Eric Gaillard/Reuters
Eric Gaillard/Reuters

Obra de Houellebecq que fantasia uma França sob o domínio do Islã chega ao País

Lançamento coincidiu com o ataque ao 'Charlie Hebdo' e romance, já esperado, virou best-seller; leia trecho e veja outros títulos do autor

Andrei Netto, O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2015 | 03h00

PARIS - Um país pacífico, próspero e com pleno emprego. Uma capital em que as mulheres não trabalham e onde as jovens abandonam minissaias, adotando vestes “não desejáveis”, como véus islâmicos integrais. Uma Europa em que a poligamia é legalizada, minaretes são construídos e até universidades públicas como a Sorbonne, privatizadas, acabam nas mãos de investidores árabes. Depois de vencer em 2010 o Prêmio Goncourt, um dos mais prestigiosos do mundo, o escritor francês Michel Houellebecq retoma no polêmico Submissão a crítica às transformações individuais e sociais, desta vez imaginando uma França islamizada.

Submissão é uma farsa, um livro de ficção política que relata a história de François, um professor de literatura da Sorbonne reconhecido por uma tese de doutorado notável sobre J.K. Huysmans. Escritor e crítico de arte que viveu em Paris entre 1848 e 1907, Huysmans não foi escolhido por Houellebecq por acaso: o autor passou pelo naturalismo e pelo simbolismo e escreveu sobre tentações satânicas, mas seu maior ponto de virada talvez tenha sido converter-se - ou submeter-se - ao catolicismo, o que o levou a escrever En Route (1895), La Cathédrale (1898) e L’Oblat (1903) no final de sua vida.

Houellebecq parte dessa alusão de François a Huysmans para estruturar sua narrativa. A história se passa em um futuro próximo, 2022, às vésperas das eleições presidenciais da França. O país chega ao pleito aos destroços, após dez anos de governo socialista de François Hollande - atual presidente na vida real. Nas ruas de Paris, rajadas de metralhadoras ressoam próximas aos bairros mais centrais. Jovens de movimentos identitários, de extrema direita católica, e salafistas, ultraconservadores muçulmanos, lançam-se a um conflito que põe o país à beira da guerra civil, situação mascarada por uma imprensa manipuladora, que não veicula a gravidade real dos fatos. 

A disputa favorece os extremos e faz despontar uma terceira força política, liderada pelo fictício Mohammed Ben Abbes, candidato da Fraternidade Muçulmana - uma alusão ao grupo conservador Irmandade Muçulmana, que ascendeu ao poder em países como Tunísia e Egito durante a Primavera Árabe. Político jovem, habilidoso e com discurso republicano, Ben Abbes vai ao segundo turno das eleições com a candidata (real) de extrema direita Marine Le Pen, líder da Frente Nacional (FN), e acaba eleito graças à decisão do Partido Socialista (PS) de formar uma coalizão com os muçulmanos.

A eleição é sucedida de uma mudança brutal na sociedade, que Houellebecq, no entanto, descreve como lenta. Em três meses, o país é pacificado, a economia avança.

Então, as transformações tocam a vida de François - o nome próprio serve como um jogo de palavras com “francês”, ou o cidadão comum. Professor de literatura apático e alheio à busca pelo sucesso na carreira, o acadêmico vive entre as aulas que dá com indiferença, o deserto afetivo, a desagregação familiar absoluta, as estudantes com quem, às vezes, mantém relações, um envolvimento sem paixão com uma universitária judia que o troca por Israel e a vida sexual fracassada. 

No que diz respeito ao protagonista, ou seja, Submissão traz a típica existência individual e social, vazia ao extremo, do personagem “houellebecquiano”, que permeia toda a obra do autor: A Extensão do Domínio da Luta (1994), Partículas Elementares (1998), Plataforma (2001), A Possibilidade de Uma Ilha (2005) e O Mapa e o Território (2010). Foi o fato de captar com brilhantismo o imaginário e descrever de forma crua e sulfurosa esse perfil pós-moderno de homem europeu comum, sem rumos, sem fé, esmagado pelas implicações sociais do liberalismo político, econômico e sexual contemporâneo, que fez de Houellebecq um sucesso internacional de público e crítica desde os anos 1990. Não à toa o autor é descrito por muitos como um gênio à espera do Nobel de Literatura. 

