Rick Wilking/Reuters
Rick Wilking/Reuters

‘O negócio do livro não vai voltar a ser como era há 10, 20, 50 anos’, diz Mike Shatzkin

Para o consultor americano Mike Shatzkin, não se pode administrar uma livraria do mesmo jeito quando mais da metade das pessoas que ainda leem livros impressos não consideram ir até uma loja para comprar livros

Entrevista com

Mike Shatzkin

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

27 de dezembro de 2018 | 03h00

Mike Shatzkin acompanha o mercado editorial americano e internacional há mais de 40 anos, período em que o negócio do livro passou por inúmeras mudanças. As transformações seguem chacoalhando livrarias e editoras as redor do mundo, e as incertezas que pairam sobre as empresas brasileiras são antigas conhecidas nos EUA, que em 2011 assistiu ao colapso da Borders, rede de livrarias com lojas espalhadas também pelo Reino Unido e outros países. Procurado pelo Estado para comentar o momento pelo qual o setor passa e para sugerir o que o mercado brasileiro poderia aprender com o internacional, ele disse: “Eu gostaria de oferecer algum consolo, mas receio não poder oferecer nada”. 

O que está acontecendo no mundo do livro?

Duas coisas estão acontecendo simultaneamente. Mais e mais leituras estão sendo feitas nas telas. E o que tem sido lido em papel é cada vez mais comprado online e não numa loja do varejo. Essa mudança ocorreu por muitas razões, mas ela é inexorável e há um longo caminho até que se encontre um equilíbrio. Muitas vezes, poder escolher entre todos os livros do mundo e ter o livro entregue em casa é um jeito mais eficiente de comprar para mais pessoas do que sair para procurar alguma coisa numa livraria física e escolher a partir de uma pequena oferta de títulos potenciais. E depois ter que carregar o livro com você quando você pode estar ou não estar indo para casa e pode ter ou não ter outras coisas para carregar. Não é “culpa” de ninguém, mas não se pode administrar uma livraria do mesmo jeito quando mais da metade das pessoas que ainda leem livros impressos não consideram ir até a sua loja para comprar um livro.

O que aconteceu aqui é que a Borders entrou em colapso em 2011, deixando entre 400 e 450 megastores abandonadas. Eram lojas que comportavam 100 mil títulos. Talvez àquela altura já fossem lojas de 60 mil títulos. O “renascimento” das livrarias independentes substituiu essas lojas com, talvez, uma certa quantidade de lojas especializadas, mas elas são lojas de 5 mil, 10 mil títulos. Muito menores. E não estão interessadas em estocar fundo de catálogo. Enquanto isso, a Barnes & Noble diminuiu a quantidade de espaço dedicado a livros em suas estantes. Assim, o espaço total de estante diminuiu e ainda deve diminuir ainda mais.

À medida que caminhamos rumo a um mundo sob demanda operado por livrarias online, o que uma editora tem a oferecer a seu autor é menor. A importância de ser uma grande editora diminuiu. O marketing de uma grande editora tem muito menos a ver hoje com a força de venda de colocar livros em milhares de lojas do com influenciadores digitais e engajamento direto com o consumidor de diferentes formas. Há algumas oportunidades, como construir sites verticais - onde ser grande ajuda. Ser especializado ajuda ainda mais.

O negócio do livro não vai voltar a ser como era há 10, 20, 50 anos. Assim, eu não esperaria uma volta ao negócio do livro que conhecíamos, independentemente de quão forte o livro impresso seja.

Qual é o papel da livraria hoje e num futuro próximo e quem vai sobreviver?

A maioria dos títulos disponíveis nas grandes lojas não são vendidos com lucro: eles estão lá para gerar tráfego. Mas, na era digital, isso não funciona mais. Quem sobreviverá são os proprietários-gestores que estiverem dispostos a ganhar menos dinheiro do que fariam de outra maneira porque gostam muito de administrar uma livraria. Há muitas pessoas assim, mas elas não são tantas quanto as que são mais atraídas pela possibilidade de ter lucro mesmo. Uma empresa como a Ingram nos Estados Unidos pode, de verdade, ajudar essas livrarias a sobreviver ao dar a elas um suporte - e providenciar qualquer coisa que elas precisem de forma rápida e eficiente. Eu nunca perguntei a ela, mas suspeito que as livrarias independentes de maior sucesso compram muito do seu estoque da Ingram. Então, o que vai acontecer depois da ‘ascensão’ das livrarias depende muito de existir uma infraestrutura atacadista para possibilitar a administração de uma pequena livraria.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.