Wilton Junior/Estadão
A escritora e pedagoga Lu Ain-Zaila, uma das vozes do afrofuturismo no Brasil Wilton Junior/Estadão

A escritora e pedagoga Lu Ain-Zaila, uma das vozes do afrofuturismo no Brasil Wilton Junior/Estadão

'O racismo nos deixou sem história e sem memória', diz a escritora afrofuturista Lu Ain-Zaila

Escritora é uma das principais vozes do movimento estético que mistura ficção científica e elementos da cultura africana

André Cáceres , O Estado de S.Paulo

Atualizado

A escritora e pedagoga Lu Ain-Zaila, uma das vozes do afrofuturismo no Brasil Wilton Junior/Estadão

“A ignorância plantada pelo sistema foi a grande pandemia a assolar o mundo, e esse país ainda mais.” A frase, que parece ter sido escrita de março de 2020 para cá, é na verdade um trecho do livro Ìségún (Monomito Editorial), publicado no fim de 2019 por Lu Ain-Zaila, nome de pluma da escritora e pedagoga fluminense Luciene Marcelino Ernesto. Apesar de antever o ano seguinte, a autora não tenta prever nada: sua obra refunda o imaginário do futuro, de modo a deslocar o protagonismo do porvir para as pessoas de pele preta.

“É estranho num país com metade da população negra eu saber mais sobre a imigração italiana do que da diáspora africana”, afirma Ain-Zaila em entrevista ao Estadão, de sua casa em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. “O movimento afrofuturista surge de uma necessidade de representação negra a partir de seu próprio olhar. A afrocentricidade traz a perspectiva de que a pessoa que vai produzir o conteúdo é negra, para que se possa criar uma tradição de literatura, cinema e artes de modo geral.”

A autora já havia publicado um conto em 2007, mas passou a se dedicar mais seriamente à escrita após visitar a Bienal do Livro de 2015 e se frustrar com a escassez de obras protagonizadas por negros. Desde então, publicou três distopias, (In)Verdades (2016), (R)Evolução (2017) e Ìségún (2019), e a coletânea de contos Sankofia: Breves Histórias Afrofuturistas (2018). 

“O afrofuturismo se dá mais no campo da elaboração do que da própria obra, porque não podemos pensar nos limites da obra. A construção da narrativa sempre tem elementos da cultura negra, isso é indispensável para que se construa essa nova linha de tradição literária”, explica ela. “Ele sai do lugar canônico para reconhecer que existem outros lugares de fala, outras formas de elaborar histórias, e queremos contar essas histórias.”

É por isso que, em suas narrativas, Ain-Zaila sempre insere elementos da cultura africana, como palavras em suaíli e iorubá, conceitos das mitologias africanas e situações protagonizadas por personagens negras. Em Ìségún, por exemplo, essas questões estão colocadas desde o título, que significa “reverência aos antepassados” em iorubá. Na trama, que se passa em um futuro indeterminado, em uma cidade litorânea fictícia da costa brasileira, a detetive ambiental Zuhri investiga o assassinato do Dr. Diop, um cientista que desenvolvia uma espécie de filtro antipoluição para fábricas. 

A prosa de Ain-Zaila é sinestésica: narrado ao som de sambas clássicos e em meio ao odor do lixão que envolve a Cidade Alta e a Cidade Baixa, Ìségún fornece, aos poucos, pistas de que uma corporação bilionária está por trás não apenas dessa morte, mas de uma conspiração muito maior que envolve a eliminação da militância ambientalista. Para evitar uma catástrofe ainda mais grave, a detetive acaba tendo que reatar laços com sua ancestralidade, e essa é uma tônica no afrofuturismo: a mescla de um futuro tecnológico com um passado primordial. Ain-Zaila classifica o livro como “cyberfunk”, variação do cyberpunk, cujo principal autor, William Gibson, de Neuromancer, cunhou uma frase que ilustra a obra dela: “O futuro já chegou, só não é bem distribuído”.