Em Submissão, Houellebecq repete a narrativa do deprimido crônico, politicamente incorreto, misógino, fracassado na vida privada e em geral bem-sucedido na carreira, para a qual não dá a mínima. Mas, como em Plataforma, por exemplo, alia uma temática explosiva ao personagem controverso - a bem da verdade, cada vez menos surpreendente aos olhos dos círculos literários da França. Em lugar do turismo sexual, um dos temas de seu terceiro livro, o autor põe em destaque uma suposta transição política, social e religiosa da França. Daí resultam a repercussão internacional, as discussões acaloradas entre críticos e, claro, suas vendas astronômicas. 

Submissão tem os grandes méritos de Houellebecq, como a atualidade, a fluidez narrativa, a complexidade e o entrelaçamento de diferentes camadas temáticas e a precisão descritiva - o retrato do ambiente universitário decadente é magistral.

Mas, para detratores, o autor usou o recurso fácil da narrativa do medo que move a extrema direita na França. Submissão incorpora em sua história cenários da “grande substituição”, uma pseudoteoria descrita em 2010 pelo escritor extremista Renaud Camus baseada na ideia de que, pela imigração e pela fecundidade, “minorias visíveis” - árabes e negros - se tornarão maioria na França, substituindo a população francesa “de origem”, impondo costumes e religião e, em última análise, matando a herança greco-cristã que faz a essência da cultura europeia. 

Esse argumento, em geral defendido por minorias fascistas ou de direita católica integrista, mal esconde sua islamofobia e, de tão radical e complotista, foi rejeitado até por Marine Le Pen, líder da extrema direita. Fragmentos esparsos desse pensamento, porém, têm sido incorporados por intelectuais como o historiador e romancista Max Gallo e sobretudo o ensaísta Eric Zemmour, autor de Suicide Français (2014), um best-seller no qual desfila clichês sobre a suposta islamização da França.

Submissão não faz a apologia aberta da extrema direita. É sutil até mesmo quando coloca a Frente Nacional, da família Le Pen, como último refúgio dos princípios republicanos e do Estado laico, e os socialistas como colaboradores da nova França muçulmana. Também é ambíguo, e pode até dar a impressão de ser um livro “islamófilo”, favorável ao Islã, embora o autor tenha definido em 2001 a religião de Maomé como “a mais idiota” -, ele voltou atrás no que disse. 

Houellebecq faz ficção e, portanto, seus personagens são livres para expressar ideias e defender bandeiras, mesmo extremistas. Mas, diante de críticas duras a Submissão, o autor reiterou que não apoia nenhum partido ou nenhuma ideologia. “Eu não sou um intelectual. Eu não tomo partido, não defendo nenhum regime. Eu renego toda responsabilidade, e reivindico a irresponsabilidade”, ressaltou em uma entrevista ao jornalista Sylvain Bourmeau, publicada pela revista The Paris Review.

Independentemente de Houellebecq acreditar nos cenários que descreve ou não, o fato é que, antes mesmo de ser lançado, Submissão e sua fórmula de polêmica viva deu certo. Com a ofensiva de mídia de sua editora, Flammarion, o livro tomou as discussões literárias e políticas na França. 

Não bastasse, no dia exato de seu lançamento, 7 de janeiro, Paris viveu o trauma do atentado ao jornal satírico Charlie Hebdo, que resultou em 12 mortos por dois radicais islâmicos. Chocado pelo assassinato de um amigo e por motivos de segurança, Houllebecq suspendeu entrevistas e se retirou, enquanto seu livro seguia sua senda: 120 mil exemplares vendidos em cinco dias, 345 mil em um mês e topo das vendas na França, na Alemanha e na Itália. 

Na atmosfera de maniqueísmos do Brasil atual, não é difícil prever o futuro próximo.

Confira o trecho inicial de Submissão

"Durante todos os anos de minha triste juventude, Huysmans foi para mim um companheiro, um amigo fiel; nunca tive dúvida, nunca fui tentado a abandonar, nem a me orientar para outro tema; e então, numa tarde de junho de 2007, depois de longamente esperar, depois de tanto tergiversar até um pouco mais que o admissível, defendi perante a banca da universidade Paris IV-Sorbonne minha tese de doutorado: Joris-Karl Huysmans, ou a saída do túnel. Já na manhã seguinte (ou talvez já na própria noite, não posso garantir, pois a noite de minha defesa foi solitária e muito alcoolizada), entendi que uma parte de minha vida acabava de terminar, e era provavelmente a melhor.

