Editora Peirópolis
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Obra de Henriqueta Lisboa é republicada às vésperas dos 120 anos de seu nascimento

Poeta oferece equilíbrio em meio ao caos e e convida o leitor a acompanhar sua trajetória

Mariana Ianelli*, Especial para o Estadão

26 de dezembro de 2020 | 05h00

Há poetas que ressurgem de zonas menos frequentadas da História, após breve período de limbo, pelo catalisador de circunstâncias favoráveis. Há outros que atravessam um longo período de obscuridade, mas que, inevitavelmente, são redescobertos um dia por força da própria obra, sejam quais forem as circunstâncias. Esse último é sem dúvida o caso de Henriqueta Lisboa, resgatada para a cena da literatura e da crítica literária depois de Gilka Machado, e mesmo Hilda Hilst, que tiveram suas poesias completas lançadas em 2017.

Henriqueta Lisboa reaparece às vésperas da celebração de seu 120º aniversário, que coincide com os 120 anos de Cecília Meireles agora em 2021. Um acontecimento de importante revisão literária que se enseja para a crítica e os leitores de um modo geral: a obra completa da “teimosa do impossível”, em três grandes volumes (poesia, prosa crítica e tradução), sob organização de Reinaldo Marques e Wander Melo Miranda, contemplando pouco mais de cinquenta anos de atividade literária. 

Um mergulho nessa trajetória de tripla atuação revela uma autora que, na complexidade de princípios e influências que a atravessam, dentro do contexto da primeira metade do século passado, é dona de uma personalidade própria. Ao menos nesse aspecto, da autonomia, os críticos são unânimes. Se Henriqueta não se encaixa nas tendências principais da época, por outro lado, o que ela toma para si, do movimento modernista, é justamente “seu espírito de abertura”. 

Primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Mineira de Letras, dividindo com poucas colegas de ofício, como Gilka Machado, a cena poética dominada por homens, Henriqueta se inscreve – como lembram os organizadores – na tradição latino-americana das “mestras escritoras”, ao lado de Cecília Meireles e da chilena Gabriela Mistral, ligadas ao magistério e à criação tanto quanto ao estudo da literatura.

Tudo aí se soma, num processo de aprimoramento da linguagem: as considerações teóricas e a pesquisa estética acompanhando o processo de criação, a tradução como um exercício não apenas da técnica senão da sensibilidade, de compreensão da “arte alheia”, a interlocução com outros poetas, especialmente Mário de Andrade, a quem Henriqueta sabe ouvir – e também responder com firmeza, incorporando o melhor desse diálogo na depuração do seu trabalho com a palavra.

Na prosa, de 1945 a 1979, estão Convívio Poético, Vigília Poética e Vivência Poética, que reúnem reflexões sobre poética e exegese, a conferência sobre Alphonsus de Guimaraens, além de discursos, textos sobre literatura e infância, entrevistas, fortuna crítica e comentários. Carlos Drummond de Andrade, Darcy Damasceno e Sérgio Buarque de Holanda são alguns dos que se debruçaram sobre a obra de Henriqueta. 

A leitura de toda a fortuna crítica acusa uma ânsia geral em definir uma filiação para essa poesia desencaixada da moda. As ressalvas de Mário à “catolicidade” e ao “universalismo” da amiga parecem reverberar na reincidência quase automática das relações estabelecidas pela crítica entre a poesia de Henriqueta e o simbolismo. Nesse meio, um texto de 2001, de Lívia Paulini, tradutora da poesia de Henriqueta para o húngaro, nos permite acessar outras interessantes perspectivas, graças a repertório cultural diferente do nosso.

Na poesia, de 1929 a 1980, estão dezesseis livros, de Enternecimento a Pousada do ser, com base na última coletânea organizada pela autora. Nas três coletâneas que organizou em vida, Henriqueta excluiu seu livro de estreia Fogo-fátuo (1925), o que foi respeitado nessa edição. De 1940 aos anos de 1970, aparecem os livros que a poeta definiu como “tríptico da sua mineiridade”: Madrinha Lua, Montanha Viva – Caraça e Belo Horizonte Bem Querer

O leitor poderá percorrer ele mesmo o caminho evolutivo referido pela crítica, que Henriqueta teria seguido até a depuração, numa síntese de contrastes, com A Face Lívida, livro escrito em plena Segunda Guerra. Para quem se preocupa com circunstâncias históricas, essa não deve ser ignorada: que a poeta busque harmonia e justa medida num contexto de destruição em larga escala. Dizendo-se a “teimosa do impossível”, em meio a forças contrárias, Henriqueta concentra-se no equilíbrio desejado.