Em Existência, um dos contos de Ain-Zaila, uma equipe de astronautas terráqueos vê suas mentes serem dominadas por uma forma de vida alienígena que se organiza como uma coletividade homogênea. A antropóloga Adimu, última da equipe a ser atacada, consegue resistir à invasão mental por meio de suas memórias: “Fecho meus olhos e tento fazer um filme de adeus ao que sou: ancestralidade, vivências sociais, pertencimento histórico, novas ideias e concepções a partir do que conheço, ou acredito conhecer, sonhos a realizar, arrependimentos”. Ao ser confrontada com a lembrança da enorme diversidade da vida na Terra, a espécie extraterrestre perde sua capacidade de homogeneizar os humanos. Esse é um exemplo de como, na literatura de Ain-Zaila, a multiplicidade de estilos de vida, raças, culturas e credos que caracteriza a humanidade torna-se também um elemento narrativo para imaginar um futuro diferente da visão colonialista e eurocêntrica que regeu a ficção científica por todo o século 20.

“O racismo causou uma fratura ontológica que nos deixou sem história e sem memória”, defende Ain-Zaila. “O que eu busco trazer com a minha literatura é isso de volta, uma realidade em que possamos ter referências que nos digam de onde nós viemos. Não temos como construir uma realidade ou um futuro se não sabemos quem somos.”

Para ela, outros modos de contar histórias são importantes justamente para evitar um pensamento homogêneo que nos reduz a meros reprodutores de clichês. “Busco trazer o olhar sobre como outros povos são afetados por essas situações. A nova literatura de ficção científica vem construindo isso. Não só negros, mas chineses, LGBT, mulheres brancas… Essas literaturas mostram como outras pessoas são afetadas por essas narrativas que criam a lógica da dizimação do que não é parecido com eles. Não é nem uma inversão da história, é simplesmente o olhar do outro lado.”

O que é o afrofuturismo?

O afrofuturismo é uma vertente da ficção científica que implementa elementos da cultura negra e da ancestralidade africana a narrativas de cunho futurista, de modo a reposicionar povos historicamente marginalizados por esse gênero como protagonistas de suas próprias histórias.

Embora o termo “afrofuturismo” tenha sido cunhado em 1993 pelo crítico Mark Dery em seu ensaio Black to the Future ao tratar de elementos em comum na ficção científica produzida por escritores negros, a essência do movimento remonta a períodos anteriores. 

Já em 1859 o abolicionista afro-americano Martin Delany, filho de pai escravizado e mãe livre, publicou uma obra de literatura especulativa intitulada Blake or The Huts of America, na qual narra uma rebelião violenta de escravos nos Estados Unidos. A história contrafactual é um subgênero da ficção científica, o que pode colocar esse livro como um pioneiro do afrofuturismo. No entanto, apesar de estar disponível para leitura no site da Universidade da Virgínia, os seis capítulos finais de Blake se perderam.

Não se sabe se há parentesco entre os autores, mas um dos pais do afrofuturismo como o conhecemos hoje é o também afro-americano Samuel Delany, primeiro escritor negro a vencer o prêmio Hugo, maior láurea da ficção científica, com seu romance Babel-17, de 1966. Ao lado dele, as autoras Octavia Butler e N.K. Jemisin são os mais celebrados nomes a produzir literatura nesse registro. 

No Brasil, Lu Ain-Zaila e Fábio Kabral são os dois principais nomes do afrofuturismo contemporâneo, embora diversas coletâneas venham sendo publicadas, revelando uma produção cada vez mais pujante nesse estilo.

Para além dos livros, o movimento afrofuturismo se consolida como uma estética afrocentrada em diversos outros campos das artes. Na pintura, por exemplo, as telas de Jean-Michel Basquiat; na música, as obras mais recentes de Janelle Monae e Beyoncé; e nos quadrinhos e no cinema, as histórias do Pantera Negra são alguns dos principais exemplos desse estilo que busca protagonismo em áreas ainda dominadas por artistas e escritores brancos.

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Chico Cesar: 'O que adianta ser um grande artista negro se a sua plateia é sempre branca?'

