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O teatro se basta

Combinamos que ele não viria aosensaios e, se preciso, eu o procuraria. E assim se fez. Lauro César só assistiuao ensaio geral de “Sinal de vida” na véspera da estreia, em março de 1979, noAuditório Augusta. No final, estava emocionado, dava pra ver. Começouagradecendo, com justos elogios ao elenco, razão de ser do teatro, mais aindade um teatro de ideias como aquele. Ao encerrar, porém, deu um banho de águafria em todos. “Sugiro que vocês comecem a procurar trabalho porque oespetáculo não fica em cartaz muito tempo. Ninguém vai querer assistir a essapeça. Daqui a um mês estarão todos desempregados.” De fato, não era uma peçafácil, seja na estrutura não linear, que joga com o tempo da ação, seja no tema– o desaparecimento de Verônica, uma ativista política, nos porões da ditadura.Lauro estava certo, a peça era (é) dolorida, “pra baixo”, mas não conseguiareconhecer que ela continha (contém) um humor patético e crítico da situação edo protagonista. (O que reforça a tese de que o autor nem sempre é o melhorleitor, diretor ou intérprete de sua obra.)

Oswaldo Mendes, O Estado de S. Paulo

14 de setembro de 2014 | 21h00

Depois daquele discurso, estrearnão seria nada animador mesmo para um elenco maduro apesar de jovem, lideradopor Antônio Fagundes, todos na faixa dos trinta anos, exceto o veterano mestreSadi Cabral. Para me contrapor às palavras do Lauro, encerrei o papo: “Vamosfazer um trato. Se for fracasso, a culpa é minha, fui eu que errei na direçãoda peça. Se for sucesso, ai o Lauro explica pra gente”. Claro, um ano depois,em fevereiro de 1980, quando a temporada terminou, ele não precisou explicarnada.  O fracasso de um espetáculo é mais difícil de explicar. O sucessoem geral resulta de um fato singular: quando o teatro acontece, ele se basta.Ter nomes então conhecidos como Sadi, Cléo Ventura, Kate Hansen, MarleneFrança, Maria Rita e Bruno Barroso além de Fagundes, que vinha do êxito danovela “Dancing Days”, ajudou. Mas depois que o espetáculo “pegou”, seguiu comas próprias pernas. Tivemos algumas substituições – por três meses FranciscoMilani substituiu Fagundes – sem queda de público. “Sinal de vida” respondia ànecessidade das pessoas naquele momento de refletir sobre as questões politicase existenciais propostas. E foi justamente nisso, e em um elenco cominteligência, talento e consciência política para “defender” a peça, que seapoiava a confiança na carreira do espetáculo.

A qualidade do texto havia sidotestada no início de 1977, em um ciclo de leituras clandestinas de peçasproibidas pela censura do regime militar, criado por Ruth Escobar em seuteatro. O artifício da atriz e empresária para driblar a proibição era simples.As peças não podiam ser encenadas, nem lidas publicamente. Entretanto, nadaimpedia a sua leitura em um clube, por exemplo, em circuito fechado, nãoimportava se de dez ou trezentas de pessoas. Foi assim que o público tevecontanto com várias peças engavetadas pela repressão, entre elas a de LauroCésar Muniz.

Ao consultar, 35 anos depois, oprograma de “Sinal de vida” distribuído ao público duas páginas do ComitêBrasileiro pela Anistia chamam a atenção. Sob o título “Onde estão?” sãolistados 47 nomes de desaparecidos, “cujas mortes ou prisões não sãoreconhecidas oficialmente”. Como a Verônica da peça de Lauro, ainda temosmuitos mortos insepultos esperando que a verdade enfim se estabeleça sobre ahistória deste País. Talvez revisitar algumas peças de teatro contribua para oajuste de contas com o passado.

OswaldoMendes, autor, diretor e ator de teatro está em cartaz no Teatro de Arena em “Adança do universo”. Em 1979 dirigiu “Sinal de vida” no Auditório Augusta.

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