Victoria Will/Invision/AP
Victoria Will/Invision/AP

Obra literária de cunho feminista, só se for de autora midiática

Segundo escritora, editoras não apostam em autoras que não tenham retorno comercial garantido

Marilia Neustein, O Estado de S. Paulo

07 Março 2015 | 03h00

Da mesma maneira que Patrícia Arquette jogou luz sobre a discussão do reconhecimento das mulheres no cinema, o mesmo se repete na literatura. O número de livros publicados sobre o chamado “empoderamento feminino”, nos últimos anos, cresceu significativamente. Títulos que variam de ensaios feministas, como Meu Corpo Não É Seu, do coletivo Think Olga, aos best-sellers, como Por Que os Homens Amam as Mulheres Poderosas, de Sherry Argov, que, segundo a editora Sextante, bateu a marca de 1 milhão de exemplares vendidos no País. 

No entanto, para algumas ativistas da causa, o volume de títulos publicados ainda é incipiente. Martha Lopes, escritora e fundadora do #Kd Mulheres – selo de atividades que busca promover as mulheres dentro da literatura –, explica que o mercado editorial não tem interesse em apostar em escritoras que não tenham retorno comercial garantido. “Para ser publicado por uma grande editora, um livro de cunho feminista precisa ter sido escrito por alguém midiático, como Lena Dunham ou Chimamanda Ngozi Adiche”, afirma. 

A escritora nigeriana, lembrada por Martha, entrou de cabeça no tema em um TED talk que acabou transcrito, editado e publicado como Sejamos Todos Feministas, lançado em versão e-book e recentemente publicado em formato de bolso pela Companhia das Letras. Já o livro de Dunham – idealizadora e atriz do seriado americano Girls – é um best-seller mundial. No Brasil, Não Sou Uma Daquelas vendeu 17 mil exemplares. 

Apesar de o livro não ser sobre feminismo, mas, sim, um autorretrato de sua vida, Dunham está entre as celebridades internacionais que chamam atenção para o assunto na mídia – ao lado de Emma Watson, Beyoncé e Taylor Swift, entre outras – e, portanto, alcança esse público. No entanto, a grande discussão crítica de gênero, para Martha, ainda reside na internet e na academia. “O feminismo está muito apoiado. Vivemos um ‘boom’, mas ainda existem desafios”, pondera. 

Um deles, segundo a ativista, parte das próprias autoras no processo da escrita. “As mulheres não se veem representadas nas livrarias, nas premiações, nas mesas de debates. Por isso, também não se sentem encorajadoras a escrever”, explica, lembrando que, na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, do ano passado, em que participaram 38 escritores homens e nove mulheres.

Paulo Werneck, curador da Flip, afirma que o debate é válido, entretanto lembra que a festa sempre abre espaços para mulheres, algumas, inclusive, sem editora no Brasil: “Este ano, por exemplo, convidamos Mary Beard que justamente trata dessa questão do espaço da mulher nos debates públicos desde, a Roma Antiga, mas infelizmente, ela não pode vir”, explica. “Nossos critérios são excelência de literatura e disponibilidade do autor”, completa. 

No exterior. Nos EUA, a situação é diferente. O número de livros sobre feminismo é crescente e rentável. Na mesma linha de Dunham, a lista de atrizes que publicaram suas histórias fazendo alusão a questões feministas só engorda, com nomes como Tina Fey, Amy Poehler, Mindy Kaling, entre outras. 

Relatando situações como dificuldades no mercado de trabalho, paridade salarial, machismo e maternidade, só para citar alguns temas, essas atrizes, agora escritoras, criaram um nicho de interesse. “O mercado norte-americano está mais estruturado nesse sentido”, diz Martha.

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