Alfredo Rizutti/Estadão
Alfredo Rizutti/Estadão

Obra mostra Sócrates notável dentro e fora das quatro linhas

Escrito por Andrew Downie, jornalista escocês, livro chega ao País depois de lançado na França, Itália, Polônia e Turquia

Daniel Fernandes, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2021 | 05h00

Sócrates foi, nas palavras do jornalista Andrew Downie, um “fora de série dentro e fora do campo”. E ele está com toda a razão. Meio-campista de uma das melhores seleções do Brasil de todos os tempos, a que disputou o Mundial da Espanha em 1982, revelação do Botafogo de Ribeirão Preto campeão do primeiro turno do Paulista de 1977 – na época o Paulistão era mais importante do que o Brasileirão e a Libertadores juntos –, ícone do movimento conhecido como Democracia Corintiana, um dos símbolos da luta pela redemocratização do País na década de 1980.

É esse jogador, mas também o homem – gente como a gente, como descreve o irmão Raí no prefácio –, que o leitor vai encontrar em Doutor Sócrates – A Biografia, livro que a editora Grande Área acaba de lançar no País. Escrita por Downie primeiro em inglês e lançada em 2017, a obra ganhou traduções para o francês, italiano, polonês e turco antes de, enfim, ter uma versão em português. 

Andrew passou dois anos trabalhando no livro. Só para Ribeirão Preto, cidade no interior do Estado em que o jogador viveu e deu seus primeiros passos futebolísticos, o jornalista escocês foi dez vezes. Pegava a estrada na quinta à noite ou sexta pela manhã, fazia entrevistas na própria sexta e no sábado e deixava a cidade no domingo à tarde. Andrew foi a Santos e ao Rio de Janeiro, mas também a Firenze, para reconstituir os vacilantes passos do meio-campista quando defendeu a Fiorentina da Itália. 

Isso sem contar as horas e mais horas de pesquisas em hemerotecas instaladas em bibliotecas aqui em São Paulo e em Ribeirão Preto.

O resultado é um livro de 432 páginas em que o futebolista e o homem são expostos com verdade objetiva, mas com admiração também. “Nunca gostei de biografia chapa-branca. Nunca gostei porque ninguém é perfeito. Se não escrevesse toda a história (de Sócrates), para mim, seria traição ao leitor. Mas não dá para passar dois anos com essa pessoa (no sentido de pesquisar sobre a vida) sem gostar dela. Sócrates sabia onde errou. Mas a luta pela democracia foi mais importante que seus erros”, afirma Downie, em entrevista ao Estadão.

Nunca é demais lembrar. Na década de 1980 o movimento pelas Diretas-Já visava à aprovação de uma emenda constitucional no Congresso Nacional – emenda conhecida como Dante de Oliveira, nome do deputado federal que a propôs – que permitiria a votação direta para escolher o novo presidente da República, colocando fim ao golpe civil-militar de 1964 que suprimiu direitos individuais dos cidadãos, provocou perseguições e mortes de dissidentes políticos.

Participar desse momento, aliás, motivou o repórter a questionar o biógrafo: por que não há hoje jogadores como Sócrates? “Seria leviano dar os motivos”, afirma Downie. Mas o que vem a seguir, em sua resposta, funcionaria até como um pequeno manual para a atual geração de jogadores (ou melhor, de cidadãos brasileiros) de todas as idades. 

Segundo o biógrafo, Sócrates cresceu em uma família em que a educação era importante, ele também era curioso: ia ao cinema, teatro, lia livros. Os jogadores, hoje, talvez sejam apenas especialistas em jogar futebol. Durante o dia, nos campos, e à noite, no PlayStation, como lembra Downie como uma brincadeira. 

O meia era notável fora do campo por se posicionar politicamente e pensar os problemas do País, mas também por enfrentar severos danos à saúde causados pelo abuso do álcool, que levaram a sua prematura morte no dia 4 de dezembro de 2011, então com apenas 57 anos. Mas Sócrates foi mais do que notável, foi um extraclasse dentro das quatro linhas. Andrew não lembra a primeira vez que viu o meio-campista jogar, mas lembra de sua atuação na Copa de 1982, quando o Brasil, inclusive, derrotou a Escócia. 

Para o biógrafo, assim como para muitos, o aspecto mais característico do futebol praticado por Sócrates era o calcanhar. Mas não o calcanhar no sentido esnobe, o gesto para humilhar o adversário, não a jogada para menosprezar o oponente. “Sócrates era alto, muito magro e tinha o pé pequeno. Ele jogava contra caras fortes e ele dizia: ‘Se eu não me livrasse logo da bola, o adversário me pegaria, eu tinha de me livrar rápido da bola e o jeito mais fácil era usar o calcanhar’. O uso do calcanhar vinha disso”, relembra Andrew, ao que o autor do texto acrescenta: “Era inteligente”, mas o biógrafo define melhor: “Era pragmático”.

O livro que chega às lojas tem prefácio escrito por Raí. Também meio-campista, também da seleção brasileira, mas que defendeu o rival São Paulo – e jogava com a 10, não com a camisa 8. É do irmão a frase que dá o tom do que vem pela frente no livro de Andrew: “Um símbolo de resistência do que nunca mais queremos viver”. É esperar pra ver.

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