WALTER CRAVEIRO/DIVULGAÇÃO
WALTER CRAVEIRO/DIVULGAÇÃO

'O Poder do Sim’ busca explicações para o colapso de 2008

Livro de David Hare aborda a história da crise econômica que se alastrou pelo planeta

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2020 | 06h00

Em 15 de setembro de 2008, o mundo econômico parou – quase implodiu. Naquela que foi uma das piores segundas-feiras na história do mercado financeiro global, o banco Lehman Brothers, então um dos maiores dos Estados Unidos, pediu concordata e sua ação desabou 94,25%. Foi o estopim de uma crise que logo se alastrou pela planeta. O motivo da derrocada do Lehman Brothers, que fez explodir a bolha imobiliária americana, foi aumento da inadimplência no crédito imobiliário, ou seja, inúmeras pessoas que fizeram empréstimos a juro baixo para a compra da casa própria não conseguiam mais pagar as prestações quando esses juros chegaram a triplicar. 

O colapso daquele banco despertou medo nas pessoas que, correntistas de outras instituições, correram às agências a fim de resgatar seu dinheiro. Isso colocou em risco todo o sistema financeiro, que ameaçou ruir como peças de dominó. “Foi o dia em que o capitalismo deixou de funcionar”, observa o dramaturgo, diretor e roteirista inglês David Hare que, convidado pelo National Theatre de Londres a escrever uma peça que ajudasse a entender o assunto, criou O Poder do Sim, que ganha agora uma bem cuidada edição pela editora Temporal. Mais que um trabalho rotineiro do teatro, a peça é também um exercício de dramaturgia.

Com muitas dúvidas sobre os acontecimentos – como, aliás, boa parte da população do planeta –, Hare iniciou um trabalhoso processo de pesquisa, entrevistando o máximo possível de pessoas que estiveram, direta ou indiretamente, ligadas ao acontecimento. É justamente esse método que resultou no conteúdo da peça: em O Poder do Sim, o dramaturgo torna-se um personagem, que se envolve com figuras do mercado financeiro (economistas, banqueiros, jornalistas, etc.) a fim de detalhar as causas daquele colapso.

O Poder do Sim fica, desse modo, a meio caminho entre um diálogo ficcional e uma sequência de relatos e depoimentos documentais, os quais se acumulam e ficam ressoando, sem conduzir a uma síntese”, diz o texto do prefácio do livro, que traz, aliás, um excelente material de apoio: um texto da professora da USP Anna Stegh Camati sobre a dramaturgia verbal de Hare, que se encaixa no chamado teatro verbatim, e um posfácio assinado pela economista Leda Maria Paulani, que mostra como o teatro documental permite retratar o real na chave do absurdo e do irracional. De quebra, o volume traz ainda minibiografias dos principais personagens e um glossário de termos econômicos, personalidades e instituições financeiras.

Aos 72 anos, David Hare é conhecido pelo tom político de seus textos, que apostam no social. Autor de mais de 20 peças que retratam a história recente da Inglaterra, ele iniciou a carreira em 1968, mas foi nas décadas seguintes que ganhou projeção – 16 de suas peças foram produzidas pelo National Theatre, sempre com forte tom político para tratar de assuntos que vão da Igreja até o Partido Trabalhista inglês. Entre seus principais títulos, destacam-se Plenty (1978), The Secret Rapture (1988), Amy’s View (1997), The Judas Kiss (1998) e The Vertical Hour (1996) – algumas peças foram encenadas no Brasil (veja mais abaixo). 

Para Hare, O Poder do Sim não é uma peça, mas uma tentativa de contar uma história, uma espécie de jornada intelectual em que ele busca descobrir os motivos pelos quais, naquele dia de setembro, o capitalismo deixou de funcionar. Daí a importância de um dramaturgo entre os personagens principais: à sua frente, surgem atores que interpretam figuras reais que trabalharam em bancos, finanças e no governo – em cena, eles explicam (ou tentam) os motivos que resultaram naqueles eventos. Personalidades que vão do financista George Soros ao acadêmico vencedor do Prêmio Nobel Myron Scholes.

Soros, aliás, é preciso ao apresentar os motivos que explicam uma certa despreocupação dos banqueiros, mesmo à beira da falência: segundo ele, os vencedores do sucesso financeiro em tempos de triunfo nunca serão os perdedores em tempos de dificuldades. 

Outro momento revelador (e extremamente engraçado) é quando se desnuda uma das cenas mostradas pela televisão e que davam o contorno da tragédia: funcionários da Lehman Brothers deixando a empresa carregando caixas contendo, acreditava-se, documentos pessoais. Segundo um ex-funcionário, tratava-se, na verdade, de chocolates e sanduíches, que as pessoas compraram rapidamente, a fim de usar seus ainda válidos tickets de almoço.

Convidado da Festa Literária Internacional de Paraty em 2015, Hare pretende mostrar que, por trás dessa confusão, surge uma completa falência intelectual. O título da peça, aliás, parece vir da capacidade de banqueiros e financiadores de dizer “sim” a qualquer situação que lhes daria mais dinheiro, mesmo quando conheciam os esquemas, como as hipotecas que derrubaram a Lehman Brothers. Como diz Chuck Prince, diretor do Citibank: “Enquanto a música estiver tocando, você tem de se levantar e dançar”.

O PODER DO SIM

Autor: David Hare

Tradução: Clara Carvalho

Editora: Temporal 

(184 págs., R$ 60)

Palcos brasileiros já receberam suas peças

Grandes artistas, como Beatriz Segall, Nathalia Timberg e Adriana Esteves, encenaram os principais trabalhos​

O teatro de David Hare não é totalmente desconhecido do público brasileiro – nos últimos 20 anos, algumas de suas principais peças foram encenadas no País. Em 2001, por exemplo, José Possi Neto dirigiu um elenco de primeira linha (encabeçado por Beatriz Segall, Adriana Esteves e Marcello Antony) no drama Ponto de Vista.

A trama apresenta uma mulher e seu genro em confronto entre o teatro, defendido por ela, e outras formas de comunicação, preferidas por ele. No meio da competição, surge a filha, dividida entre os dois. 

Foi naquele início dos anos 2000 que Hare escreveu Sopros de Vida, peça especial para duas das maiores atrizes de seu país: ‘Dame’ Judi Dench ganhou o papel de Frances, a mulher que é traída por 25 anos pelo marido; e ‘Dame’ Maggie Smith era Madeleine, a amante. O encontro das duas, já maduras, quando o homem que dividiam já estava com uma terceira amante, bem mais jovem, é marcada por um diálogo pouco convencional, dadas as circunstâncias. Na versão brasileira, montada em 2010, outras duas grandes atrizes: Nathalia Timberg foi Madeleine e Rosamaria Murtinho viveu Frances. Finalmente, Christiane Torloni encenou Blue Moon, em 2003, novamente com direção de Possi Neto. 

Hare é mais conhecido, porém, por sua participação no cinema – ele assinou o roteiro adaptado de duas grandes produções, As Horas, de 2003, e O Leitor, de 2009, pelos quais foi indicado para o Oscar.

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