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'O ódio sexual não diminuiu, após 40 anos', diz John Irving

Autor fala sobre como continua atual seu livro ‘O Mundo Segundo Garp’, escrito em 1978 e que traz um transgênero

John Irving, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2018 | 06h00

Concordo que Roberta Muldoon, a mulher transgênero em O Mundo Segundo Garp, é a mais simpática e menos dissoluta personagem no romance. Ela é também minha heroína pessoal. Miss Frost, de Em Uma Única Pessoa, surgiu de Roberta. Estava escrevendo uma nova introdução de O Mundo Segundo Garp para o aniversário de 40 anos desse romance. Fazendo um retrospecto - desnecessário dizer que Garp evoca a pior das situações ou que sou um escritor fatalista, mas entre 1972 e 1975, eu era professor na Writer’s Workshop em Iowa e foi quando comecei a escrever Garp -, estava preocupado que o tema do ódio sexual (da intolerância para com minorias sexuais e diferenças sexuais) ficaria obsoleto antes de eu terminar o livro. Em 1976-77, quando vivi em Massachusetts e Vermont, época em que terminei o livro, era inconcebível para mim que a violência sexual que estava descrevendo iria durar tanto tempo. Em resumo, achava que a discriminação sexual era algo excessivamente retrógrado e estúpido para durar.

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Em 1978, quando Garp foi publicado, acreditava que era uma obra de época. É um romance inflamado e cômico - um romance feminista e uma ode ao movimento feminista que é ao mesmo tempo exaltado e satirizado. Mas, acima de tudo, era um romance de época. Estava errado. O Mundo Segundo Garp não é presciente, mas o ódio sexual não desapareceu. E não é bom que ainda seja uma obra relevante. Deveríamos nos envergonhar do fato de a intolerância sexual ser ainda consentida, mas é o que ocorre.

No início e meados da década de 1970, quando estava escrevendo Garp, achava que meu país jamais ficaria dividido novamente como estava então. Estava errado. Em 1968, Nixon foi eleito prometendo pôr fim à Guerra no Vietnã. Mas não cumpriu de imediato. Quando Saigon caiu, em 1975, Nixon, envolvido num processo de impeachment, renunciou ao cargo. Naturalmente ele jamais deveria ter sido eleito. Isso lhe soa familiar?

Hoje, temos o presidente Trump - um narcisista vulgar, um xenófobo fanfarrão e fascista. Em outubro de 2017, o secretário da Justiça Jeff Sessions decidiu que cidadãos transgêneros não têm proteção contra a discriminação no local de trabalho. Ele argumentou que a proibição, no Título VII da Constituição, sobre discriminação sexual, “não contempla a discriminação baseada em identidade de gênero, incluindo a condição de transgênero”. Diversos tribunais de recursos federais decidiram contra essa guerra do secretário da Justiça contra a comunidade LGBTQ. Mas o presidente Trump e o Departamento de Justiça são claramente hostis aos direitos dos membros dessa comunidade. O que Roberta diria?

Vivemos num mundo de intolerância do ponto de vista sexual. É por isso que esse romance escrito há 47 anos não está ultrapassado, mas deveria. O Mundo Segundo Garp foi escrito numa época que achava muito triste. E hoje não vivemos um tempo triste também? Meu país não está mais dividido hoje do que quando estava escrevendo Garp? Eu me lembro praticamente todos os dias de uma frase do Rei Lear, de Shakespeare, em que Edgar, no fim da peça, afirma: “O peso desse triste tempo temos de obedecer. Falar o que sentimos, e não o que devemos”. É verdade que O Mundo Segundo Garp é um romance de protesto. Mas, quando eu o estava escrevendo, jamais pensei que ainda estaria protestando 40 anos depois.

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