Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

‘O Último Dia da Inocência’, de Edney Silvestre, ambienta trama em 1964

Romance policial do jornalista e escritor, que será lançado nesta quinta-feira, 15, une ficção e história

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2019 | 03h00

Uma família com duas crianças pequenas viaja tranquila de carro quando uma poça de óleo na pista faz com que o motorista perca o controle e o automóvel voe até um barranco, onde se espatifa no meio das árvores da Serra das Araras, no Rio de Janeiro. O leitor ainda não se recuperou da surpresa e a trama dá um salto no tempo, avançando até o dia 17 de março de 1964, quando se completam 17 anos daquela tragédia. O que vai acontecer naquela data justifica o novo romance de Edney Silvestre, O Último Dia da Inocência (Record), que ele lança nesta quinta, 15, à noite, na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista.

Trata-se de uma obra em que o autor, também jornalista, se apoia na história do País para criar uma ficção. Dessa vez, Silvestre escolheu um momento decisivo: a sexta-feira em que aconteceu o hoje chamado Comício da Central, no Rio, em que o então presidente brasileiro, João Goulart, anunciou a reforma agrária e a nacionalização de refinarias de petróleo de empresas estrangeiras. Isso apressou a movimentação de grupos contrários e que resultou no golpe militar.

“Nossas vidas são manipuladas pela situação de poder e, seguindo esse raciocínio, eu me interesso mais por determinados fatos históricos”, conta Silvestre, que utiliza sua habilidade para costurar realidade e ficção em tramas com narrativas marcadas por surpresas. É o caso de O Último Dia da Inocência – aqui, o protagonista é um jovem rapaz de 19 anos, que se inicia na carreira jornalística.

Naquele 13 de março, enquanto as emissoras de rádio alternam músicas românticas com chamamentos políticos para o comício, fomentando um clima pré-golpe, o rapaz inicia o dia no Instituto Médico Legal, onde o cadáver de um rapaz loiro e de olhos azuis se destaca em meio a corpos de pessoas mais humildes. Ao aceitar a dica de um tarimbado fotógrafo, o jovem sem nome se enrola em uma trama de falsas aparências, na qual nada é o que parece, ninguém é quem diz ser, e crimes vêm sendo encobertos desde a ditadura de Getúlio Vargas. E o fato de a família não ter ainda se pronunciado desperta a atenção do repórter que, ao iniciar uma investigação, acabará envolvido em um violento crime.

“O mais curioso é que o rapaz não se interessa por assuntos políticos, mesmo vivendo um dia tão decisivo na história brasileira”, conta Silvestre que, como de hábito, fez uma intensa pesquisa para ser preciso nas citações. E o livro é recheado de referências, desde letras de músicas e nomes de ruas até a reprodução de fatos que realmente aconteceram. “O que facilitou foi a boa quantidade de arquivos em áudio dos reclames de rádio, especialmente os que convocavam a população para o comício”, explica o escritor, que começou a fazer as anotações em 2016 para iniciar a escrita do romance no ano seguinte.

Foi um trabalho criterioso, a ponto de Silvestre percorrer o mesmo caminho de seus personagens para calcular distâncias. Pesquisou ainda detalhes que colaboraram para o colorido da narrativa – como a constante falta de energia elétrica no Rio naquela época. “Isso fazia com que os corpos não fossem devidamente refrigerados no IML, o que aumentava o forte cheiro.”

Aliás, a escrita precisou ser milimetricamente preparada pois a trama se passa em menos de 24 horas: desde o momento em que o jovem repórter descobre o cadáver do homem loiro até a conclusão que, por respeito ao leitor, não convém dar pistas, pois seria spoiler. “Em vários trechos, tive o cuidado de escolher as palavras para não antecipar surpresas”, explica. “Eu me interessava também, além da trama de mistério, em mostrar como somos manipulados pelas forças políticas, o que sempre marcou nossa rotina – desde o confisco das poupanças (no governo Collor) até a atual mudança na regra das aposentadorias.”

Um dos trunfos do livro está na perfeita descrição do funcionamento da redação de jornal nos anos 1960 – sem nenhum aparato tecnológico à disposição (no máximo, telégrafo e telefone), o repórter da época precisava gastar a sola do sapato para apurar as matérias, percorrendo diariamente as ruas da cidade. E isso valia tanto para notícias amenas como as mais violentas. “Lembro do atentado às torres gêmeas, em 2001, em Nova York”, comenta Silvestre. “Enquanto todos fugiam do epicentro, eu ia no sentido contrário. O sentido do dever me fazia continuar. Só bem depois é que senti a força do choque.”

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.