Rozette Rago/The New York Times
Rozette Rago/The New York Times

O que os personagens da Marvel comem? Livros de receitas da cultura pop têm as respostas

Livros introduzem receitas inspiradas em universos como o de 'Star Trek' e 'Game of Thrones'

Priya Krishna, The New York Times

08 de outubro de 2021 | 14h58

Chelsea Monroe-Cassel está desenvolvendo uma receita para um prato cuja versão tradicional ela nunca poderá saborear e cujo local de origem ela nunca poderá visitar: é a sopa Plomeek, comida típica do planeta fictício Vulcano. Para escrever The Star Trek Cookbook, que será publicado em março do ano que vem nos Estados Unidos, ela passou horas assistindo a episódios e filmes na sua casa em West Windsor, Vermont, tentando deduzir o que poderia estar na sopa avermelhada.

“Sabemos muito pouco sobre a culinária vulcana, mesmo que Spock seja o favorito dos fãs”, disse ela. Algumas pessoas acreditam que os vulcanos sejam vegetarianos, já que seu rígido código moral e o temor de sua própria capacidade de violência significariam a proibição de alimentos que exigissem abate. Mas será que esses argumentos se sustentam, ela se pergunta, num universo onde a carne pode ser produzida com máquinas? Resultado: “Um gaspacho frio com tomate, morango e um pouco de balsâmico”.

Monroe-Cassel, 36 anos, dedicou sua carreira a dar vida às comidas de suas séries, filmes e jogos favoritos. Ela escreveu A Feast of Ice and Fire: The Official Game of Thrones Companion CookbookThe Elder Scrolls: The Official CookbookFirefly: The Big Damn Cookbook e World of Warcraft: The Official Cookbook. Juntos, os títulos venderam mais de 250 mil cópias. Ela não tem formação de chef, mas é extremamente entusiasmada com a comida da cultura pop.

Para fãs como ela, “é um bom jeito, um jeito novo e tangível, de se conectar com um mundo que amamos”, disse ela.“Os videogames são uma forma de escapismo, os livros são uma forma de escapismo”, acrescentou ela, “e acho que esta é uma forma de escapismo que apela a outros sentidos”.

Receita pop

Este gênero de livro existe desde pelo menos os anos 1970, com títulos como The Dark Shadows CookbookThe Partridge Family Cookbook The Little House Cookbook, sobre o livro Little House on the Prairie. Mais recentemente, esses livros cresceram muito em popularidade e escala. Encontraram um público mainstream e passaram a trazer receitas que muitas pessoas realmente querem cozinhar.

À medida que as plataformas de streaming deixaram as mídias mais acessíveis e sociais, os fãs transformaram seu fascínio num verdadeiro estilo de vida. Monroe-Cassel, por exemplo, era apenas uma entusiasta da série Game of Thrones e tinha um blog chamado The Inn at the Crossroads antes de começar a escrever esses livros de receitas. Outros visitam o parque temático de Star Wars, posam no sofá Central Perk de Friends e fazem cosplay de Moira Rose de Schitt’s Creek.

“Na minha geração, para saber no que as pessoas estavam interessadas, você tinha que dar uma passada na sua coleção de discos ou na sua biblioteca”, disse Charles Miers, 62 anos, editor da Rizzoli New York. “Agora você pergunta a que programa de TV as pessoas estão assistindo”.

Embora os primeiros livros de receitas da cultura pop parecessem uma moda passageira, títulos como Sopranos Family Cookbook, de 2002, que vendeu mais de 142 mil cópias, e The Unofficial Harry Potter Cookbook, de 2010, com mais de 1 milhão de livros vendidos, mostraram que este poderia ser um gênero em si. Grandes editoras como a Penguin Random House têm equipes dedicadas a livros de cultura pop, que podem ter licença oficial da franquia ou não. Os livros de receitas abrangem tanto os temas mais óbvios (Bob’s Burgers, Ratatouille) quanto os mais surpreendentes (The Walking Dead, Hannibal).

