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O último, original e poderoso Tony Judt

‘Pensando o Século XX’ consolida o legado intelectual do historiador britânico

Elias Thomé Saliba, Especial para O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2014 | 19h15

Muitas razões fazem de Pensando o Século XX um livro original. A maior delas é que ele terminou de ser escrito apenas um mês antes da morte do seu autor, o historiador Tony Judt, o qual, em 2008, recebeu o triste diagnóstico de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), ficando com o corpo quase que totalmente paralisado no final do ano seguinte. Com o auxílio de amplificadores para voz e com a colaboração inestimável de outro historiador de Yale, Timothy Snyder, que manteve as conversas com Judt durante vários meses, o resultado foi um livro surpreendente, no qual cada capítulo encaixa um componente autobiográfico no quadro das notáveis analises do historiador. A memória era a única certeza de Tony, e ele se agarrou a ela como a uma tábua de salvação. Era o que a doença não podia tirar dele. Para evocar uma lembrança, ele não precisava pedir nada a ninguém: estava simplesmente ali, e enquanto ele ainda conseguia falar, podia usar sua memória à vontade. "Era toda dele", escreve sua mulher, Jennifer Homans, destacando outra rara singularidade: um livro de história sem nenhuma daquelas notas de rodapé.

Sem agenda partidária ou identificação étnica e sempre disposto a falar abertamente, Judt foi um historiador que nunca abandonou sua lucidez em troca de teorias sistêmicas que dispõem de holofotes poderosos que iluminam o centro do palco mas obscurecem partes do cenário histórico. Nascido em Londres, de pais descendentes de rabinos lituanos, Judt passou alguns anos de juventude num kibbutz em Israel até 1967, quando a Guerra dos Seis Dias o obrigou a voltar à Inglaterra. Formou-se em Cambridge, mas realizou suas primeiras pesquisas em Paris, onde publicou dois livros – em 1990 e 1991 – sobre a trajetória dos intelectuais franceses – que provocaram mais polêmica em terras gaulesas do que inauguração de lanchonete de fast-food.

Seu Pós-Guerra, uma das pesquisas mais completas sobre a história europeia, só não ganhou o Pulitzer de 2006 porque foi visto, por críticos mais afoitos, como uma acusação a Israel por esvaziar o significado do Holocausto. Logo após a Guerra dos Seis Dias, publicou Vitória Sombria, um ensaio no qual alfinetava o orgulho renitente de Israel e sua retórica de auto-veneração e exclusividade, incompatíveis com o legado ético do judaísmo profético. Por causa do ensaio, Judt acabou defenestrado do conselho editorial da New Republic. A lista de antipáticos só aumentou quando ele escreveu a apresentação do livro póstumo de Edward Said, From Oslo to Iraq and the Road Map, alinhando-se ao autor de Orientalismo na defesa de um Estado único e secular para israelitas e palestinos. Em 1995, junto à Universidade de New York, Judt fundou o Instituto Remarque, um centro que reúne vários pesquisadores, até hoje importante por apoiar e promover o estudo dos temas da dissidência, exílio e pacifismo.

Enfeitados com verdades triviais – como o “triunfo do mercado” ou a “marcha da globalização” – entramos no século 21 com um ar de predisposição arrogante – relegando as lembranças do século 20 ao baú dos extremismos políticos, dos erros trágicos e de escolhas irracionais. Não chegamos a esquecer a história, já que nunca inauguramos tantos museus e monumentos, reais ou virtuais. Judt observa que até incentivamos os estudantes a aprenderem lições do passado pelo prisma particular do seu próprio sofrimento (ou do sofrimento dos seus antepassados) resultando numa memória de fragmentos múltiplos e separados (judeu, polonês, sérvio, armênio, afro-asiático, palestino, irlandês...) cada um marcado pelo sua própria condição de vítima. Onde, quando e por que perdemos nosso quadro de referências em troca da vitimização geral e dessa esmigalhada memória seletiva? É aqui que Judt é ferino em relação a um tique dos grandes intelectuais engajados da história do século 20: a aprovação entusiástica da violência, geralmente à um distância segura e sempre à custa dos outros. Localiza aí o que ele chama de o maior pecado intelectual do século: “uma coisa é eu dizer que estou disposto a sofrer agora por um futuro desconhecido, mas possivelmente melhor. Outra coisa é eu autorizar o sofrimento de outros em nome dessa mesma hipótese inverificável, em relação a qual você reivindica informação exclusiva e perfeita.” 

Os momentos mais pitorescos das conversas são aqueles nos quais Judt organiza suas lembranças dos intelectuais mais notáveis desta esquecida “República das Letras”. Lá estão Arthur Koestler, Primo Levi, Albert Camus, Leszek Kolakowski, Hannah Arendt, Eric Hobsbawm. Todos pertencentes à derradeira legião de personalidades ainda marcadas pelos horrores da 2ª Guerra Mundial. Como o filósofo Kolakowski, que, aos 15 anos, trabalhou numa fábrica de brinquedos durante a ocupação da Polônia: como os alemães fecharam as escolas, teve acesso apenas a uma biblioteca semidestruída – com isso, ele acabou lendo apenas as obras cujos títulos começavam pelas letras A e D, mas nenhum dos livros que começassem por B ou C, que haviam desaparecido! De qualquer forma, provocações inteligentes não faltam e é difícil resistir à solidez e à clareza de Judt. Marc Bloch dizia que entender um acontecimento requer que o historiador se desprenda de qualquer quadro de referência específico e aceite simultaneamente a validade de vários quadros de teóricos. Inspirado nessa lição, o derradeiro livro de Judt é uma anamnese brilhante da história do século 20 e, com certeza, seu mais valioso legado intelectual. 

ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR, PROFESSOR DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE RAÍZES DO RISO

PENSANDO O SÉCULO XX

Autores: Tony Judt e Timothy Snyder

Tradutor: Otacílio Nunes

Editora: Objetiva (440 págs., R$ 49,90, R$ 29,90 o e-book)

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