Chico Cesar fala sobre o reforço dos estereótipos por trás da valorização dos negros na música, diz da importância de se inverter o eixo que nos trouxe até aqui, o pensamento do homem branco, para o que seja ditado pela mulher negra, e que, no momento, o melhor que um artista branco e hétero tem a fazer é ouvir as vozes de quem foram silenciadas por tanto tempo

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2020 | 05h00

Cantor e compositor dos mais atuantes sobre os dilemas de seu tempo, com álbuns e canções pautadas por uma grande capacidade de estar no lugar do outro, aprendida em uma família paraibana negra e matriarcal de cinco irmãs, Chico César fala ao Estadão sobre sua crença nas mulheres negras. São elas que podem desfazer os nós do racismo. Quando ao lugar de fala mesmo dos artistas brancos no debate, ele diz: é o lugar da escuta.

Tantas discussões, debates, enfrentamentos e canções... Caminhamos alguma coisa nas questões raciais?

A presença da mulher negra está sendo definitiva no pensamento brasileiro sobre o racismo. Ela faz isso com mais força do que os homens ao trazer questões como o assédio, o estupro, o subemprego. As maiores respostas para as saídas desses dilemas estão sendo trazidas pelas mulheres negras.

A voz da mulher negra é mais forte do que a do homem negro?

Chegamos até esta situação porque estivemos pautados pelo contrário, o homem branco. Agora, precisamos colocar o espelho ao contrário. Sai o patriarcado branco, entra o matriarcado negro. Eu posso falar porque vim de uma casa com uma mãe e cinco irmãs, e sinto o quanto isso foi importante em minha visão de mundo.

Como sua mãe o influenciou?

Ela sempre dizia: mantenha sua cabeça erguida e não ande com brancos encrenqueiros. Quando ele fizer algo de errado, a polícia vai chegar e o único culpado será você.

Onde está o “lugar de fala” do artista branco. Muitos querem participar ao lado dos negros, sentindo suas dores, mas não fazem isso porque são acusados de se apropriar de um discurso que não seria legítimo pelo fato de suas peles serem claras.

Sinto que o melhor lugar de um homem hétero e branco, neste momento, seja o lugar de escuta. Artistas brancos precisam entender que durante muito tempo foram eles que fizeram as letras, as músicas e a arte enquanto os negros estiveram sendo silenciados. Mas penso também em Chico Buarque. Ele sempre terá um lugar de fala, como terão Fernanda Montenegro e tantos grandes artistas não negros do País. Chico falou do negro quando fez Pedro Pedreiro, Construção, Geni e outros personagens que certamente seriam negros na vida real. Eles podem falar sobre a periferia de forma que ela vá se identificar, mas é preciso, neste momento, estar mais atento para ouvir o que os negros têm a dizer. Quem já falou e cantou muito escuta um pouco agora. E, depois, traga essas vozes para junto de si.

Mas, além da escuta, não há uma posição no antirracismo?

Eu acredito que sim. Mandela tinha pessoas brancas a seu lado, havia muitos norte-americanos brancos nos protestos antirracistas. Mas é preciso saber que o protagonismo dessa luta é dos negros, assim como um homem nunca vai se tornar líder de um movimento feminista. E nós, negros, não podemos nos conformar em sermos os artistas de destaque, os esportistas de destaque, os músicos de renome. Queremos os cargos das empresas, ser médicos, professores, ministros da Fazenda.

A música é um dos poucos lugares onde os negros são vistos com superioridade por antecipação, sobretudo quando falamos de jazz, de blues e de samba. Podemos dizer que a música foi o único lugar onde o racismo não deu certo?

Eu sinto que essa ideia acaba reforçando estereótipos. Prefiro ver os negros cientistas, físicos, astrofísicos e pensar no geógrafo Milton Santos. Pensar no negro como o esportista, o músico, o percussionista é o mais fácil. Negros são seres complexos como os brancos que podem despontar em todas as frentes. O que adianta ser um grande jazzista negro se você só tocar para plateias brancas e, no intervalo dos shows, ser encaminhado para fumar na parte dos fundos de um clube de jazz? Em São Paulo, você sobe a Avenida Rebouças para entrar no Viaduto Noite Ilustrada. Muitos sabem que Noite Ilustrada foi um grande cantor negro (morto em 2003), mas quase ninguém sabe que Rebouças foi André Pinto Rebouças, um engenheiro baiano e negro.

