Sara K. Schwittek/Reuters
Sara K. Schwittek/Reuters

'O Único Avião no Céu': Livro reconstitui o dramático 11 de setembro

'O 11 de Setembro foi a primeira catástrofe global, pois a assistimos pela TV, ao vivo', conta autor Garret M. Graff em entrevista ao 'Estadão'

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 05h00

O astronauta americano Frank Culbertson estava no espaço, na Estação Espacial Internacional, quando, ao olhar para seu país a cerca de 640 quilômetros de distância, notou uma cena rara: não havia nenhum rastro de aviões que normalmente riscam o céu. Naquela manhã de 11 de setembro de 2001, todas as aeronaves estavam pousadas e ninguém voava no espaço aéreo dos Estados Unidos, à exceção de um único aparelho que cruzava o centro do país rumo a Washington. Era o Air Force One levando o então presidente George W. Bush de volta à capital.

Aquela manhã de terça-feira foi marcada pelo maior ataque terrorista da história mundial, quando dois aviões comerciais foram sequestrados até se chocarem contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, enquanto outra aeronave atingiu o Pentágono e uma quarta não chegou ao seu alvo graças à ação corajosa de passageiros e tripulantes, que provocaram sua queda antecipada. 

“Quase qualquer pessoa acima de certa idade se lembra exatamente onde estava naquele dia”, comentou ao Estadão o jornalista americano Garrett M. Graff. “Eu, por exemplo, estava no refeitório da minha faculdade quando recebi a notícia.” Ao todo, foram 2.977 mortos, entre pessoas em terra e nos aviões, além de outras 6 mil feridas, resultado de uma série de ataques suicidas coordenados pela organização fundamentalista islâmica Al-Qaeda. “O 11 de Setembro foi a primeira catástrofe global, pois a assistimos pela TV, ao vivo”, diz Graff.

Durante três anos, ele coletou histórias daqueles que viveram e sobreviveram ao 11 de Setembro e, de posse de mais de 500 relatos orais recolhidos por ele e dezenas de historiadores e jornalistas, ele escreveu o livro O Único Avião no Céu, lançado agora pela Todavia. Na verdade, trata-se de uma cuidadosa organização das falas das pessoas em ordem cronológica, o que permite um inédito detalhamento do terror vivido naquele dia. “Juntas, estas histórias ajudam a entender um dia que nós, americanos, como povo e como país, ainda estamos tentando digerir.”

Para Graff, os Estados Unidos (e, de resto, o mundo) perderam uma certa ingenuidade a partir daqueles atentados. “A inocência da América acabou às 9h03, quando o segundo avião se chocou contra a Torre Sul do WTC, deixando claro que se tratava de um ataque coordenado”, observa. “Aquilo modificou nossas vidas diárias. Hoje, não nos lembramos mais que, antes do 11 de Setembro, não era comum ver homens portando armas de grande porte na rua. Esquecemos como a segurança dos aeroportos era frouxa. E como muitos de nossos edifícios públicos eram, até então, realmente abertos e acolhedores.” 

Muitos dos relatos conseguidos por Graff exibem hoje uma consistência que, à época dos acidentes, seria impossível. “Ao longo desses 20 anos, enquanto se unia na solidariedade após os ataques, a nação também caía em duas guerras que continuam até hoje e que remodelaram diversas partes do mundo.”

Graff conta que fazer a reconstituição dos fatos daquele dia foi profundamente doloroso. “Nunca trabalhei em um projeto tão emocional como esse e, mesmo sabendo como foi traumático o 11 de Setembro, eu não estava preparado para o quão emotivo foi escrever. Chorei na maioria das semanas enquanto compilava o primeiro rascunho do livro, organizando as histórias orais e as palavras daqueles que viveram aquela terça-feira.”

De fato, a leitura do conjunto de vozes provoca, muitas vezes, verdadeiros arrepios tamanha a precisão cirúrgica com que são relatados os trágicos acontecimentos. “Foi um barulho aterrorizante. Ainda me lembro dele perfeitamente – o som das turbinas avançando com força total em direção ao World Trade Center”, conta o consultor Bruno Dellinger, que estava no 47º andar da Torre Norte, a primeira a ser atingida, pelo avião da American Airlines, exatamente às 8h46.

