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Obra póstuma faz o 'maldito' Raymond Roussel ser entendido

Livro do escritor francês é relato autobiográfico modesto e insolente

Dirce Waltrick do Amarante - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

03 Outubro 2015 | 03h00

O francês Raymond Roussel (1877-1933) é um daqueles escritores malditos que, embora tenham influenciado importantes artistas e movimentos da vanguarda do século 20, ainda hoje são pouco lidos pelo público em geral. Às vezes, seu nome nem consta de estudos clássicos sobre o Modernismo, como: Modernismo, de Peter Gay, ou O Moderno e o Modernismo, de Frederick R. Karl. Em compensação, o filósofo francês Michel Foucault dedicou a ele um livro, Raymond Roussel, sem mencionar os estudos do também francês Michel Leiris, indispensáveis para quem pretende mergulhar na obra do escritor. 

Ler Roussel não é tarefa corriqueira, sua obra é cheia de jogos de linguagem. Para alguns, ela é um verdadeiro tabuleiro de xadrez. Vale a pena começar a leitura de sua obra pelo seu livro póstumo, Como Escrevi Alguns dos Meus Livros. Nele, Roussel explica alguns de seus métodos de escrita: “Escolhia duas palavras quase semelhantes (fazendo pensar nos metagramas). Por exemplo, bilhar e pilhador. Depois acrescentava algumas palavras equiparáveis, mas tomadas em dois sentidos diferentes, e obtinha assim duas frases quase idênticas”. Tratava-se de uma criação baseada “no acasalamento de duas palavras tomadas em dois sentidos diferentes”. Roussel gostava de dizer que seu método era “essencialmente poético”, um parente da rima, “nos dois casos há criação imprevista devida a combinações fônicas”. 

Como Escrevi Alguns de Meus Livros, na bem-sucedida tradução de Fabiano Barboza Viana, acaba de ser publicado pela editora Cultura e Barbárie, em novo selo, Armazém, sob o comando editorial refinadíssimo de Marina Moros. Armazém nos oferece uma edição bilíngue, o que me parece ser necessário, tendo em vista os jogos linguísticos do texto original. Excelente prefácio e posfácio, assinados respectivamente por Joca Reiners Terron e Claudio Willer, auxiliam a apresentação da obra e do autor.

Em 2013, a Cultura e Barbárie já havia publicado, na tradução de Fernando Scheibe, Locus Solus (1914), considerado o livro mais importante de Roussel, de modo que a editora tem resgatado e apresentado o escritor aos leitores brasileiros. Outro título de Roussel que acaba de ser lançado também por ela é Piparote.

Como Escrevi Alguns dos Meus Livros (1935) surgiu depois que seus livros estavam terminados. Mais do que uma explicação de estratégias de escrita, esse livro é, como definiu Foucault, um relato autobiográfico modesto e insolente e, acrescentaria, bastante humorado. Nele, Roussel conta não só uma crise de êxtase que teve ao escrever O Forro, quando, afirma, experimentou “uma sensação de glória universal de uma intensidade extraordinária”, como também suas desventuras ao tentar dar visibilidade à sua obra. 

Com o objetivo de se aproximar do público, Roussel resolveu escrever para o teatro, no entanto, ele nos conta, “os jornalistas entrevistaram meus atores para saber se eu escrevia minhas peças seriamente ou se minha meta era zombar do mundo”. E prossegue, “mais uma vez a crítica se desencadeou contra mim e, como sempre, falou-se de loucura ou de mistificação”. Não pense o leitor que encontrará nesses relatos de insucessos algum tipo de pathos por parte do escritor. Todas essas “desgraças” literárias são narradas da forma mais natural possível. 

O fato é que o método de escrita de Roussel, muitas vezes, parece ser completamente aleatório; portanto, diria, em vez de explicar, ele dá uma “bofetada”, para usar uma expressão cara aos vanguardistas, no leitor e seu raciocínio lógico: “Eu me servi até do nome e do endereço de meu sapateiro: ‘Hellstern, 5, place Vendôme’ do qual fiz ‘Hélice gira zinco plano vira (se torna) cúpula’. O número cinco foi pego ao acaso; não creio que fosse exato”. 

Raymond Roussel estava ciente de que sua obra não seria facilmente digerida, ele sabia que suas experiências maravilhosas, como Foucault se refere ao seu método, se chocariam “contra a incompreensão hostil quase geral”. Mas guardava a esperança de que postumamente viesse a ser reconhecido.

COMO ESCREVI ALGUNS DOS MEUS LIVROS

Autor: Raymond Roussel

Trad.: Fabiano Barboza Viana

Editora: Cultura e Barbárie (80 págs.; R$ 50)

DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É AUTORA DE, ENTRE OUTROS, CENAS DO TEATRO MODERNO E CONTEMPORÂNEO (ILUMINURAS)

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