Wilton Junior/Estadão
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‘Papel da Biblioteca Nacional é sair ilesa da guerra cultural’, diz Rafael Nogueira

Na primeira entrevista ao ‘Estado’, novo presidente da Biblioteca Nacional fala sobre planos para a instituição e defende o conservadorismo – mas nega que será pautado por questões ideológicas

Entrevista com

Rafael Nogueira

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

09 de dezembro de 2019 | 19h40

A Biblioteca Nacional é a maior guardiã da história brasileira. Desde sexta-feira, 6, ela está sob a administração de Rafael Nogueira, santista de 36 anos formado em Filosofia e Direito, professor de estudos clássicos, olavista e alinhado às ideias conservadoras dos novos gestores públicos da cultura brasileira. Foi escolhido pelo secretário especial de Cultura Roberto Alvim por seu diálogo com os jovens e pelo “amor à pátria”.

Nogueira recebeu o Estado em seu gabinete, no histórico prédio localizado no Centro do Rio, na tarde desta segunda, 9, em seu quarto dia à frente da oitava maior biblioteca nacional do mundo. Ele falou sobre sua nomeação, questionada na Procuradoria-Geral da República, os primeiros protestos de servidores, seus planos para a instituição e para o País. Ele citou a preservação do prédio e a segurança como prioridades assim como uma maior abertura em direção ao público, com aulas e cursos. 

Nogueira defende o conservadorismo, mas nega que será pautado por questões ideológicas. Ele relativiza a ideia de guerra cultural proposta por Alvim e acusa gestões anteriores, em âmbito geral, de transformar a cultura em uma arma.

Leia a entrevista de Rafael Nogueira, presidente da Fundação Biblioteca Nacional

Em uma de suas postagens, o senhor disse que nunca foi um sonho ter um cargo público e que tinha outros planos para os próximos anos. Por que foi o escolhido? Como recebeu a notícia? Qual imagina que possa ser sua contribuição e o que o habilita para o cargo?

De fato, não sonhei com cargo público, minha ideia era seguir com as minhas aulas e criar um site para divulgá-las, para elas chegarem aos rincões do Brasil. Mas, pouco depois da nomeação do Roberto Alvim, ele disse que acompanhava meus vídeos e gostava da minha forma de transmitir meu amor à pátria. E que o presidente Jair Bolsonaro tinha encomendado a ele promover a cultura, uma cultura que inspire a juventude. Muitos jovens têm vindo a mim dizer que amam o Brasil por minha causa, que gostam de lembrar a história do Brasil por meio do que falo. E isso me faz chamar atenção para um erro ou mal-entendido ou má intenção no modo como fui retratado como alguém que fala mal de personalidades da cultura popular. Eu me destaco por ser professor de livros clássicos. Meu sonho era ficar em casa, montar uma estrutura para gravar minhas aulas, e ganhar mais dinheiro, podendo também me dedicar às minhas pós-graduações. Mas o Roberto Alvim me chamou e disse que a preocupação era que a juventude tivesse inspiração, gosto pelo estudo, amor à pátria. Minha figura tem servido justamente para isso, então eu seria a pessoa ideal. Eu me vejo como alguém com experiência. Meu primeiro emprego foi como assessor da presidência da Academia Santistas de Letras, já ensino sobre livros desde 2006, formei o primeiro grupo oficial de leitura da Universidade Católica de Santos. Percebo que as instituições culturais não sabem se comunicar bem com o público. Venho com a missão de fazer a ponte entre a instituição e quem quer ter acesso a elas. Temos que preservar o acervo e estabelecer um contato didático, colaborar contra o analfabetismo, pela acessibilidade, pela democratização de conhecimento. Estimular o amor pelo estudo e pela pátria.

E como recebeu o primeiro protesto de servidores, antes da posse, e a notícia que deputados da Frente Parlamentar Mista do Livro e Leitura pediram a anulação da nomeação?

Foi tudo muito rápido. Recebi primeiro com incômodo. Eu não fui preparado para essa rejeição, era um simples professor. Mas sou capaz de compreender, tenho empatia, vem alguém desconhecido, querendo mudar tudo... Eu também ia ficar com medo. O incômodo foi superado pela compreensão. Por isso que a primeira coisa foi me apresentar à diretoria desse espaço, porque só havia sido apresentado por meio da imprensa, que criou um quadro que assustou todo mundo. E depois chamei os líderes dos servidores e a reunião foi muito cordial. E as coisas que eles pediram fazem sentido, quase tudo ali eu vou perseguir. Tudo o que falei tem a ver com a visão de alguém que se prepara para a se elevar à dignidade do cargo e que entende a questão política, o fato de que tem gente que quer fazer política com isso. O medo desaparece com o conhecimento. Com o tempo, ele vai desaparecer e as pessoas vão confiar em mim e eu nelas. E quem faz luta partidária vai continuar fazendo. O pedido da frente parlamentar não me parece ter fundamento. Mas que seja discutido nas devidas instâncias.

