulher que inspirou sua personagem narradora, e soltou a imaginação. Mesmo o que era conhecido, como o fato de ela ter morrido de desnutrição em um campo, ganhou ares de ficção.

Smilevski, que não desperdiçou seus achados sobre loucura – quase no final, a narradora faz um apanhado do tema, indo muito além das teorias de Freud (1856-1939) –, falou ao Caderno 2 sobre os limites da ficção, as responsabilidades de um escritor e seu romance polêmico.

Por que escrever esse livro?

É dito que a história é escrita por vencedores, mas é omitido que ela é geralmente contada por homens, e apenas por alguns. Eu quis dar voz a uma das incontáveis mulheres esquecidas que tiveram suas alegrias e tristezas e testemunharam uma das maiores tragédias da humanidade, o Holocausto.

Este é um romance que se refere a pessoas reais, o que poderia induzir o leitor a acreditar que o que está narrado ali de fato aconteceu. Qual foi seu compromisso com a realidade? Você se permitiu alguma licença histórica?

Ao ler um romance, deve-se tomar por ficção até mesmo os eventos históricos descritos ali.

Qual deve ser a responsabilidade de um autor ao criar uma ficção baseada em fatos históricos?

Eu me pergunto se jornalistas questionaram Sigmund Freud depois de ele ter publicado Fragmento da Análise de Um Caso de Histeria se ele se sentia, como autor e como médico, responsável perante uma garota em idade tão vulnerável. Mas respondendo: a responsabilidade de um autor de não ficção é ser fiel aos fatos históricos. A responsabilidade de um autor de ficção é criar um trabalho de alto padrão estético. Críticos de todo o mundo compararam esse romance ao trabalho de Tolstoi, José Saramago, etc. Isso significa que eu cumpri minha responsabilidade como romancista.

Embora seu objetivo fosse tirar Adolfine da sombra e dar a ela uma vida e um lugar na história, o livro acaba girando em torno de Freud, principalmente em torno de seus defeitos e ideias. Trata-se de um livro sobre Adolfine ou sobre (ou para atacar) Freud?

Sigmund Freud escreveu, e depois reafirmou, que as mulheres são constituídas a partir da inveja do pênis. Minha ideia desde o começo foi transformar Adolfine no oposto do que uma mulher era para Freud. Então, este livro não é para atacar as teorias de Freud; é um livro sobre Adolfine, que acabou se tornando uma mulher diferente daquela imaginada por seu irmão.

Você acredita que Freud foi responsável pela morte das irmãs?

Penso na decisão dele de não levar as irmãs e de levar um grupo de cerca de 20 pessoas para Londres quando ele deixou Viena, mas pensar nisso é diferente de responsabilizá-lo pela morte delas. A responsabilidade é dos nazistas.

Ela realmente fez um aborto com a ajuda de Freud e se internou numa clínica psiquiátrica?

A gravidez e a internação são ficção. Repito: A responsabilidade de um autor de não ficção é ser fiel aos fatos históricos. A responsabilidade de um autor de ficção é criar um trabalho que alto padrão estético.

O que você sabia sobre a Adolfine real?

Ela foi uma das muitas mulheres privadas de uma voz e o que se sabe sobre ela é por meio de relatos de seu irmão Sigmund e de seu sobrinho Martin. Freud disse em uma de suas cartas para sua mulher Martha que Adolfine era sua irmã “mais agradável, mas muito sensível”. O filho de Freud, Martin, não foi muito legal com a tia. No livro que escreveu sobre o pai, ele disse que a tia era maltratada pela mãe e que por essa razão ela nunca se desenvolveu como pessoa, ficando dependente dela. Pelas palavras de Martin, senti o menosprezo com que a família tratava Adolfine. Essa foi a minha primeira motivação para dar a ela uma voz e para contar a sua história.

Como foi sua pesquisa?

Foram sete anos e meio pesquisando e escrevendo o livro. Eu me concentrei na vida no século 19 e início do século 20, no Holocausto, na psicanálise e nas teorias de Freud.

Quais foram suas maiores dificuldades e seus obstáculos, e como os superou?

Não é fácil escrever sob o ponto de vista de uma mulher do século 19, contar uma história usando a própria voz. Essa voz não é algo a ser construído; é algo que deve ser ouvido. Eu simplesmente precisei esperar a voz dela.

Sua personagem conhecia muito bem as teorias do irmão, apesar de ter passado sete anos numa clínica psiquiátrica, portanto, mais distante da realidade. Por que você deu tanta ênfase para as conquistas do Freud e para o tema da loucura se este é um livro sobre uma mulher esquecida?

Tenho a impressão de que você acha que eu tenho uma visão negativa sobre Sigmund Freud. Mesmo que ele tenha dito coisas erradas, eu admiro seu trabalho porque ele abriu para nós portas que estavam fechadas desde o início da humanidade. Para mim, Freud é o profeta do nosso tempo – mesmo quando ele estava errado. À propósito, profetas, religiosos e movimentos foram muitas vezes equivocados, mas eles nos fizeram repensar e reavaliar nossas vidas. A abjeção que ele sentia pelas pessoas que chamamos de loucas (isso é visto em suas cartas), sua negativa diante do fato de podermos ser curados e sua ideia de que em todo psicótico há uma parte que está o tempo todo consciente da loucura são ao mesmo tempo tão contraditórias, tão tocantes, tão inspiradoras como toda a sua escrita.

A IRMÃ DE FREUD

Autor: Goce Smilevski

Tradução: Marcello Lino

Editora: Bertrand Brasil (336 págs., R$ 40; R$ 28 o e-book)

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