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Obra de ficção sobre Salinger deixa certo mistério

Romance 'Sergeant Salinger', de Jerome Charyn, é sobre as aventuras do autor durante a Segunda Guerra Mundial

Mark Athitakis, Washington Post

05 de janeiro de 2021 | 11h00

Em um universo-alternativo de 2020 - e quem não gostaria de uma destas? -  falamos muito a respeito de J. D. Salinger. No final do ano, deveriam ter saído novos livros sobre Holden Caulfield, o clã Glass e mais ainda, segundo uma história oral de 2013 sobre o autor que se isolou do mundo. Mas nenhum livro novo se materializou. Talvez devêssemos ter prestado mais atenção no que disse o filho de Salinger, Matthew, que em 2019 explicou que poderia levar pelo menos uma década para publicar o que seu pai deixou após a morte, em 2010. Então, acho que teremos de esperar até 2029, senão mais, para ouvirmos falar novamente de um dos autores mais amados - ou dos mais ensinados na escola - dos Estados Unidos.



Teremos de nos contentar com Sergeant Salinger, o romance de Jerome Charyn sobre as aventuras do autor durante a Segunda Guerra Mundial, a título de prêmio de consolação.

Charyn, que aos 83 teve uma carreira consideravelmente prolífica, tem uma afinidade peculiar com as esfinges literárias. Seu romance de 2010, The Secret Life of Emily Dickinson, imagina a poetisa como uma mulher furtiva e de um incontrolável desejo sexual. Em Jerzy, de 2017, ele analisa o comportamento excêntrico do romancista Jerzy Kosinski e o inexplicável suicídio. Aqui, Charyn não tenta explicar a decisão de Salinger de se esconder depois do sucesso meteórico de The Catcher in the Rye (O apanhador no campo de centeio). A questão premente é, em primeiro lugar, o que terá despertado a sua carreira literária.

Resposta concisa: A falsidade. Inspirado nas experiências reais de Salinger no amor e na guerra, o romance abre em 1942, quando Salinger acaba de lançar a sua carreira. Ele tem uma namorada - a filha de Eugene O’Neill, Oona - mas ela é uma debutante famosa que se esquiva dele. (Mais tarde, casaria com Charlie Chaplin.) Ele é o herdeiro de uma abastada família de Manhattan, mas cansado de suas restrições. No Stork Club (a boate frequentada pela elite), o colunista Walter Winchell fica impressionado com o jovem a ponto de lhe oferecer um trabalho de freelance. Mas Salinger quer distância da sua fanfarronice ou de suas zombarias sobre seu ídolo Ernest Hemingway, que está sentado bem ao lado dele.

Quando Salinger, ou Sonny, é convocado para o Exército, todas essas aspirações mesquinhas da dita ‘sociedade’ vão ser postas de lado. Salinger serviu na contra-inteligência e viu alguns dos mais ferozes combates do teatro europeu na Normandia e na Batalha das Ardenas. Charyn, inabalável, relata a parada de cenas grotescas da guerra: as bombas alemãs que caem na praia desencadeiam “um pequeno furacão, recrutas voam pelos ares como bonecas de pano, todo tipo de parafernália acaba boiando na água - capacetes, barras de chocolate Hershey e membros humanos”.

Mas apesar da carnificina física que Sonny testemunha, Charyn sugere que o autor também é abalado pela duplicidade e falsidade dos que estão ao seu redor. Encarregado de interrogar prisioneiros de guerra, acostuma-se cada vez mais com a inverdade. A falsidade se estende por toda a cadeia de comando, os retardatários de Vichy, na França e - o pior de tudo - do seu herói literário. Em Paris, ele é encarregado de ficar cara a cara com Hemingway, que reuniu um bando de combatentes da resistência, mas em geral parece uma auto-paródia do Falstaff, representando glórias passadas.

Em uma sentença, Charyn passa a tocha literária: “A guerra se tornara uma espécie de romance para Papa (Hemingway), uma busca quixotesca, com fábulas inventadas, bandeiras, enquanto para Sonny tudo não passava de mera pilhagem, a paisagem conspurcada, todo aquele horror nada heroico e silêncios estáticos sobre os quais o próprio Hem escreveu certa vez.”



A decepção de Salinger chega ao ápice em 1945, quando ajuda a libertar um dos campos de Dachau em um trecho magistral de virar o estômago. Ele se interna em uma unidade de tratamento, onde conhece Sylvia, que se tornará a sua primeira esposa, e se prepara para um período de caos e injustiça, a começar pela desnazificação: “Um professor local foi colocado em uma gaiola, enquanto os cientistas criadores do foguete e os engenheiros aeronáuticos foram tratados como pequenos reis e levados para os EUA a bordo de pesados bombardeiros convertidos em aviões de transporte.

Em suma, Sergeant Salinger é fiel à história. Mas também se esforça para conectar o autor com suas criações literárias. Charyn leva Sonny a tornar-se um eco dos homens em duas histórias clássicas de Salinger sobre soldados, For Esme With Love and Squalor e A Perfect Day for Bananafish. (A irmã de Salinger acha que “a volta para casa de Sonny... foi uma forma sutil de suicídio”, ecoando a morte no final desta última história.) Em um ensaio sobre Salinger, publicado em 2019 pela Forward, Charyn descreve Salinger como “o autor em uma adolescência congelada, mais um garoto perdido no bar mitzvah em busca de uma masculinidade que nunca chegará”. No romance, Charyn deixa do mesmo modo o seu melancólico Salinger inacabado. No final do romance, Sonny amadurece com a guerra, mas continua despreparado para escrever a ficção que faria a sua carreira: “Sonny queria escrever frases que queimassem a alma do leitor como lascas de gelo. Mas era impotente, até em seu Eisenhower”.

Não está claro como ele superará esta impotência, por outro lado, o vazio raspa um pouco - acaso a ficção histórica não deveria fornecer um retrato mais completo de um indivíduo, que o registro histórico não pode fazer? O Salinger de Charyn é um navio vazio, que coleciona enfado e experiências, desesperado por conseguir esclarecer tudo isto com a ficção. E conseguirá, de certo modo. Mas neste romance, como em grande parte da vida de Salinger, teremos de aceitar certo mistério.


TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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