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Obra inédita reúne palestras de Jorge Luis Borges

Livro conta as origens do tango argentino

Pilar Martín, EFE

06 de setembro de 2016 | 20h33

Para Jorge Luis Borges, estudar o tango era uma maneira de conhecer “as mudanças da alma”, reflexão que fez em uma das quatro conferências que deu sobre o gênero em Buenos Aires, em 1965. Palavras inéditas que vêm à luz pela primeira vez no livro El Tango. O tango – Quatro conferências

Foi um imigrante galego quem se encarregou de gravar essas conversas em fitas cassetes. Em 2002, elas chegaram às mãos do escritor Bernardo Atxaga – o qual, depois de comprovar sua autenticidade graças a Edwin Williamson, autor de Borges: Una Vida (2007), percebeu a importância do material.

Em 2013, a viúva de Borges, Maria Kodama, apresentou as transcrições em Madri para que, três anos depois, a editora Lumen as publicassem nesse livro transbordante de paixão.

Na primeira dessas conversas, Borges analisa as origens do tango, fazendo-o por meio da própria vivência, da mãe e de amigos para afirmar que o tango nasceu em Buenos Aires, em 1880: “Uma cidade de casas baixas, sem árvores, com pátios..., uma Buenos Aires em que todos se conheciam, todos eram parentes, ou parentes dos parentes”. Nesse cenário, o tango, segundo Borges, não podia nascer triste nem suburbano, mas, como vem da milonga, começou “valente” e “alegre”, para terminar sendo triste.

“Muitos dizem que o tango é suburbano, que nasceu na periferia. E o subúrbio, claro, ficava então muito perto do centro. Mas os diálogos que tive com gente da época me indicaram que a palavra suburbano ali não tinha um sentido topográfico”, acrescenta Borges.

Por isso, para o escritor, o gênero musical saiu das “casas de má fama” das Ruas Temple, Vimonte ou Paseo de Julio. Teoria que reforça lembrando seu amigo Evaristo Carriego, presente no livro e sobre quem Borges publicou um ensaio em 1930.

Correm as páginas e, como se fosse uma partitura de bandoneón, entre estrofes de Ascubi ou Estanislao del Campo e outras tiradas do livro Martín Fierro, de José Hernández, surge também, “como vocês esperavam ouvir”, o nome de Carlos Gardel. “Além de sua voz, além de seu ouvido, Gardel fez algo com o tango...” E o que fez, como assinala Borges na terceira conversa, foi transformá-lo, chegando quase “à perfeição”. “Essa transformação foi, segundo me disse Adolfo Bioy Casares, a razão pela qual seu pai, acostumado ao modo criollo de cantar, não aprovava Gardel.” A mudança foi tal que, para Borges, como contou a seu auditório, Gardel pegou a letra do tango e a converteu “numa breve cena dramática”.

O escritor termina seu ciclo de conferências falando de como o tango influenciou a literatura, desmistificando o “compadre”, a “mulher de má vida” e os “bem-nascidos”, personagens assíduos das letras de tango. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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