REUTERS/MHM/Georgiy Samsonov/Handout via Reuters
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Obra de biógrafo de Hitler mostra por que o ditador e a Alemanha lutaram até o fim

Para Ian Kershaw, sem o ex-líder, a Alemanha não teria lutado até o fim, e o país não teria assistido ao Götterdämmerung que consumiu o reino nazista

Entrevista com

Ian Kershaw

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2015 | 03h00

Uma pergunta fez Ian Kershaw, historiador e biógrafo de Hitler, escrever seu relato sobre os dias finais da Alemanha Nazista. Em O Fim do Terceiro Reich, o britânico dá sua resposta à questão: o que fez a nação combater até a destruição completa, sem buscar a paz negociada, ao perceber que não mais venceria a 2.ª Guerra Mundial? 

Um século antes, o teórico da guerra Carl von Clausewitz pensara que o conflito moderno inclinava-se para o “absoluto”, pois, ao mobilizar a nação por inteiro, deixava de lado qualquer comiseração pelo inimigo, fazendo o ideal militar da neutralização do adversário se aproximar do extermínio. A política, no entanto, à qual se subordinava a guerra, impediria o extremo. Essa moderação era o que Hitler não tinha. Para Kershaw, sem ele, a Alemanha não teria lutado até o fim, e o país não teria assistido ao Götterdämmerung que consumiu o reino nazista. Eis sua entrevista.

Por que indagar as razões de a Alemanha ter lutado até o fim é uma questão tão perturbadora?

É extremamente raro um país lutar até o ponto da autodestruição como nação, até que esteja em ruínas e debaixo de ocupação inimiga sem buscar a saída por meio da paz negociada. Para a Alemanha lutar, impô-se morte e sofrimento aos seus cidadãos, ultrapassando tudo que acontecera nos anos precedentes da guerra.

Como a liderança carismática de Hitler permitiu ao regime sobreviver até maio de 1945?

Líderes nazistas dos mais variados níveis de autoridade viam a própria sobrevivência vinculada a de Hitler e a do regime. No mais alto escalão, poderes largamente acrescidos estavam nas mãos de subordinados de confiança – Martin Bormann (controle do partido), Heinrich Himmler (aparato de segurança), Joseph Goebbels (propaganda e mobilização da mão de obra) e Albert Speer (produção de armamentos). O poder de cada um dependia de Hitler. E os chefes das Forças Armadas eram também fiéis, prontos a obedecer as ordens ainda que discordassem delas.

É correto dizer que sem Hitler não haveria o Götterdämmerung, a destruição final do país?

Sim. Mas isso não era apenas um problema de sua personalidade ou de recusa de buscar uma saída. Era antes uma questão, primariamente, de estruturas do poder. Enquanto Hitler viveu, essas estruturas continuaram a existir. Logo após seu suicídio, elas se dissolveram rapidamente, e a insistência em continuar a luta se tornou, sob o seu sucessor, o almirante Dönitz, uma tentativa fútil de negociar uma série de rendições parciais com os aliados ocidentais, enquanto se continuava a lutar contra a União Soviética

Neutralidade ou indiferença é sempre uma forma de estar ao lado do mais forte. Quando a maioria dos alemães escolheu a neutralidade em relação aos nazistas, essa não foi uma forma de apoiar o regime?

É, sem dúvida, correto dizer que a passividade ou uma relutante concordância nos messes finais equivaleram a um apoio indireto ao regime. Contudo, em meio à crescente repressão draconiana em casa, ao aumento de controles sobre a população, à intensificação da mobilização e da militarização e aos enormes deslocamentos de civis, as possibilidades de uma oposição organizada se tornaram quase inexistentes e traziam enormes riscos pessoais. Muitos, compreensivelmente, quaisquer que fossem seus mais íntimos sentimentos, conformaram-se com as demandas do regime e esperavam sobreviver a ele, cujo fim sabiam estar próximo.

A violência pública é desagradável. Albert Camus dizia sobre a pena de morte que, quando a Justiça faz vomitar uma pessoa honesta, ela não é mais Justiça. Os nazistas precisavam do segredo para não despertar oposição. Como o atentado de Stauffenberg (coronel que pôs uma bomba no bunker de Hitler, para tentar matá-lo em 1944) quebrou essa necessidade?

A violência pública é, sem dúvida, desagradável. Mas era uma forma efetiva de desencorajar a organização da oposição ao regime nos últimos meses. Publicidade – e não o segredo – era o principal. As execuções brutais, muitas na sequência de julgamentos encenados dos que se envolveram na conspiração de Stauffenberg, receberam o máximo de publicidade, advertindo para o enorme risco pessoal, assim como para a futilidade da oposição. Isso funcionou. A possibilidade de outra conspiração contra Hitler nas Forças Armadas, únicas a poder desempenhar esse papel, foi eliminado com a impiedosa repressão aos conspiradores de Stauffenberg.

Por que o terror contra os alemães no fim da guerra não causou levantes populares?

Houve, de fato, algumas tentativas menores e locais de levantes, mas foram esmagadas com o máximo de brutalidade. Muitas pessoas concluíram que não havia razão para arriscar tudo para desafiar o regime naqueles que eram seus dias de agonia, com as forças aliadas próximas por toda a parte. Sobreviver – e não resistir – era a preocupação principal.

Alguns historiadores apontam a culpa das elites alemãs, que ajudaram os nazistas a estruturar e a manter o poder.

Como elas poderiam no fim da guerra deixar de apoiar o regime?

Como você disse, a cumplicidade com o domínio nazista constitui uma grande parte da resposta. Entretanto, os líderes da indústria trabalharam com sucesso, em conjunto com Albert Speer, para prevenir a destruição de suas fábricas e instalações, como Hitler havia ordenado. E alguns diplomatas e outras figuras importantes na burocracia estatal envolveram-se no complô de resistência ao regime de Stauffenberg. Mesmo assim, decisivamente, a maioria dos líderes das Forças Armadas permaneceu fiel ao regime.

Como os generais trabalharam para Hitler?

O relacionamento de Hitler e de seus líderes militares nunca foi tão simples. Quando as derrotas cresceram, e a fortuna da Alemanha na guerra se deteriorou, havia uma boa quantidade de críticas a respeito da estratégia e das táticas de Hitler. Esse foi o pano de fundo para a conspiração para matá-lo em 1944. Uma vez que o atentado falhou, e oficiais ultra leais ocuparam as posições-chave da liderança militar, os generais enxergaram como sua tarefa fazer tudo o que podiam para apoiar Hitler na defesa do 3º Reich contra os inimigos poderosos que ameaçavam trazer a destruição aos alemães.

Como Hitler, um ditador preguiçoso, criou milhares de pequenos ditadores na Alemanha?

A criação de “pequenos Hitlers” era o corolário natural do estilo nazista de governar e da organização do partido e de suas organizações. O sistema funcionou na base do poder fluindo para baixo e a responsabilidade, para cima. Os que mantinham posições de poder eram selecionados com base em sua personalidade e “liderança” características, não pela expertise ou pela habilidade administrativa. Seu exercício de poder era fundado na lealdade e na obediência aos líderes, acima de tudo a Hitler, enquanto fornecia uma liberdade imensa para ações arbitrárias àqueles abaixo deles.

O FIM DO TERCEIRO REICH

Autor: Ian Kershaw

Tradução: Jairo Arco e Flexa

Editora: Companhia das Letras (616 págs., R$ 69,90 impresso, R$ 39,90 e-book)

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