Arnaldo Fiaschi/Estadão
Arnaldo Fiaschi/Estadão

‘O leitor gosta das histórias de Jorge Amado porque se emociona, chora e ri’, diz biógrafa do autor

Nos 20 anos da morte de Jorge Amado, Joselia Aguiar fala sobre o sucesso do escritor, sua atualidade e dá dicas de leitura

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2021 | 15h03

Há exatos 20 anos, no dia 6 de agosto de 2001, morria em Salvador, aos 88 anos, um dos mais populares escritores brasileiros: Jorge Amado. Um escritor politizado, comunista de carteirinha, que conquistou leitores brasileiros e estrangeiros com sua vasta obra repleta de riquíssimos personagens, como Gabriela, Nacib, Tieta, Dona Flor e Vadinho, além de crítica social e erotismo. 

Sucesso de público e de crítica, Jorge Amado nasceu no dia 10 de agosto de 1912, em Itabuna, na Bahia. Escreveu mais de 40 livros ao longo de sua trajetória, e muitos deles ganharam adaptações para o cinema e a televisão. Imortal da Academia Brasileira de Letras eleito em 1961, o escritor teve sua obra traduzida para nada menos do que 49 línguas e, em 1967, chegou a ser considerado para Prêmio Nobel de Literatura (vencido por Miguel Ángel Asturias). Jorge Amado foi casado com a também escritora Zélia Gattai.

Entre os livros mais importantes de Jorge Amado estão Gabriela, Cravo e Canela, Capitães de Areia, Tieta do Agreste, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Tocaia Grande, Jubiabá, A Morte de Quincas Berro D’Água - e a lista segue. Sua obra é publicada atualmente pela Companhia das Letras.

O que explica o sucesso de Jorge Amado? Por que ler sua obra e por onde começar? A jornalista Joselia Aguiar, autora de Jorge Amado: Uma Biografia, publicada pela Todavia em 2018, responde a essas e outras questões.

Jorge Amado foi o escritor mais popular do Brasil. O que explica seu sucesso? E o que poderia dizer sobre seu estilo?

A explicação do seu sucesso tem a ver não somente com sua obra, como também com sua atitude de escritor. O seu desejo era ser popular, então ele se distanciou de opções literárias mais experimentais ou intelectualizadas. Apostou em elementos da tradição do cordel e do folhetim, dos chamados romance de la tierra e do romance indigenista – esses dois últimos modelos da América Latina - e sobretudo da literatura proletária que não era exclusividade soviética, estava presente também nos EUA, por exemplo. E quando falo de atitude de escritor, também me refiro a seu esforço como agente literário de si mesmo. Muito se disse que o partido o ajudou a vender os livros no exterior, e o que encontrei foi um romancista empenhado em fazer seus próprios contatos, encontrar editor, ocupar espaço na livraria, sempre atento a formas de fidelizar o leitor, o que incluía no começo publicar um livro por ano, para não ser esquecido. Mas não me parece que ele soubesse que havia exatamente uma fórmula para isso, pois houve momentos em que duvidou se alcançaria resultado, por exemplo às vésperas de lançar Gabriela ou mesmo Tieta.

Por que ler Jorge Amado hoje? O que sua obra ainda nos diz?

É uma obra muito extensa, com mais de 40 livros, e que se desenvolveu no decorrer de um período longo, da década de 1930 à de 1990. O leitor gosta de suas histórias porque se emociona, chora e ri. Há amor e morte, luta pela terra, crítica às convenções sociais. Para quem quer estudar sua obra, há abertura para as mais diversas questões – desde a racial e o protagonismo feminino, à mestiçagem como utopia ou problema, a diversidade e a tolerância. E há a possibilidade de enveredar pelas abordagens mais distintas, porque tanto pode ser objeto de trabalhos apenas no campo da literatura, como também os que cruzam literatura e outras artes, literatura e antropologia, literatura e sociologia. Ou seja, pela multiplicidade de questões e abordagens, pode atrair os mais diferentes olhares e proposições.

As adaptações ajudaram na permanência da obra de Jorge Amado, ou ele se tornaria um autor clássico de qualquer forma? Aliás, sua obra não envelheceu? 

As adaptações ajudaram a popularizá-lo e ele tinha total noção disso, tanto que não as recusava, tampouco se preocupou em ter controle sobre o modo como iriam transpor suas histórias para outras linguagens. A procura por adaptá-lo é resultado da atenção que sua obra tinha já nas livrarias. Ou seja, ele já construía um caminho para ser clássico, quando ao mesmo tempo despertava interesse por realizadores de outros campos. Em vários momentos, as adaptações eram um modo de ele conseguir dinheiro com os livros, quando ainda não era possível viver somente dos direitos autorais. Jorge Amado não é um autor contemporâneo a nós, então é importante ter sempre em conta a época em que o livro foi escrito. Não quero dizer que ele envelheceu, mas sem entender o contexto da época, aí sim parecerá datado.

 O Jorge Amado comunista sofreria preconceito no Brasil de hoje? Como será que ele veria esse Brasil?

Não somente o Jorge Amado comunista, como o Jorge Amado pós-comunista. Depois de se afastar do partido ele se manteve como abertamente de esquerda e assim se declarava. Tocaia Grande, já na sua última fase, tem todos os elementos que poderiam levá-lo hoje a ser julgado pelos ultraconservadores, tanto a luta pela posse da terra quanto o desejo e o sexo, em trechos explícitos. Aprendi muito sobre história do Brasil enquanto escrevia a sua biografia, e o livro saiu coincidentemente quando acabavam de acontecer as eleições de 2018. E foi assim pude compreender que Jorge Amado sempre soube que essa parcela ultraconservadora existia e poderia ocupar o poder a qualquer momento. Acho que essa visão explica seu esforço para construir alianças e pontes mesmo com setores que não eram necessariamente de esquerda, mas que não podiam ser vistos como ultraconservadores. A ideia de uma frente ampla sempre foi muito importante para ele.

Para quem ainda não leu Jorge Amado, que percurso você sugere?

Acho que a porta de entrada pode ser, como tem sido, Capitães da Areia, que muita gente lê na escola. É um livro com muito apelo entre jovens. Para quem é mais adulto e ainda não leu Jorge Amado, pode começar por Terras do Sem-Fim, ainda de sua juventude, ou ir direto para Dona Flor e Tocaia Grande, dois dos seus romances mais consagrados, já na fase mais madura.  O meu preferido é o volume Os Velhos Marinheiros, que reúne duas novelas, cujos protagonistas são, respectivamente, Quincas Berro D´Água e a Vasco Moscoso do Aragão.

 

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