À medida que as culturas de fãs se aprofundaram, esses livros de receitas também evoluíram. Menos prevalentes são aqueles que simplesmente batizam as receitas com os nomes dos personagens. Os livros de receitas da cultura pop de hoje são volumes bem pesquisados sobre seus mundos fictícios. Levam em conta os climas e as motivações dos personagens e preenchem lacunas nas narrativas. Os autores se debruçam sobre cada elemento – até os adereços nas fotos de receitas – para que os fãs possam se sentir totalmente imersos. “Para o bem ou para o mal, se uma marca não está publicando e se comercializando, ela não está tão viva quanto os fãs desejam”, disse Miers.

Gastronomia da Marvel

Quando a chef e escritora Nyanyika Banda começou a trabalhar no The Official Wakanda Cookbook, baseado nos quadrinhos do Pantera Negra, da Marvel, ela sabia que os fãs esperavam um alto nível de detalhes.

“Se tivéssemos escrito este livro quinze anos atrás, provavelmente poderíamos incluir muitas coisas de todo o continente africano, sem explicar por que elas estavam ali”, disse Banda, que tem 39 anos. “Mas agora existe essa necessidade de inventar receitas que façam referência direta” tanto aos quadrinhos quanto à culinária africana.

As receitas de Banda – como o chambo, um tradicional prato de peixe do Malaui – falam diretamente dos vários locais de Wakanda que aparecem no decorrer dos quadrinhos.

Banda considerou o papel que o colonialismo desempenhou para adicionar uma influência ocidental a certos pratos africanos e precisou explicar essa influência ao incluir essas receitas no livro – uma vez que Wakanda estaria isolada do resto do mundo. (Banda encontrou uma solução ao fazer referência a quadrinhos mais recentes, nos quais Wakanda se abre para o mundo). Essa abordagem está muito longe dos primeiros livros do gênero, que colocam pouca ênfase em receitas atraentes e narrativas complexas.

Investimentos

A ideia da autora Dinah Bucholz para The Unofficial Harry Potter Cookbook foi retirada da pilha de propostas rejeitadas da Adams Media e vendeu tão bem que inspirou um investimento maior neste tipo de títulos, disse Brendan O’Neill, o editor-in chefe da Adams.

Ele disse que a empresa escolhe propriedades de cultura pop para livros de receitas com base na profundidade, não na amplitude do fandom. “As pessoas podem adorar uma série como Survivor”, disse ele, “mas há uma certa desconexão entre isso e um fenômeno cultural e de envolvimento dos fãs que você vê em Harry Potter ou Os Simpsons”.

Bucholz disse que franquias de fantasia como Harry Potter e Game of Thrones funcionam bem para os livros de receitas porque as descrições dos alimentos tendem a ser bastante detalhadas. “Os autores claramente gostam de escrever sobre comida”, disse ela. “E escreveram sobre o tema com muito prazer. É uma parte muito importante da vida dos personagens”.

Como resultado, os fãs têm grandes expectativas para experimentar eles próprios todos esses alimentos.“É o problema de Nárnia”, disse Monroe-Cassel, que está escrevendo The Star Trek Cookbook. “Muitas crianças crescem lendo sobre o ‘manjar turco’ e pensando: ‘Eu tenho que comer um desses’, aí realmente comem o tal manjar turco e é uma grande decepção”.

“Acho que muitas pessoas compram os livros apenas porque são fãs e colecionadores”, disse Jennifer Sims, 47 anos, editora sênior da Insight Editions. “Mas aí você tem a outra metade que gosta de cozinhar e vai fazer uma receita por semana com o livro, ou então vai dar uma festa temática”.

Para alguns, o hábito vai além das receitas semanais. Rebekah Valentine, 30 anos, repórter da IGN Entertainment em Kansas City, Missouri, preparou todas as receitas dos livros de receitas World of WarcraftElder Scrolls e EarthBound. O hobby começou em 2016, quando ela fez, com muito sucesso, um peru do livro de receitas World of Warcraft que ela tinha ganhado de Natal. “Eu não tinha formação culinária nem experiência”, disse ela. “Mas o livro era muito bem escrito e bem explicado”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU.

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