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Agenda intensa. Além do programa ‘Falas Negras’, Lázaro está em três filmes, um deles como diretor, e será homenageado no festival de cinema do Ceará Marco del Fiol

Lázaro Ramos faz o eco para diversas vozes negras

Ator e diretor lança luz sobre questões raciais no dia a dia e, agora, em um novo especial da TV Globo

Imagem Luiz Carlos Merten

Luiz Carlos Merten , O Estado de S.Paulo

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Agenda intensa. Além do programa ‘Falas Negras’, Lázaro está em três filmes, um deles como diretor, e será homenageado no festival de cinema do Ceará Marco del Fiol

Todos os dias deveriam ser de cidadania, de celebração da consciência negra, do empoderamento feminino, da afirmação LGBTQIA+, mas Lázaro Ramos reconhece a importância simbólica de um dia para comemorar. “As pessoas estão sempre tão imersas nas suas coisas que precisam dessas datas para parar um pouco, e pensar.” Este que ficará como o ano da pandemia será também o do Black Lives Matter. Em todo o mundo houve protestos provocados pela morte de George Floyd, e no Brasil houve o caso João Pedro. Mas Lázaro não considera que as tragédias de 2020 façam deste ano, e da comemoração do 20 de novembro – dia de Zumbi dos Palmares –, uma data mais importante.

“Há quanto tempo pessoas e entidades chamam a atenção para essa verdadeira tragédia brasileira que são as chacinas de jovens negros na periferia?”, indaga Lázaro. Nesta sexta, 20, vai ao ar o especial de Manuela Dias, que ele dirigiu, na Globo. Falas Negras chega sob o signo da expectativa, mas também provocando polêmica. Roteiristas negros reclamaram que seja uma roteirista branca a assinar a peça, com depoimentos reais de pessoas que lutaram contra a escravidão, o racismo, o preconceito. O projeto nasceu de Manuela. Há tempos, Lázaro vinha se preparando para a direção. Dirigiu teatro, o programa Espelhos, do Canal Brasil. Tomou aulas particulares para entender a técnica.

“Os não negros precisam entender o lugar de escuta”, ele diz. Lázaro já virou uma das vozes mais fortes em defesa da igualdade racial e social no País. Seu foco sempre foi a abordagem de temas relevantes, mas Lázaro sempre quis fazer isso de forma acolhedora. Transformou-se na exceção que confirma a regra do racismo no Brasil da suposta cordialidade. Além de Falas Negras, ele entra numa temporada de comemoração, e reconhecimento. No começo de dezembro, será o homenageado do 30.º Cine Ceará. Guarda uma lembrança forte. A primeira vez que foi a Fortaleza foi pelo teatro. Aproveitou uma folga e foi ao cinema. Mais do que simbólico, acha que foi premonitório. Aquela ida ao cinema lhe produziu uma euforia. Ceará, cinema, Lázaro. O festival deste ano será encerrado com Silêncio da Chuva, a adaptação do primeiro livro de Luiz Alfredo Garcia-Roza, por Daniel Filho. Um homem é encontrado morto na direção do carro e a polícia destaca uma dupla para investigar o caso, Espinoza/Lázaro e Daia/Thalita Carauta. Lázaro e Daniel Filho possuem outra parceria inédita, o longa Medida Provisória, um sonho de oito anos que Lázaro finalmente conseguiu concluir. Ele dirige e Daniel Filho produz.

Foi há quase 20 anos. O repórter foi só ao Rio, numa visita ao set. Um certo Karim Aïnouz, que depois iria adquirir a importância que todo cinéfilo sabe, estreava na direção com Madame Satã, sobre o lendário personagem das noites da Lapa. O gay que não levava desaforo para casa e enfrentava no braço, e na navalha, quem lhe faltasse o respeito. Quem fazia o papel era Lázaro, um jovem ator baiano que já fizera um pequeno papel no ótimo A Máquina, de João Falcão. Lázaro lembra: “Foi o primeiro de muitos encontros que a gente teve, em festivais nacionais e até do exterior (‘Madame Satã’ foi a Cannes). Mesmo que, eventualmente, a gente tenha estado em desacordo, compartilhamos o amor pelo cinema”.

