MARCOS DE PAULA/ESTADÃO
MARCOS DE PAULA/ESTADÃO

O professor Silviano Santiago lança romance baseado na vida do autor de 'Dom Casmurro'

Por que Machado teria lutado pelo ingresso de Mário de Alencar na Academia Brasileira de Letras? Santiago trabalha com hipóteses sobre o escritor

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2016 | 05h00

O livro começa com uma epígrafe de Sartre sobre Flaubert, sobre quem escreveu uma obra-prima, O Idiota da Família, estudo considerado pelo filósofo um romance sobre o autor de Bouvard e Pécuchet. Sartre defendia que o escritor é sempre um homem com necessidade de certa dose de ficção.

Com ele concorda o premiado autor mineiro – agora mais carioca – Silviano Santiago, que lança hoje (12), às 19 h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, Rio, um romance sobre ninguém menos que Machado de Assis, o fundador da Academia Brasileira de Letras. O título? Machado.

Sartre passou 15 anos pesquisando a vida de Flaubert para descobrir a origem de sua neurose – uma mãe gelada como o Ártico e um pai tirano como Átila, ambos desconfiados de que criavam um filho com retardo mental. Silviano Santiago, que completou 80 anos em setembro, passou a vida toda estudando a obra de Machado de Assis, que, a exemplo de Flaubert, era epilético.

Flaubert se dizia histérico como sua madame Bovary. Mas as crises nervosas que acometeram o francês também atingiram Machado. E é com uma delas, convulsiva, que o livro de Santiago começa.

Machado estava caminhando pela estreita rua Gonçalves Dias, no Rio, quando teve uma convulsão epilética ao lado do também escritor Carlos de Laet (1847-1927), hoje mais lembrado como um monarquista que se opôs à República em seu nascedouro – e, posteriormente, aos modernistas da Semana de 1922.

O leitor descobrirá nas páginas seguintes que não era o único alpinista literário a cercar Machado. Outro personagem, o também escritor (medíocre) Mário de Alencar (1872-1925), filho do cearense José de Alencar, autor de Iracema, vai ocupar mais páginas que Laet no romance de Santiago.

Por que Machado teria lutado pelo ingresso de Mário de Alencar na Academia Brasileira de Letras? Santiago trabalha com hipóteses sobre o escritor, oficialmente filho de José de Alencar, mas prioriza o fato de Machado ter adotado Mário como um filho, após ficar viúvo de Carolina Augusta (1835-1904). O casal não teve herdeiros, mas suspeita-se que Mário da Alencar fosse, na verdade, fruto de uma relação extraconjugal do autor de Dom Casmurro.

A vida, enfim, imita a arte literária, um exercício maior de imaginação. Santiago fala em “simbiose entre corpo e linguagem” para explicar a invenção de “personagens autênticos, verossímeis” como aqueles criados por Flaubert ou Machado. No caso do francês, ninguém duvida: ele era, de fato, madame Bovary em pessoa.

Como os personagens de Machado andam sempre em dupla amorosa – como observa Santiago no livro – não é difícil imaginar em quem ele se projeta.

A proposta literária machadiana, segundo Santiago, “é convulsiva por natureza, eximindo-o da obediência à tradição oitocentista do realismo”. Vida e arte se imbricam em Machado, a tal ponto que também no romance de Santiago o autor se identifica com seu personagem e o incorpora num transe mediúnico. Enfim, uma persona surrealista a seguir os passos de Breton em Nadja, admite. Santiago e Machado, define o primeiro, são companheiros de caminhada.

Santiago poderia ter escrito um ensaio – e ele escreveu ensaios brilhantes sobre grande escritores –, mas preferiu o gênero romance para tratar de Machado. “É meu legado, num estilo convulsivo, e também meu tributo ao Rio de Janeiro, que me acolheu tão bem”. Mineiro de Formiga, filho de um enérgico pai viúvo, que nunca comemorou o aniversário do garoto, Santiago sabe o que significa um mentor, como Machado foi para Mário de Alencar – epilético como o seu protetor, o que fortalece os laços entre os dois. “Lembro de Alexandre Eulálio, que representou esse papel de mentor em minha vida”, diz.