E a questão da falta do mestrado?

As alternativas dispostas no decreto são alternativas e não artigos de exigência. Eu tenho anos de experiência com livros, cultura, educação. Se for necessário me defender, farei isso adequadamente.

O senhor reclamou da forma como foi apresentado: monarquista, olavista e que associava o analfabetismo a artistas como Caetano Veloso.

A primeira notícia que apareceu me trazia falando do Caetano (Veloso) e as pessoas me definiram como alguém que fala mal de personalidades da cultura popular. Aquilo era um tweet de mais de dez anos, quando eu tinha dezenas de seguidores e notei que livros didáticos mencionavam mais a música popular do que os grandes livros da literatura, mas foi mais uma brincadeira do que uma visão sobre o analfabetismo. Para mim, a música pode ser usada para alfabetizar. Não sou um monstro retardado mental. Faltou checagem, era só me perguntar. Quanto a ser apresentado como monarquista ou olavista, acho que falta contexto. Sou um professor, quase sempre falando de livros e, ainda que seja para pessoas interessadas em ouvir sobre monarquia ou em ver aulas do professor Olavo de Carvalho, estou falando de livros clássicos, de leitura. Cria-se uma caricatura. Porque as pessoas entendem o professor Olavo não como o professor e filósofo que nos abre portas para uma reflexão livre, pública, mas como o autor de posts mais polêmicos, que fala palavrão. Eu fiquei encaixado nessa má visão dada ao professor Olavo. Ao mesmo tempo, sou apaixonado pela história de Portugal, do Brasil colonial e imperial. E enxergo no segundo reinado e na constituição de 1824 experiências políticas e jurídicas interessantes. Porque não tivemos uma República de 1889 até hoje, tivemos várias, e essa república já está dando sinais de confusão. No mínimo a gente tem muito a aprender com o século 19. Não é proibido discutir a monarquia como alternativa. Mas a minha visão é que ainda como República temos que conhecer melhor a experiência política do século 19. Mas é claro que acho a experiência social ligada à escravidão abominável. Então, quando se fala em olavismo, as pessoas interpretam como algo agressivo, como alguém que não sabe conversar. E, no monarquista, veem alguém autoritário, que quer ter um rei e pessoas privilegiadas submetendo o restante da população. 

A história do Brasil está guardada aqui. Como será o seu esforço para que nada se perca - por acidente, negligência ou ideologia?

Eu cheguei aqui e a primeira coisa que perguntei foi sobre as licitações das obras elétricas. Já temos do Fundo Nacional de Cultura a verba para as reformas das instalações elétricas e a licitação de combate ao incêndio em andamento. A gestão anterior foi bem nisso. Também conversei com os seguranças para dizer que ninguém está autorizado a sair daqui com sacolas, com algo suspeito, porque esse acervo tem que ser protegido. Eu sei a responsabilidade que é cuidar desse acervo

Quais são as suas propostas para a BN e quais serão as suas prioridades?

Primeiro, as prioridades. Identifiquei nas gestões anteriores dificuldades expostas nos relatórios de gestão. E envolvem a questão dos servidores. Já há muitos para se aposentar e com essa aposentadoria perdemos muita memória e conhecimento técnico. E há jovens que querem transferência, o que significa que não estamos com planos de carreira atraentes. Precisamos manter servidores e fazer concursos. Há também a questão da segurança e da segurança contra o incêndio, todos ficamos chocados com o evento no Museu Nacional e na Catedral de Notre Dame. E sabemos que houve questão de roubos. Quanto às propostas, elas têm a ver com a minha personalidade. Penso em eventos de estímulo às leituras, debates sobre livros, quero trazer minha vocação docente para a Biblioteca Nacional. Há uma missão dupla, preservar e abrir para pesquisadores. Mas diante dos altos índices de analfabetismo e da minha percepção de que há muitas pessoas querendo questionar e aprender, queremos ensinar também a ler, a ler em alto nível. É uma preocupação didática, para as pessoas entenderem mais sobre literatura. Eu gostaria muito se isso acontece aqui. Ela seria mais visitada e mais amada. E vamos criar muitos mais pesquisadores. Não apenas acadêmicos, mas pessoas que querem ler, conhecer mais, de acordo com as regras de contato com o acervo, claro. A identidade brasileira pode voltar a ser descoberta.

O secretário Roberto Alvim fala em guerra cultural. Qual é o papel da BN nessa guerra?

