Tomas Bravo/Reuters
Tomas Bravo/Reuters

O que levou 'Cem Anos de Solidão' a ser sucesso mundial

No 50º aniversário da obra, pesquisador diz que Gabriel García Márquez transcendeu estilos e conquistou público; ele prepara o livro 'Ascensão Para a Glória: A Transformação de Cem Anos de Solidão em um Clássico Global'

Alex Segura Lozano, EFE

05 de junho de 2017 | 06h00

A publicação de Cem Anos de Solidão, há 50 anos, foi cercada de uma série de conjunturas favoráveis que permitiram à obra atingir o Olimpo literário e ser considerada uma das mais importantes do século 20 

Em 5 de junho de 1967 a editora argentina Editorial Sudamerica publicou o livro que acabara de ser impresso em 30 de maio, de um autor colombiano residente no México pouco conhecido e que transformou o povoado fictício de Macondo em um lugar mágico para milhões de leitores do romance.

“No momento da sua publicação, uma coincidência de fatos  aplanaram o terreno para o futuro sucesso mundial desta grande obra” disse o pesquisador espanhol Álvaro Santana, que passou oito anos estudando o romance e no final do ano publicará seu livro Ascensão Para a Glória: A Transformação de Cem Anos de Solidão em um Clássico Global”.

Segundo Santana, doutor em sociologia pela Universidade de Harvard e pesquisador convidado do Harry Ransom Center de Austin, Texas, (que abriga o arquivo documentando a vida e a obra do escritor), a combinação de vários fatores no momento em que nasceu a obra foram determinantes para seu sucesso imediato.

Em1967 a indústria editorial espanhola alcançou seu auge em uma década, depois que, cinco anos antes, o ditador Francisco Franco abrandou a censura e abriu as portas para a publicação de grandes autores hispano-americanos, como Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa e José Donoso.

Além disso, em meados da década de 60 observou-se uma retração dos grandes estilos literários predominantes até então, incluindo o indigenismo latino-americano, considerado por demais regionalista, o realismo social espanhol, visto como previsível e dotado de uma linguagem austera, e o novo romance francês, criticado pelo tipo de prosa excêntrica. 

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Para o pesquisador, Gabo, como García Márquez era conhecido, criou uma narrativa em Cem Anos de Solidão que transcendia esses três estilos ao mesmo tempo, o que permitiu que diferentes públicos fossem unânimes em exaltar a originalidade da sua obra.

Na América Latina ela foi vista como um romance cosmopolita que se afastava do regionalismo indigenista; na Espanha o livro foi considerado um vulcão linguístico e pura fantasia, longe do austero linguajar do realismo social, e os leitores internacionais apreciaram a volta da narrativa mais clássica no romance, diferente do movimento francês.

Por último, também em 1967 o guatemalteco Miguel Ángel Asturias tornou-se o segundo autor latino-americano a receber o Prêmio Nobel de Literatura, depois de Gabriela Mistral (1945).

“Então, o que estava na vanguarda era o romance hispano-americano e Cem Anos de Solidão foi o grande best-seller em 1967 na América Latina, afirma Santana, que também é professor assistente no Withman College, no Estado de Washington.

Todos esses fatores prepararam o terreno para o rápido êxito do livro de García Márquez, que, se publicado dez ou vinte anos antes, “não teria alcançado tamanho sucesso de vendas” quando foi publicado, afirmou o pesquisador.

Era um trabalho de um autor “muito pouco conhecido” fora dos círculos literários da Argentina, Colômbia e México, que vivia em uma nação que não era a sua, e cujo país, a Colômbia, não tinha reputação literária internacional, e que narrava uma história muito complexa, repleta de personagens.

A pesquisa feita por Santana também focou na descoberta de sete capítulos esquecidos do livro, episódios soltos que o autor publicou para sondar o público antes de concluir o romance.    

García Márquez publicou esses sete capítulos, que representam mais de um terço do romance, em jornais e revistas que circulavam em mais de vinte países, para avaliar a reação dos leitores e assim aperfeiçoar seu relato, promover o livro e dissipar suas dúvidas quanto à qualidade do texto.

Esses sete capítulos caíram no esquecimento porque se acreditava serem idênticos aos publicados na primeira edição de 1967. Mas não foi o que ocorreu: desde a primeira página há mudanças na linguagem, na estrutura, na ambientação e descrição dos personagens.

“Por isto esses capítulos esquecidos são de um grande valor literário para entendermos como foi escrito o romance”, disse o pesquisador, para quem o perfeccionismo de García Márquez como escritor foi o que mais o impressionou nos seus anos de pesquisa.

Tradução de Terezinha Martino 

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