Já que o tema é a Consciência Negra, o repórter faz uma mea-culpa. Numa entrevista feita há tempos com Lázaro, quando ele ainda não era o astro multimídia em que se transformou, o repórter perguntou que personagem ele gostaria de representar. A resposta veio rápida – “Hamlet!”. Lázaro, o príncipe da Dinamarca? Como o preconceito está entranhado na cabeça da gente. Por que não? Bastaria levar o “ser ou não ser” para o reino de Wakanda. “Cara, juro que não me lembrava dessa história, mas a gente já se conhece há tanto tempo que, se tivesse percebido alguma coisa, o que eu ia dizer é ‘Se liga, mano’. Estamos juntos na mesma luta contra a ignorância, por um mundo melhor e mais justo, em que negros, mulheres e gays sejam plenamente reconhecidos em seus direitos. A luta pelo cinema brasileiro.” Lázaro não fez seu Hamlet, mas fez um Espinoza preto e até um Arandir negro na transcrição da peça de Nelson Rodrigues Beijo no Asfalto, por Murilo Benício. Tem quebrado barreiras, estabelecido paradigmas.

Na pandemia

A pandemia o trancou em casa com a mulher, Taís Araújo, e os filhos. “Só tive consciência da volta quando a Taís recomeçou a gravar Amor de Mãe. Todo dia ela trazia as novidades do novo normal, com todos os protocolos de segurança adotados pela Globo. Eu ainda resisto a sair. Por mais importante que seja a homenagem no Cine Ceará, não estarei lá presencialmente, até já gravei um vídeo de agradecimento que expressa tudo o que sinto, mas não vou arriscar. A pandemia não acabou.” 

É curioso como justamente nesta semana esteja estreando o novo filme de Jeferson De, M-8 – Quando a Morte Socorre a Vida (mais informações aqui). “Adoro o Jeferson e a gente vivia combinando de trabalhar junto. Ele me enviou o roteiro, me propondo o papel de protagonista. (O filme é sobre um garoto negro da periferia que vai cursar medicina e fica obcecado pelos corpos negros que disseca nas aulas de anatomia. Dar um enterro digno ao corpo negro que retalhou, referido apenas como M-8, é o mínimo que ele acha que pode fazer.) Mas depois de ler eu lhe disse que o personagem que toparia fazer seria o cadáver. ‘Mas como, nem tem falas!’, retrucava o Jeferson. No final, fiz só uma participação.”

São aquelas coisas – coincidências? O repórter conversa com Lázaro pelo telefone imediatamente depois de rever o filme de Jeferson numa cabine de imprensa. No filme, as mães de jovens negros desaparecidos – vítimas da violência policial – vão às ruas para protestar. Juan Paiva, que faz o estudante, pesquisa na rede e encontra a reportagem que fala num total de 30 mil jovens mortos, e 77% deles são negros. E Lázaro: “Demorei um tempão para fazer meu filme porque sentia que precisava me preparar. Você fala em 77% dos mortos como jovens negros. O filme tem 77 papéis, e eu sentia que precisava me preparar para dar a cada ator a atenção que o papel exigia. Não creio que essas coisas sejam meras coincidências. Esse número 77 tem de significar alguma coisa. A gente precisa prestar mais atenção nesses símbolos”.

Nos últimos anos, Lázaro tem diversificado suas atividades. Tem escrito livros – o autobiográfico Na Minha Pele e os infantis. Caderno Sem Rimas da Maria, Caderno de Rimas do João, A Velha Sentada, Sinto o Que Sinto. “A cultura é necessária. Ler é preciso, é ferramenta para a mudança.” No filme de Jeferson De, Juan Paiva é filho de Mariana Nunes, que faz uma profissional da saúde que deu duro para criar o filho sozinha. Mariana Nunes! Numa cena, ela discute com o filho. Ele eleva o tom de voz, ela grita – “Preste atenção, garoto. Tem aqui uma mulher preta falando. Ouve!”. A cena já nasceu antológica. Mariana é uma atriz excepcional. Lázaro concorda: “Cada vez mais ela adquire reconhecimento”. Mariana fez uma participação de duas semanas na novela Amor de Mãe e a personagem tomou conta dos debates. “Creio que é por isso que lutamos atualmente. Pelo reconhecimento da potência das vozes negras. Representatividade e reconhecimento. É por isso que nós, pretos deste Brasil, ainda estamos lutando.”

