CHICO CERCHIARO
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O perfeito manual contra a obviedade por Ruy Castro

Livro ‘Trêfego e Peralta’ festeja os 50 anos de atividade jornalística do autor com textos que ainda guardam frescor

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2017 | 06h00

Para comemorar os 50 anos de atividade jornalística de Ruy Castro, sua mulher, a também escritora Heloísa Seixas, selecionou meia centena de artigos que, juntos, formaram o volume Trêfego e Peralta, lançado recentemente pela Companhia das Letras. O subtítulo é elucidativo: 50 Textos Deliciosamente Incorretos. De fato, ao reunir um punhado de artigos que abrilhantaram as páginas de diversas publicações brasileiras (como o Estado, para o qual Ruy escreveu durante 13 anos seguidos), o volume traz uma marca que é motivo de orgulho para seu autor: “Estão ali artigos, entrevistas, crônicas, reportagens, ou seja, as várias formas de se fazer jornalismo”, comenta. “Sempre busquei escrever a partir de um ponto de vista original.”

De fato, de cigarros, drogas e mulheres-objeto a entrevistas definitivas com figuras tão díspares como o colunista Ibrahim Sued e o escritor Millôr Fernandes, os temas parecem infinitos para a curiosidade de Castro, cuja primeira matéria assinada na grande imprensa (um texto sobre os 30 anos de morte de Noel Rosa, em maio de 1967, no Correio da Manhã, do Rio) curiosamente não consta no livro. Mas o leitor dele não se lembrará ao virar a última página, confortado com a variação de temas que compõe o volume.

Castro, por exemplo, revela sua destreza ao enfrentar tubarões como Ibrahim Sued e o ex-presidente Jânio Quadros, hábeis em driblar repórteres incautos, seja com despistes, seja com a simples negação. “Dei uma sacaneada em Jânio e suas mesóclises”, diverte-se ele, ao se lembrar de Jânio Ergueu um Olho, publicado na Folha de S.Paulo em 1983. Aliás, a última pergunta é justamente sobre a controvertida frase atribuída a Jânio: “Fi-lo porque qui-lo”. A resposta é hilária, mas vá ao livro – aqui não há lugar para spoilers.

A preparação para as entrevistas, aliás, era espartana, especialmente para as longas conversas depois publicadas em revistas como Playboy e Status. Ruy conta que lia absolutamente tudo o que existia sobre o entrevistado, buscando descobrir principalmente como eles fugiam de determinados assuntos. “Tentava assimilar o que se passava na cabeça da pessoa”, conta ele que, em seguida, preparava um questionário com 300 a 400 perguntas, todas com possibilidade de resposta. “Assim, se o entrevistado respondesse de tal forma, a questão seguinte seria de um jeito; se respondesse de outra, a nova pergunta também seguiria outro caminho.” As conversas duravam no mínimo seis horas, às vezes em dias separados, e cuja transcrição ocupava pelo menos 50 laudas, que seriam reduzidas a 20, quando finalmente Ruy chegava ao texto final.

E, durante as conversas, era preciso um alto poder de concentração – basta acompanhar a conversa com Ibrahim Sued, um dos mais famosos colunistas sociais da história da imprensa brasileira, amigo de políticos e ricaços, que lhes forneciam valiosas informações. A entrevista, publicada na Playboy em 1981, aconteceu no barulhento escritório do cronista, cuja atenção era repetidamente desviada (de forma proposital?) por funcionários e telefonemas. 

Mas Ruy consegue apresentar um Ibrahim Sued nada ignorante, contrariando a fama que muitos lhe impunham, revelando frases lapidares como “O jornalista é forte e poderoso pelo mal que pode fazer, e não pelo bem que ele faz”. “Ibrahim detinha um valioso conhecimento sobre os poderosos que frequentavam a noite carioca. Ele sabia os podres e também sabia que eles sabiam disso. Por isso, havia um acordo tácito de um fornecer notícia em troca do silêncio do outro.”

Em outra entrevista memorável, com Millôr Fernandes, Ruy questiona como ele exercia (e bem) tantas atividades. Millôr: “É a mediocridade do País que me faz tão talentoso. Aliás, este País é tão medíocre que é espantoso que não tenha mais talentos”. Trêfego e Peralta comprova o alinhamento de Ruy Castro ao lado de Millôr entre figuras talentosas. Qualidade que ele agora exercita na pesquisa que faz para o próximo livro, sobre o Rio de Janeiro dos anos 1920. “Escrevi sobre várias décadas, menos essa, que agora me desperta a curiosidade”, explica ele, que pretende lançar a obra em 2019.

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