Santiago, aos 80 anos, fala de solidão com propriedade, lembrando que Machado, depois da morte de Carolina, se viu só com duas criadas e o “filho” Mário de Alencar, que, abatido pela enfermidade crônica, quer curar a si mesmo, no melhor estilo homeopático – Santiago lembra que o sogro de José de Alencar foi o introdutor da homeopatia no Brasil. Já para Machado, a sua doença era tabu (e não é por acaso que ele escreveu A Causa Secreta, assinala Santiago). Ele trata também de outro tema interdito em sua vida, a discriminação racial pelos parentes de Carolina.

Além de evocar Breton e a última frase de Nadja – “a beleza será convulsiva ou não será” – Santiago recorre a um artifício usado pelo escritor alemão W.G. Sebald (1944-2001) para explorar a problemática relação de Machado com as transformações urbanísticas do Rio: ilustra com fotos de época a cidade que virava moderna enquanto o autor envelhecia.

O filho que o ‘bruxo de Cosme Velho’ adotou

Companheirismo que existiu entre Machado de Assis e José de Alencar afirma-se na figura de Mário, defende o autor

Muito mais que um exercício de imaginação, colocar-se no lugar do outro é um pouco sentir a vertigem do semelhante – e, no caso de Machado de Assis, essa “vertigem” se traduz nas “crises nervosas” que se tornaram frequentes após a morte de sua mulher Carolina, com quem foi casado durante 35 anos. Recém-viúvo e sem filhos, Machado de Assis encontra na figura de Mário de Alencar mais que um interlocutor. Encontra um filho, cuja candidatura à Academia Brasileira de Letras patrocina.

Mário de Alencar veio a ocupar, em 1905, a vaga aberta pela morte de José do Patrocínio. Os jornais, especialmente O País, desaprovaram a escolha. O Malho publicou uma caricatura do escritor vestido como um escolar e uma cartilha sob o braço esquerdo. Machado, reflete Silviano Santiago, talvez tenha incentivado o filho espiritual a se candidatar à vaga da Academia para que “Mário se redimisse da culpa que sofria por ser autor medíocre e não estar à altura do pai, José de Alencar”.

Mário, embora visitasse regularmente o mentor – quase todos os dias, conforme deixou registrado –, invejava Machado, ainda segundo o romance de Santiago. A doença que mantinha pai e filho espiritual unidos não oferecia, segundo o autor, a possibilidade da “simetria encontrada na bela amizade” entre o escritor mais velho e o mais moço. Machado era introvertido, Mário, extrovertido. Eram tipos antagônicos unidos na doença – eles se tornam semelhantes por causa dela, defende Santiago, definindo-os como “dois Prometeus melancólicos”.

A análise dessa relação dramática e da compreensão do significado real da doença de ambos passa, no epílogo do romance, pela leitura dos Evangelhos. Santiago retrata Machado a consultar a versão de Marcos da história do epilético endemoninhado. Tenta imaginar o choque que o bruxo de Cosme Velho teve com o estilo brutal do evangelista. Machado nem ousaria descrever da mesma forma a cena de um espírito se apoderando de um pobre garoto epilético, espumando e rangendo os dentes diante de Jesus. Mas Santiago, que já se colocou no lugar de Graciliano Ramos no diário ficcional Em Liberdade, é capaz de se apresentar como alter ego de Machado e escrever um romance em que dá prioridade à interpretação.

Por vezes ensaístico, Machado é um romance transgressor. O autor de Memorial de Aires é apresentado como um naturalista que se aproveita dos clássicos para antecipar a linguagem dos surrealistas, em busca da “beleza convulsiva” numa cidade que se moderniza e empurra o “bruxo de Cosme Velho” para o abismo, ‘um self made man’ vindo do morro do Livramento que superou a pobreza, mas não os preconceitos de uma capital que copiava Paris.

 

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