Este é o caso, em nossas sociedades ainda ocidentais e social-democratas, de todos os que concluem seus estudos, mas que em sua maioria não tomam, ou não imediatamente, consciência disso, hipnotizados que estão pela ânsia do dinheiro, ou talvez do consumo, entre os mais primitivos, aqueles que desenvolveram o vício mais violento a certos produtos (são minoria, pois a maioria, mais sensata e ajuizada, desenvolve um fascínio simples pelo dinheiro, esse “Proteu incansável”), hipnotizados ainda mais pelo desejo de passar pelas provações, de consolidar um lugar social invejável num mundo que imaginam e esperam ser competitivo, galvanizados que estão pela adoração a ícones mutáveis: atletas, criadores de moda ou de portais da internet, atores e modelos

Por diferentes razões psicológicas que não tenho competência nem vontade de analisar, me afastei sensivelmente desse esquema. No dia 1º de abril de 1866, então com dezoito anos, Joris-Karl Huysmans iniciou sua carreira de funcionário de sexta classe, no Ministério do Interior e dos Cultos. Em 1874, publicou por conta própria uma primeira coletânea de poemas em prosa, Le drageoir à épices, que foi objeto de poucas resenhas, fora um artigo extremamente fraterno de Théodore de Banville. Seus inícios na existência, como se vê, nada tiveram de estrondosos."

Os outros livros de Houellebecq disponíveis no Brasil

A Extensão do Domínio da Luta (1994)

Este é o livro mais original e marginal de Michel Houellebecq. A obra narra a história de um analista de sistemas e programador de status médio, com salário relativamente elevado para os padrões franceses. Primeiro personagem ‘houllebecquiano’, ninguém conhece seu nome, é feio, sem charme, não faz sucesso com as mulheres, não tem amigos, vem de família caótica, não acredita em nada e vive deprimido. Narrativa apresenta o humor mordaz e incorreto, a misoginia e os preconceitos de seus anti-heróis. Faz a arrebatadora constatação sobre o impacto do liberalismo na relação - sexual, sobretudo - entre o homem e a mulher contemporâneos.

Partículas Elementares (1998)

Foi o livro que consagrou o autor francês na cena internacional. A narrativa começa no presente e projeta-se no futuro próximo, até 2029, contando a história de dois meio irmãos, Michel e Bruno, que foram abandonados pela mãe. Criado pela avó, depois morta, Michel é cientista brilhante especializado em clonagem. Incapaz de expressar sentimentos e inapto para o sexo, tem no meio-irmão a antítese, um homem obcecado pelo sexo, depois de ser vítima de violência sexual. Partículas fala do efeito devastador do liberalismo da geração de maio de 1968 e da relação entre amor e sexo, reprodução e prazer, homem e animal e da necessária extinção da raça humana.

Plataforma (2001)

Neste livro badalado, ele coloca no centro de sua narrativa mais uma vez o personagem houellebecquiano típico, Michel, simples mortal infeliz em busca de sexo em um mundo que faz pouco sentido. Sem fé, sem religião, sem ideologias, encontra no turismo sexual na Tailândia e na figura de Valérie instantes de felicidade. Comparado aos anteriores, perde em complexidade e na profundidade de reflexão sobre a existência individual.

A Possibilidade de uma Ilha (2005)

Houellebecq volta ao tema da clonagem e do futuro próximo contando a vida de Daniel, comediante entrando na terceira idade que se apaixona por uma jovem espanhola incapaz de se apegar a seu amante. O autor volta a temas duros, como a pedofilia e o incesto, demonstrando o cinismo habitual. Volta ao tema de Partículas e projeta um mundo em que a humanidade está próxima da extinção.

O Mapa e o Território (2010)

Romance vencedor do prestigioso Goncourt narra a história de Jed Martin, fotógrafo e pintor que encontra o sucesso profissional absoluto - ao qual é indiferente -, mas não o sucesso afetivo. Descreve e ironiza com maestria os meandros do mundo das artes, a formação de celebridades e heróis vazios contemporâneos. Tem como atrativo o encontro entre o protagonista e um certo escritor Michel Houellebecq, descrito implacavelmente por ele próprio na ficção.

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