O papel da Biblioteca Nacional é sair ilesa dessa guerra. Eu cheguei agora e percebi que essa nau está sendo conduzida para a preservação da memória e da identidade brasileiras. Mas não sejamos ingênuos, há quem queira tomar a cultura para que seus partidos se deem bem. Há muitos anos é o espectro da esquerda, ainda que não tenha identificado isso aqui, que busca atrapalhar o desenvolvimento da cultura, que é levada para o sucesso partidário. O partidarismo atrapalha o trabalho intelectual e estético. Quando ele fala em guerra, ele quer impedir que a cultura seja transformada em uma arma da política. Ele quer que a cultura floresça como cultura. Ele não me pediu para transformar todo mundo em olavista ou monarquista. Eu entendo as falas dele, as pessoas se apegam a momentos em que ele se aborreceu ou se exaltou, usando palavras que não foram bem escolhidas. E é interpretado como alguém que quer que as pessoas transformem a cultura em uma loucura. Para mim, ele não pediu isso.

O prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa, é feito em parceria com a BN. O presidente Bolsonaro não quis assinar o diploma de Chico Buarque, o mais recente premiado. Isso pode sugerir que autores críticos a este governo podem não ter chance nas próximas edições?

Peço desculpas, mas só ouvi falar desse caso específico. Meu critério não é de autores que sejam meus amigos ou não populares. Minha visão é que as premiações têm suas regras e critérios e elas devem ser cumpridas. Mas eu não estava aqui e não prestei atenção na obra que foi premiada. Mas garanto que a Biblioteca Nacional não é lugar para ficar se transformando em bajulação de amigo. Mas não entendo que o ato do presidente seja por isso, ele deve ter suas razões, pode ter encontrado problemas que eu não saiba. A premiação foi feita e não posso mexer nisso.

Mas você pode mexer nos prêmios da Biblioteca Nacional. Existe um corpo de jurados, mas a direção dá a palavra final.

Se houver um autor que tenha falado mal de mim mas seu livro foi considerado bom, eu vou assinar o prêmio e ele vai ganhar o prêmio. O critério não é se gosta de mim. O importante é seguir os critérios. Mas ainda vou tomar contato com esses critérios.

Quem é o melhor autor brasileiro?

O que mais li foi Machado de Assis, gosto mais dos contos do que dos romances. Mas gosto também dos poemas de Camões, e do Lima Barreto. Foi cansativa a leitura, mas a gosto da ideia dos livros dele, que demonstram a luta da inteligência para prevalecer sobre tudo o que leva você a desistir. 

Na Ancine, retiraram das paredes os cartazes dos filmes brasileiros numa tentativa de apagar uma memória. Qual o risco de isso acontecer na BN - com acervo e também com projetos, como as bolsas de pesquisa e de tradução.

Não retirei nem a faixa de protesto contra mim, por que tiraria algo daqui?

Tem alguma orientação mais clara sobre o registro de livros e o depósito legal quanto a livros por seu teor político ou por tratarem de questões polêmicas, como a de gênero. Eles seguirão sendo registrados? Terão espaço nas estantes da biblioteca?

Evidentemente, claro.

Houve um momento em que a BN passou a ser responsável, também, pela internacionalização da literatura brasileira. Qual é a importância desse tipo de ação e que lugar a divulgação da literatura brasileira ocupará na sua gestão?

Nada disso vai ser parado.

Com os novos diretores indicados por Alvim assumindo as instituições de Cultura do governo, pode-se dizer houve uma guinada conservadora. O que isso quer dizer na prática? Qual é o projeto do atual governo para a cultura?

O conservador tem a vocação à preservação. E queremos preservar arquivo, memória, identidade. Esses termos precisam ser bem explicados. Conservador tem sido citado como aquele que tem visão de privilégios, autoritária, mas é aquele que quer que o Brasil, em vez de se transformar em refém de modas internacionais e inclusive de organizações internacionais, possa encontrar seu próprio caminho. As vias formativas da cultura, o desenvolvimento da linguagem, da educação musical, elas têm um lado técnico pelo qual o conservador tem mais amor do que o revolucionário. O revolucionário quer criar coisa novas, que são interessantes. O conservador tende a preservar o que já foi realizado e partir disso realizar uma criação com base em parâmetros desenvolvidos por séculos. Os conservadores têm vocação interessante para cuidar da cultura. Há uma preocupação de que transformemos as instituições culturais em porta-vozes do bolsonarismo. Isso foi feito por quem veio antes. O que queremos agora é preservar a cultura. Isso não significa a politização do que não é político.

Livros são perigosos?

Sabe o que faço com livros escritos por pessoas de quem discordo? Eu leio. A liberdade de pensamento é sustentada pela liberdade de edição e de publicação e por muitos anos os livros que não eram de esquerda eram difíceis de publicar. Havia a visão de que eram perigosos. Sou um entusiasta dos livros. Acho que vocês estavam prevendo outra pessoa.

Quem é o maior inimigo da BN?

O maior inimigo da Biblioteca Nacional é o ódio ao conhecimento, porque gera negligência e descaso. E também pessoas mal-intencionadas que não compreendem a importância do acervo e querem lucrar com ele. E as pessoas que não entendem a necessidade de se preservar o acervo, do amor à cultura e do amor à pátria. 

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