Novos paralelos instigantes poderão começar a ser traçados, não apenas entre as afinidades com a poesia de Cecília Meireles, que a própria Henriqueta já reconhecia, mas, além, com a contenção de fina ourivesaria, entre o oculto e o revelado, de Orides Fontela, ou com Hilda Hilst, que, tal como Henriqueta com Flor da Morte (1949), tem um livro inteiro sobre e para a morte (Da Morte. Odes Mínimas, 1980).

Na tradução, aparecem alguns dos poetas eleitos por Henriqueta para seus ensaios, como Gabriela Mistral e Jorge Guillén. O volume traz o material já publicado em Antologia poética para a infância e juventude, de 1961, acrescido de algumas traduções inéditas de Dante Alighieri, Giuseppe Ungaretti, Cesare Pavese, entre outros. Desses dois últimos, vale lembrar, o Estadão publicou traduções de Henriqueta, em 1969 e 1970, respectivamente. Os cantos do Purgatório de Dante, dos quais quatro são inéditos, vêm precedidos por uma introdução de 1969. Nesse texto, o leitor encontrará a magnífica síntese da poética da autora, que via no Purgatório, esse reino intermédio do “fazer” – “não mais o do agir, nem ainda o do contemplar” –, a casa do poeta.

*É POETA E CRÍTICA LITERÁRIA

TRECHOS DA OBRA DE HENRIQUETA LISBOA

“Na morte, não. Na vida.

Está na vida o mistério.

Em cada afirmação ou

abstinência. 

Na malícia

das plausíveis revelações,

no suborno 

das silenciosas palavras.

(...)” 

 

O Mistério, Flor da Morte, 1945-1949 

Confronto 

 

Em relâmpago os bárbaros

no espaço.

Passo a passo os tímidos

no tempo. 

Sob os pés dos vândalos

as pedras arrasam-se.

Do chão limpo os pacíficos

erguem torres bíblicas.

(...)” 

 

Miradouro, 1968-1974

*

Ó peregrinos cuja fronte encerra

lembrança de algo que ficou distante,

vindes assim de tão longínqua terra

sem o mostrardes ao primeiro instante

que não chorais quando passais 

sequer

em meio à triste dor desta cidade

como alguém que resiste e que não quer

enternecer sua gravidade?

Se prestardes ouvido de bom grado

- assim me diz o coração magoado –

quedareis entre lágrimas, no entanto.

Ela perdeu a sua beatitude,

e o que dela se diz tem a virtude

de às outras gentes inspirar o pranto. 

 

Soneto de Vita Nuova, de Dante Aliguieri. Tradução Henriqueta Lisboa

*

“A mineiridade é um fato, ninguém o desconhece. O difícil seria focalizá-la com determinadas cores e enquadrá-la em moldura, pois a mineiridade, como a própria vida, é muitas vezes contraditória, quando não desconexa, o que revela, sem dúvida, sua rica substância anímica.”  

Entre Mineiros, 1968 

 

*

“Não ouso definir especificamente a poesia, embora tenha aventado que ela seria a coação do eterno dentro do efêmero. (...) Considero-a, desta forma, elemento fundamental e substancial da existência humana. Quanto ao poema, acredito que estabeleça um vínculo entre o númeno e fenômeno, entre o não ser, anterior ao verbo – sonho, emoção, abstração – e o ser (...).”

Poesia: Minha Profissão De Fé, 1979

OBRA COMPLETA: POESIA, POESIA TRADUZIDA E PROSA

  • Autora: Henriqueta Lisboa
  • Editora: Peirópolis (2.000 págs., R$ 350; e-books vendidos separadamente)

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