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A cantora e compositora Paula Lima. Denise Andrade

‘O Negro precisa de espaço’, diz Paula Lima, que defende cotas para diminuir a desigualdade no País

Na Semana da Consciência Negra, o Estadão traz uma série de reportagens com pessoas que são destaques em diferentes áreas da cultura

Danilo Casaletti , Especial para o 'Estadão'

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A cantora e compositora Paula Lima. Denise Andrade

Quando Paula Lima assistiu ao vídeo no qual o policial americano pressiona o pescoço de George Floyd até sua morte, em maio deste ano, resolveu que usaria suas redes socais para “dar voz a quem não tem” - sobretudo negros e mulheres. “Sou uma cidadã que busca seus direitos, acredita em causas e se sente no direito de defendê-las”, explica.

 

 

Isso não significa que ela não o fizesse antes. No início dos anos 1990, quando começou sua carreira na música, já tinha muito claro que o soul - gênero musical originário nas comunidades negras americanas nos anos 1950 - e a black music seriam seu norte. Não foi fácil. Quando tentou pela primeira vez se lançar em carreira solo, ouviu de um produtor que não seria legal ter um disco de duas cantoras negras no mercado naquele momento - uma outra cantora estava lançando um disco na mesma gravadora.

“Eu poderia ter desistido ali”, lembra.

Desde março, Paula Lima é uma das diretoras da União Brasileira dos Compositores (a UBC) e, com a pandemia, assumiu, além da tarefa de defender os direitos autorais, as lives da entidade nas quais já conversou com nomes como Elba Ramalho, Fafá de Belém, entre outros. Paula ainda apresenta, desde 2016, na Rádio Eldorado FM, o Chocolate Quente, programa dedicado à música negra e, recentemente, foi convidada a assinar uma coluna no site da revista RG.

 

 

 

Você passou a integrar a diretoria da UBC em março. Por que decidiu aceitar o cargo?

O Marcelo Castelo Branco, que é o CEO da UBC e já foi meu diretor em gravadora, há 20 anos, na Universal, me convidou. Eu pensei um pouco porque é um trabalho burocrático, diferente das coisas que eu faço. São 35 mil associados, uma instituição seriíssima que tem como foco defender os direitos autorais. Logo que assumi, a pandemia chegou. Então, o Marcelo criou as lives com parceiros para ajudar a UBC e me chamou para apresentá-las. Foram arrecadados R$ 1,8 milhão que ajudaram mais de 1.100 associados. 

 

 

E como fica o tempo para a música, para sua carreira?

Minha carreira continua com meu programa de rádio, Chocolate Quente, na Eldorado FM, que é meu xodó, tem as lives, e, por conta, do meu engajamento nas redes - porque acho que a pandemia me deixou mais atenta para certas questões, sobretudo depois da morte do George Floyd - resolvi dar voz a quem não tem. Comecei a escrever no meu perfil no Instagram e o site da RG me convidou para ter uma coluna semanal. Então meu tempo está bem apertado. Mas são todos compromissos que eu acredito.

 

 

Você já foi vítima de racismo?

Já. Não existe um negro no Brasil que não tenha sido vítima de racismo. Com o fim da escravidão, não houve reparação. São quase 500 anos de uma posição muito ruim para nós, negros, no Brasil. Sem essa reparação, e quando falo dela me refiro às cotas e políticas públicas, não conseguimos dar passos maiores. Não é vitimismo, é realidade. 

 

 

A música popular brasileira é igualitária em gênero, raça e cor?

A música brasileira é popular, no sentido de ritmos que ganham mais espaço. É normal. Respeito todo mundo que faz música. Quando penso em mulheres negras que têm destaque, penso que a história vem se abrindo um pouco. Quando falamos de Ludmilla, Iza, Alcione, Karol Conka, Elza Soares... Estamos no processo. Tem uma nova geração maravilhosa que não posso deixar de falar, com Larissa Luz, Luedji Luna Majur, Liniker, Xênia França. Elas estão fazendo um supersom e criando um público. 

 

 

O que cada um pode fazer para diminuir a desigualdade racial no Brasil?

