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Livro 'Navios Iluminados', romance de 1937, é reeditado

Autor sergipano Ranulfo Prata foi elogiado por Lima Barreto

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

10 Outubro 2015 | 04h00

Último livro do escritor e médico sergipano Ranulfo Prata (1896-1942), Navios Iluminados foi lançado em 1937 pela Livraria José Olympio Editora e recebido com entusiasmo por críticos como Nelson Werneck Sodré e Alceu Amoroso Lima. O autor morreu sem publicar outro livro depois desse, aos 47 anos, mas vem sendo redescoberto por novos leitores e acadêmicos. A coleção Reserva Literária, da editora Com-Arte, em parceria com a Edusp, acaba de lançar a quinta edição brasileira desse que é um vigoroso exemplo do romance social dos anos 1930, já comparado ao melhor da produção de Graciliano Ramos.

Não há exagero nessa aproximação entre os dois escritores, o sergipano e alagoano. Ambos são econômicos em adjetivos, honestos e comprometidos com os menos favorecidos.

Há também quem veja no fatalismo de Navios Iluminados ecos de Euclides da Cunha, como a professora Marisa Midori Deaecto, autora da apresentação do livro. De fato, o migrante José Severino, que sai da cidade baiana de Patrocínio do Coité (atual Paripiranga) para tentar a sorte no porto de Santos, é um personagem que bem poderia ter saído de um livro do imortal da Academia Brasileira de Letras que escreveu Os Sertões. Há, porém, uma diferença de abordagem: Prata passou ao largo da filosofia positivista. Foi um trágico, na melhor tradição existencialista russa estabelecida por Dostoievski.

De sertanejo nem um pouco forte a tísico proletário urbano, a vida de Severino é uma sucessão de tragédias. Desenraizado, com a mãe doente em Paripiranga, ele deixa o município baiano no Polígono das Secas apenas para sofrer um pouco mais numa cidade praiana, a exemplo dos pobres imigrantes europeus – portugueses, espanhóis – que disputam com ele uma vaga no cais do porto.

O neorrealismo de Prata não se distancia muito dos outros romancistas da época, que adotaram a tipificação social para denunciar as injustiças de um sistema perverso, mantido pela força numa época em que pipocavam greves, a classe trabalhadora se organizava em sindicatos e o PCB ganhava força, isso até o golpe de 1937, justamente o ano do lançamento de Navios Iluminados. Com toda a munição ideológica que outros autores certamente usariam, Prata prefere eleger o drama do protagonista como objeto de sua investigação sobre o comportamento dos portuários numa era turbulenta, em que empresários defendiam a ação enérgica do Estado.

Prata ambienta sua história no bairro do Macuco, à beira do cais, descrevendo as ruas e os hábitos locais com precisão cirúrgica, dos botecos em que desocupados jogavam bilhar e dominó aos cabarés da zona de prostituição. Severino, que tanto luta para virar estivador, não tarda a perceber que a troca da miserável propriedade rural na Bahia por um quarto de pensão no Macuco não lhe trouxe nenhum benefício. Ao contrário: seu infortúnio cresce. O narrador não tenta amenizar o drama com lirismo. A exemplo de Graciliano, é seco, direto, decidido a construir um épico sobre um personagem obscuro, esmagado pela história.

Ao escolher a lavadeira Florinda como companheira de Severino, o narrador acena com um gesto de solidariedade entre miseráveis, capaz de mudar a vida do protagonista, reconduzindo-o ao caminho original após superar todos os obstáculos. Contudo, prevalece o desamparo. Prata não recua. Lima Barreto foi um dos primeiros a reconhecer suas qualidades de romancista já no livro de estreia, O Triunfo (1918). Outros, por sorte, o seguiram.

Navios Iluminados.

Autor: Ranulfo Prata.

Editora: Edusp (312 págs.; R$ 70)

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