“Eu estava olhando pela janela, na direção do Empire State, quando vi o avião batendo no prédio. O impacto causou uma mudança dramática na pressão atmosférica. O edifício oscilou com o impacto, quase caí da cadeira. Nosso teto implodiu, e algumas paredes começaram a implodir”, relembra o executivo Robert Leder, que também estava na Torre Norte. “Fui atirada da minha cadeira – atirada. A explosão foi horrível e muito barulhenta, o prédio começou a balançar para a frente e para trás, e a fumaça imediatamente se espalhou pelo ar”, completou Jean Potter, do Bank of America, localizado no 81º andar.

A aeronave, que deveria voar de Boston a Los Angeles, zuniu sobre os céus de Manhattan, atravessando a ilha longitudinalmente e surpreendendo os cidadãos antes de se chocar com a Torre Norte, conhecida como World Trade Center Um, a cerca de 748 quilômetros por hora. As primeiras notícias divulgadas diziam se tratar de um avião de pequeno porte, o que não despertou tanta atenção. 

“Os americanos olharam para aquele primeiro acidente – e encolheram os ombros”, afirma Graff. “Como disse Brian Gunderson, chefe de gabinete do líder da maioria da Câmara Richard Armey: ‘Quando entramos em nossa reunião matinal de equipe, pude ver na tela da TV que um avião havia atingido uma das torres do World Trade Center. Presumimos que fosse um avião pequeno. Achei que seria o tipo de evento que domina as notícias nacionais, mas não muda realmente o que o Congresso faria naquele dia’.”

Na verdade, era apenas o início do horror. “De repente, o combustível do avião começou a jorrar dos elevadores principais e a se espalhar por todos os lados. A menos de vinte metros de mim, as pessoas eram alçadas por essa bola de fogo, lançadas pelas janelas e incineradas”, recorda-se o corretor de valores David Kravette, que estava no saguão da Torre Norte. No mesmo lugar, encontrava-se Anthony R. Whitaker, comandante do WTC, com uma lembrança também arrepiante: “Vi duas pessoas pelo canto do meu olho esquerdo. Estavam em chamas. Correram em minha direção e seguiram em frente. Não emitiram um único som. Suas roupas estavam queimadas e elas fumegavam.”

O fatos se sucediam com velocidade e, pelo seu ineditismo, impediam uma fácil compreensão. “Na realidade, não sabíamos quando os ataques começaram nem quando terminaram, não sabíamos nem mesmo quantos ataques houve. E, o pior de tudo, não sabíamos o que viria em seguida”, relembra Graff.

O prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, tomava café com sua equipe quando foi informado de que um avião bimotor teria atingido a Torre Norte do WTC. “Fui ao banheiro, porque imaginei que ficaria muito tempo no local do acidente”, recorda-se ele. 

A tragédia que apenas se iniciava mudou radicalmente a rotina de Nova York – e, principalmente quando todos os voos foram cancelados, também a do país que, como o resto do mundo, acompanhava tudo pela televisão, que passou a transmitir ao vivo. O então presidente George W. Bush começou sua manhã em Sarasota, na Flórida, onde faria uma leitura para alunos de uma escola fundamental. Informado do primeiro acidente, ainda não tinha ainda detalhes de sua magnitude.

A situação mudou quando se aproximou o chefe de gabinete Andy Card. “Sussurrei perto do ouvido dele: ‘Um segundo avião atingiu a segunda torre. Os Estados Unidos estão sendo atacados’. E dei alguns passos para trás para que ele não pudesse fazer nenhuma pergunta”. “Nunca vou esquecer a expressão no rosto dele. Ele estava lívido. Devia estar sabendo que sua administração acabara de mudar para sempre – que, a partir daquele momento, ele seria avaliado por tudo que dissesse, pela forma como o diria e por sua capacidade de tranquilizar a nação”, observa David Sanger, que era correspondente na Casa Branca do The New York Times.

A Torre Sul já havia sido atingida, às 9h03, e seria a primeira a desabar. E os acontecimentos ainda chocam as testemunhas. “Um bombeiro me disse algo que não entendi: “Cuidado com os corpos que estão caindo’”, conta a agente do FBI Wesley Wong, que estava no térreo. “As portas da entrada da Torre Norte eram automáticas. Elas ficavam abrindo e fechando por causa dos corpos que caíam”, completa o bombeiro Bill Spade.

“Ainda vivemos com as consequências das decisões tomadas em meio a esse medo e confusão”, diz Graff. “O 11 de Setembro foi o ponto de separação, em muitos aspectos, entre o século 20 e o 21. Entender o que aconteceu desde então requer primeiro a compreensão de onde tudo começou.”

O ÚNICO AVIÃO NO CÉU

Autor: Garrett M. Graff

Editora: Todavia (560 págs., R$ 99,90 papel e R$ 54,90 o e-book)

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