Em primeiro lugar, entender sobre privilégios. É importante não só reconhecê-los, mas abrir mão deles. Em segundo lugar, é entender que não existe meritocracia no Brasil. Fizeram a gente acreditar que se não conseguimos as coisas é porque éramos fracassados. Se eu estou em uma posição melhor e o outro não, não é porque ele é um preguiçoso. Ele precisa de espaço. Precisamos ter jornalistas, atores, juízes negros... E todo mundo tem que defender um negro que está sendo atacado por sua cor. Cor não é sinônimo de inferioridade.

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Luiza Brasil. Influencer leva o poder da mulher negra para as redes. Gustavo Jácome

Semana da Consciência Negra: um olhar para a moda inclusiva

Atuando em múltiplas áreas, Luiza Brasil usa seu poder de influenciadora para espalhar representatividade

Gabriela Marçal , O Estado de S.Paulo

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Luiza Brasil. Influencer leva o poder da mulher negra para as redes. Gustavo Jácome

Luiza Brasil é uma daquelas pessoas que é difícil descrever com um cargo ou uma profissão. Dinâmica e versátil, ela atua em várias frentes ao mesmo tempo, o que faz com que seu currículo de 12 anos na moda seja bem extenso. Recentemente, em 8 de novembro, ela ganhou seu primeiro reconhecimento internacional: o MTV Europe Music Awards (EMA) 2020, na categoria Generation Change. No mesmo dia, ela encerrava sua participação como âncora da mais importante semana de moda da América Latina, a São Paulo Fashion Week (SPFW). Aos 32 anos, Luiza comandou a transmissão de uma edição histórica do evento: a primeira após a implementação da obrigatoriedade de 50% dos modelos serem afrodescendentes, indígenas ou asiáticos. 

 

 

Este ano está sendo especial para a jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio, mas não foi agora que os prêmios começaram a chegar. Em 2019, Luiza foi escolhida como Mulher do Ano pelo Prêmio Geração Glamour. Em 2018, ela foi selecionada entre os Influenciadores Sociais Contra o Racismo, da Prefeitura do Rio de Janeiro. “As oportunidades no Brasil não são tão iguais, hoje a gente consegue equiparar um pouco mais. Justiça, digamos assim. O reconhecimento está vindo agora depois de mais de dez anos de trabalho com moda e comunicação”, diz. “A moda ainda é uma conversa muito da elite. Durante muito tempo, ela foi pautada nas classes mais altas, de poder, de pessoas brancas. E por muito tempo eu me via em um espaço quase singular, reconheço meus ancestrais que via nas semanas de moda, mas eram poucas pessoas pretas.”

As semanas de moda fazem parte do repertório da profissional desde o início de sua carreira em 2008, quando entrou no site de estilo de rua do Rio, o RioETC. Em 2012, se tornou braço direito da empresária e consultora de moda Costanza Pascolato, para quem fez a coordenação de jornalismo da reedição do livro O Essencial e atuou como assessora digital. Entretanto, o ambiente virtual foi propulsor para que o nome Luiza Brasil se consolidasse. 

Ela começou a ganhar relevância nas redes sociais em 2015 ao criar o Mequetrefismos, que chegou a ser conhecido como um blog. Hoje tem uma equipe de sete pessoas e se posiciona como uma plataforma de conteúdo sobre protagonismo negro com abrangência na moda, comportamento, música e arte. Com o tempo, a @mequetrefismos se tornou a pessoa pública Luiza Brasil, que tem mais de 100 mil seguidores no Instagram. “As redes sociais ajudaram a impulsionar e democratizar um pouquinho essa conversa e a trazer novas narrativas. A moda no Brasil tem um lugar que durante muito tempo oprimiu o lugar do preto não só como intelecto, enquanto editores de moda ou um espaço de pensamento, mas também recriou as nossas imagens de moda no Brasil. Quando a pessoa preta atuava nesses espaços, ela caía no lugar do exótico, do estereotipado, ou de uma única história da negritude brasileira.” 

