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Donald Barthelme é lembrado com edição de 'O Pai Morto'

Livro do escritor norte-americano foi lançado há 40 anos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

31 Outubro 2015 | 03h00

Donald Barthelme (1931-1989) viveu pouco, mas intensamente. É provável que sua vida tivesse o prazo de validade prorrogado se não fumasse e bebesse tanto, mas Barthelme, que morreu de um câncer pulmonar, aos 58 anos, nasceu para contestar o pai, um arquiteto bauhausiano que construiu a própria casa. O pai imaginou para o filho um futuro acadêmico, mas teve de engolir suas collages literárias, que marcam o advento da pós-modernidade na literatura norte-americana. Embora fosse ligado à vanguarda da arquitetura em sua época, era um tanto conservador e teve discussões violentas com o filho sobre a desconstrução literária do rebelde Barthelme, que fugia da escola para ouvir Lionel Hampton nos clubes de jazz.

Com esse histórico não é de admirar que Barthelme, aos 44 anos, se vingasse ao publicar O Pai Morto, romance lançado nos EUA em 1975 e só agora traduzido no Brasil. O leitor vai encontrar vários autores num só livro, o que o cínico Barthelme justificou, numa entrevista, como um “approach mercantil” da literatura alheia para descobrir o que outros escritores fazem de melhor e, naturalmente, se apropriar desse tesouro. Entram nesse jogo de desconstrução desde Rabelais – o pai do título é um gigante com perna mecânica – a Thomas Pynchon, passando por Kafka e Beckett. Em compensação, autores contemporâneos como David Foster Wallace (1962-2008) não teriam existido sem Barthelme.

O princípio artístico de O Pai Morto é mesmo o da collage dadaísta, que encontrou em Schwitters sua apoteose. Barthelme foi um escritor extremamente visual – chegou a dirigir o Museu de Arte Contemporânea de Houston nos anos 1960, depois de passar pelo jornalismo e antes de virar professor de escrita criativa. A collage, dizia ele, marcou definitivamente o século 20, fragmentado pelas guerras, pela filosofia existencialista, o cubismo e os massacres promovidos pelas grandes potências. Isso justificaria a justaposição de papéis que, em O Pai Morto, se revela em sua plenitude com o enxerto de um conto do próprio Barthelme (A Manual for Sons/Um Manual para Filhos).

De maneira muito sintética, O Pai Morto é a jornada do pai – com maiúscula e minúscula. Gigante carregado por seus filhos – uma turma de aloprados numa expedição liderada pelo casal Thomas e Julie –, ele esbarra em todos os pais confundidos com deidades na grande literatura, especialmente em Kafka. O pai do livro de Barthelme não se mostra um bom pai. O autor sugere que ele, ao contrário, é mesquinho, ciumento, hedonista e um tanto orgulhoso de seu poder tirânico, capaz de ressuscitar animais, mas incapaz de perceber que o sentido da jornada não é o de chegar ao fim rejuvenescido. Na verdade, essa expedição pode ser para enterrar esse pai (ou Pai), morto por Nietzsche e os existencialistas.

A justaposição retórica em O Pai Morto serve a um propósito: inverter papéis que, na vida concreta – ou na sobrenatural –, não são intercambiáveis. Um filho não pode, no sentido mais profundo da palavra, se tornar pai. Muito menos com maiúscula. Barthelme explora essa impossibilidade também em seu último livro, The King (O Rei, publicado em 1990, um ano após sua morte) em que transporta os cavaleiros da Távola Redonda para o epicentro da 2.ª Guerra. A questão não é mais o cálice sagrado, substituído pela bomba atômica, o que faz o rei Arthur desistir de sua jornada, concluindo que essa não é uma arma de cavaleiros honrados.

Ler Barthelme é como ver um filme de Buñuel: melhor não usar a chave da razão para abrir portas. Ele tem antecedentes: na poesia de Mallarmé e Kleist, na alegoria de Lewis Carroll e no gosto amargo das parábolas de Max Frisch. Empurrado por esses seus ancestrais espirituais, ele chega à modernidade também pela pintura, encontrando nas telas abstratas de Ad Reinhardt o mote minimalista que precisava para construir sua collage formal – ele foi pioneiro em inserir desenhos para ilustrar situações do texto.

Barthelme tinha afinidade com a cultura pop, notadamente heróis de quadrinhos como Batman ou desenhos animados (Branca de Neve, que, em sua versão, ganha contornos eróticos). Isso, porém, não significa que a sua é uma literatura fácil. O Pai Morto é um livro complexo. Saul Bellow não aprovava seu estilo. Achava que Barthelme tinha dificuldade de expor sentimentos. E é verdade. Ele mesmo reconhecia ser incapaz de oferecer muita emoção ao leitor. Pode, enfim, desapontar os que amam Below.

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