Acervo Pessoal/Divulgação
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O potencial de inquietação das obras de José J. Veiga

Sua produção literária está sendo resgatada com a edição de ‘Os Cavalinhos de Platiplanto’ e com ‘A Hora dos Ruminantes’

Wilson Alves-Bezerra, Especial para O Estado de S. Paulo

18 Julho 2015 | 03h30

Uma cidade inteira tomada por bois, que, de um dia para o outro e sem razão aparente, invadiram o povoado. Com naturalidade, as crianças chegam a um paliativo: “Se não fosse a diligência dos meninos, que inventaram um jeito de andar por cima dos bois, as famílias teriam ficado sitiadas em casa, sem meios de comunicação com parentes e amigos. Descalços e munidos de uma vara tendo numa ponta uma plaquinha acolchoada, os meninos subiam numa janela, daí passavam para o lombo de um boi, e utilizando a vara como escora iam navegando por cima deles, transmitindo e recebendo recados e encomendas, apostando corridas uns com os outros”. Fragmentos como este, do romance A Hora dos Ruminantes (1966), do goiano José J. Veiga (1915-1999), é que permitiram a comparação, por parte de muitos leitores, com o realismo maravilhoso do colombiano García Márquez (1927-2014): a naturalidade com que o narrador conta um fato insólito, aceito também, com alguma resignação, pelo povoado.

Afora o fato de Cem Anos de Solidão (1967) ser posterior ao livro de Veiga, o goiano afirmava peremptório: “A minha literatura é uma literatura realista: nem fantástica, nem mágica”. Ora, não se pode negar o insólito de seu texto, mas tampouco cabe reduzi-lo ao exotismo. O chão em que se movem os personagens de Veiga é mesmo da melhor tradição regionalista brasileira, que destaca a picardia do homem rústico e seu proceder, mas não vista da perspectiva do homem urbano e culto, e sim de um igual; segue, portanto, na esteira do gaúcho Simões Lopes Neto (1865-1916) e do mineiro Guimarães Rosa (1908-1967). A linguagem da oralidade é trabalhada em suas ambiguidades e em sua poesia. Porém, no caso de Veiga, alguns elementos sobressaem: a produção de uma tensão coletiva, gestada no âmbito de comunidades rurais à margem da modernização do século 20. Neste contexto: o estrangeiro/estranho prevalece: a chegada de um forasteiro, o relato em forma de sonho, um mistério que ficará sem solução ao final da narrativa. Ou seja, não se trata de um García Márquez brasileiro, mas de um contemporâneo seu, com outras particularidades e complexidades. Para dar-lhe o lugar devido, melhor recorrer à própria epígrafe de seu livro de estreia, a qual coloca em cena tanto o binômio realismo insólito quanto suas leituras hispânicas: “Hablo de cosas que existen; Dios me libre de inventar cosas cuando estoy cantando!”. (Neruda).

A obra de Veiga está sendo finalmente resgatada, com os contos de Os Cavalinhos de Platiplanto (1959) e o romance A Hora dos Ruminantes (1966). As narrativas do livro de estreia são ambientadas em algum “simpático lugarejo”, para citar o próprio narrador de um dos relatos, onde todos se conhecem e tudo está submetido à vox populi. Há textos memoráveis, em que o efeito do fantástico se deve à exploração da psique nos termos propostos por Freud: sonhos, livres associações, deslocamentos significantes, etc. 

O conto A Usina Atrás do Morro mostra a chegada de um casal de estrangeiros que não se relaciona com os locais e, portanto, passa a ser objeto de toda classe de fantasia da comunidade. É um mecanismo semelhante ao utilizado pelo argentino Cortázar (1914-1984) em seu conto de estreia, Casa Tomada (1946): há algo do outro lado da parede, que ganha as dimensões do medo das personagens (e do leitor). São tais espaços vazios que terminam levando alguns leitores afoitos a fazer leituras alegóricas, políticas, etc. A mestria de Veiga, no entanto, consiste justamente em sustentar a lacuna para permitir as projeção dos leitores suscetíveis.

O romance A Hora dos Ruminantes (1966) lança mão do mesmo expediente: a chegada de forasteiros inquieta a comunidade; são cargueiros que fazem uma tapera do outro lado do rio, perturbando a cidadezinha de Manarairema. O narrador mostra os conflitos e as tensões entre os moradores afetados. Diferentemente do conto, o romance permite uma melhor caracterização mais apurada dos personagens, e cada um deles é sutilmente apresentado por seu modo de ser, falar e agir: o carroceiro Geminiano, homem outrora orgulhoso e seguro de si e que, contratado pelos forasteiros, se perturba depois de sucessivos fretes: “- Tem jeito não, Didério. Vou levar a areia. Tenho de levar. É minha sina”. O valentão Amâncio, assim definido por um vizinho: “Amâncio Mendes era uma cruz que Manairema tinha de carregar com paciência”; o Padre Prudente que, ignorado ao cumprimentar os cargueiros, reage: “O padre então cumprimentou, não para ensinar, mas para não passar por orgulhoso” e assim por diante. Seria possível dizer que as invasões de cachorros e bois que acontecem em momentos diferentes do livro são manifestações diversas de um mecanismo caro ao autor: a desestabilização do cotidiano pelo insólito.

Quem ganha com a volta de José J. Veiga não é sua memória, mas nós, leitores: suas narrativas trazem, elas mesmas, um potencial de inquietação raro em nossas letras, como se vê no luminoso trecho do conto Tia Zi Rezando: “Agradeci àquele cachorro desconhecido por estar vivo naquele momento, e voltei a pensar em mim mesmo, talvez por alguma secreta associação de ideias”.

A HORA DOS RUMINANTES
Autor: José J. Veiga
Editora: Companhia das Letras (152 págs., R$ 34,90; R$ 23,90 o e-book)

OS CAVALINHOS DE PLATIPLANTO

Autor: José J. Veiga

Editora: Companhia das Letras (160 págs., R$ 34,90; R$ 23,90 o e-book)

WILSON ALVES-BEZERRA É ESCRITOR, TRADUTOR E PROFESSOR DE LETRAS DA UFSCAR

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