Das redes sociais, Luiza levou os temas representatividade racial e poder feminino para a revista Glamour Brasil, onde faz, desde 2008, a coluna Caixa Preta. A assinatura de Luiza Brasil está também em coleções com as marcas Aroeira Abe e Soleah. Projetos pertinentes com sua formação na área de Fashion Styling pela London College of Fashion Id. Neste sábado, 21, às 16h, ela será palestrante do TEDX São Paulo, com o tema Ideias Negras Importam

 

 

Outros destaques

Num ano com tanto destaque para as questões raciais, era impossível não falar das modelos Thayná Santos, de 25 anos, Natasha Soares, de 24, e Camila Simões, de 23, que entraram em 2020 para a história da São Paulo Fashion Week (SPFW) e da moda. Não foi porque elas bateram o recorde de desfiles, marca que tradicionalmente é comemorada nos bastidores. Thayná já tinha alcançado o posto de modelo que fez mais desfiles em 2013, sua primeira temporada no evento. No entanto, ela tem mais orgulho de, junto com Natasha e Camila, ter “invadido” uma live de Paulo Borges, criador e diretor criativo da SPFW. Em 6 de junho, elas cobraram um posicionamento da semana de moda mais importante da América Latina sobre equidade racial. Depois, estabeleceram um processo de diálogo com a organização e criaram o coletivo Pretos na Moda. O resultado da iniciativa delas foi a semana de moda de São Paulo implementar nesta edição a proporcionalidade racial

“É o feito mais importante da minha vida como pessoa e modelo. Não é uma questão só para mim, não mudou só a minha vida”, afirmou Thayná sobre a nova regra. No entanto, a modelo, que passou a infância no bairro do Itaim Paulista, na zona leste da capital paulistana, também celebra outras conquistas profissionais. Ela já atuou na Europa, mas se estabeleceu em Nova York. No currículo de nove anos na moda, tem trabalhos com o estilista Marc Jacobs; desfiles na New York Fashion Week; passarela da grife The Row, das gêmeas Mary-Kate e Ashley Olsen; campanha para a marca de maquiagem americana Smashbox.

Quando resolveu apostar na carreira de modelo, Camila Simões tinha 17 anos e estava terminando o curso de técnico em contabilidade e o ensino médio. Era vendedora em uma casa de agropecuária em sua cidade natal, Nova Era (MG). O dinheiro para pagar seu primeiro book foi emprestado pela avó, que tinha ganho três meses seguidos no jogo do bicho. Além da sorte da avó no jogo, a jovem continuou trabalhando como vendedora e saía do emprego mais cedo duas vezes por semana para fazer o curso de modelo. Apesar de toda a dedicação, Camila não acreditava muito no sucesso na moda. “Via com o meu amigo Johnatan os desfiles da Victoria’s Secret. Aquele mundo das supermodelos era algo surreal, inalcançável. Por isso, eu não almejava tanto essa carreira, um dos motivos era porque não enxergava a beleza em mim, principalmente sendo uma garota negra, pobre e desengonçada do interior de Minas Gerais. Hoje agradeço ao tempo, às mulheres que vieram antes de mim, ao meu esforço e ao meu círculo de amor e amizade, por me darem novas perspectivas de futuro.” Além de ser protagonista de uma trajetória impressionante, Camila também já foi capa das revistas Harper’s Bazaar e da francesa Madame Figaro.

Já a carioca Natasha Soares atualmente é modelo curvy e mora em Paris. Ela começou a carreira em 2017 e, desde então, trabalhou com Lancôme, Givenchy e Fenty, marca da artista Rihanna.

 

 

Negras na moda

 

 

  • Naomi Campbell

A britânica começou a carreira de modelo aos 15 anos e marcou a década de 1980. Foi a primeira mulher negra a aparecer nas capas das revistas Vogue e Time. Fez campanhas para grandes marcas, como Burberry, Prada, Versace, Chanel e outras. 

  •  Tyra Banks 

Foi a primeira mulher negra a assinar contrato com a Victoria’s Secret e usar em desfile da marca o Fantasy Bra, sutiã milionário feito com pedras preciosas. Hoje, aos 46 anos, a americana abre caminho para que modelos negras mais jovens, como a brasileira Laís Ribeiro, para que ocupem espaços ainda pouco diversos na moda. 

  •  Iman

Nascida na Somália em 1955, Iman se destacou como modelo nos anos 80 e seguiu trabalhando como atriz. Também é empreendedora na indústria de cosméticos, sua marca se posiciona como “maquiagem para a mulher de cor”. Aos 65 anos, ela é viúva de David Bowie, com quem se casou em 1992.

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