KEILA CASTRO
KEILA CASTRO

O sertanismo fantástico de Eury Donavio em 'Fiados na Esquina do Céu com o Inferno'

Autor pernambucano estreia com narrativa irresistível sobre matador sertanejo que não queria ir para o inferno

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2020 | 10h00

O matador veio antes de tudo. Mal, sem dúvida, mas longe do homem que se tornaria: uma alma atormentada e disposta a cobrar no ferro quente todas as dívidas e atentados contra sua macheza anotadas em uma caderneta. Era antes um assassino mais urbano, noir e talvez menos ingênuo, inspirado na série de histórias em quadrinhos Sin City, de Frank Miller, mas que nem chegou a existir. Aos poucos, nas mãos de seu criador, ele se sertanejava nos aperreios da cachaça, no ódio fervido ao sol e no palavrório forjado pela sobrevivência. Sob as bênçãos do regionalismo de Ariano Suassuna, depois do grande pai de todas as linhas sertanejas, Graciliano Ramos, passou a existir e a inspirar todo um mundo a seu redor.

Ao criar seu personagem central dentro de um novo eixo, o autor Eury Donavio passou a ampliar seu universo e a usar todo o sertanismo mágico – e talvez essa definição seja um pleonasmo a quem quer que tenha qualquer cantinho de sertão dentro de si – para libertar os seres deste e do outro mundo e compor com eles a incrível história de Fiados na Esquina do Céu com o Inferno.

Vamos a ela: o sertanejo brabo, narrador de tudo, segue pela terra seca em busca daqueles que o enganaram um dia, incluindo padres molestadores da mulher alheia, colegas caguetas de suas molestações da mulher alheia e até um burro que insistia em rir de suas angústias. Ciente de que o inferno o espera, mas temeroso por ele que só um nordestino, encontra em uma bodega, a tal esquina do céu com o inferno, um ser do além que o desafia. Ainda há um jeito para que ele se livre das garras do tinhoso. Basta que tome parte da chuva na guerra que ela trava com a seca em outra dimensão.

Uma jornada de herói com resfolegos instigantes poderia ser a perdição para um escritor de primeira obra como Eury Donavio se o seu livro não fosse tão bem resolvido. Aos 49 anos, esse homem de Floresta do Navio, no sertão pernambucano, atuou com muita pesquisa e memória afetiva. Apropriou-se da linguagem regionalista com destreza – e o fato de ser o autor um sertanejo nem sempre facilita algo do qual os temores diante da suntuosidade de um texto poderiam fazê-lo se distanciar –, desamarrou seus personagens de um roteiro pré-fabricado deixando-os por vezes ganharem vida e o conduzirem por novos caminhos e conseguiu, sabiamente, manter o humor. Ou algo que chamamos aqui embaixo de humor mas que nos grandes sertões são apenas o jeito de se viver. Ao colocar ponto final depois de nove anos de burilações nas esquinas do céu das ficções com o inferno das profundidades de seus personagens para torná-los reais, Eury tinha uma obra sólida e digna de ser descoberta.

E ela tem sido. Seu livro já recebeu Menção Honrosa no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro e o Prêmio Literário Cidade de Manaus. Mais recentemente, há três dias, soube que seu livro havia sido um dos 15 selecionados do Concurso Novos Roteiros Originais – Edição Brasil realizado pela Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI). São R$15 mil de prêmio para que tenha seu roteiro adaptado para o formato série televisiva. E, então, que venham as plataformas a abraçá-lo para transformar Fiados em capítulos e exibi-lo para públicos maiores.

Parte de Eury é resultado de esforço e aperfeiçoamento. Depois de conseguir ter o personagem central fortalecido, ele sentava-se para escrever sem saber bem para onde seguir. Ao sentir as ideias vagando perigosamente, doidas para se perderem, resolveu parar de escrever para fazer duas oficinas literárias com o professor de escrita criativa Tiago Novaes e seguir os passos do que aprendia, organizando a estrutura da história e desenvolvendo seu argumento. Quando voltou ao texto, percebeu a fluência e a produção ganharem corpo. “Meu texto é feito de muitas revisões. Fico lendo e relendo até que tudo soe bem aos ouvidos”. Depois de sentir o texto pronto, ou quase, procurou a escritora, editora e preparadora de textos Anita Deak, autora do também recente e fascinante No Fundo do Oceano, os Animais Invisíveis, e contratou sua leitura crítica. “Anita foi fundamental e me ensinou demais. É a minha fada madrinha literária.”

Engenheiro civil por formação e mestre em ciências da computação, Eury não faz pose de intelectual. “Nunca fui um devorador de livros. Sempre li minhas dez obras por ano.” “Eu tive que aprender a escrever, por isso fiz as oficinas.” “Sou mais ligado ao cinema.” Ótimo “personagista” (não é assim que ele faz quando de depara com algo que a língua portuguesa se esqueceu de nomear?), Eury só não parece disposto a criar um personagem de si mesmo. “Você é o primeiro jornalista que fala comigo.” Que venham todos os outros.

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