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O inventário da desconversão de Emmanuel Carrère

Em seu livro 'O Reino', o escritor francês compara os quatro evangelhos, fala de sua crise de fé e conta a história do criistianismo primitivo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

21 de maio de 2016 | 06h00

Num fim de semana de Páscoa, o romancista e roteirista francês Emmanuel Carrère, 58, descansava na casa de sua sogra quando a televisão exibiu um documentário sobre a escritora de origem belga Béatrix Beck (1914-2008), de quem adaptou para o cinema o romance Léon Morin, Prête (Léon Morin, o Padre). No filme, dirigido por Jean-Pierre Melville em 1961, Jean-Paul Belmondo é um padre de rigorosa conduta moral pelo qual todas as mulheres de um vilarejo francês suspiram. Uma delas, Barny (Emmanuelle Riva), adora ir ao confessionário provocar o padre, repetindo slogans como “religião é o ópio do povo”. O padre não se irrita. Ao contrário. Torna-se seu interlocutor, ajudando-a em tempos de guerra. Na época, Béatrix Beck era uma mulher religiosa. No documentário, diz que deixou ser. Simplesmente não acreditava mais. Assim, sem rodeios.

Carrère ficou escandalizado ao ver o documentário. Como alguém que foi crente fala assim de seu passado? “A graça que deixamos fugir destrói a vida”, escreve ele em O Reino, livro que é igualmente uma confissão da perda de fé e uma desesperada busca de resposta para a crise existencial de um intelectual. É possível mesmo suspeitar que Carrère dedicou sete anos de sua vida pesquisando as origens do cristianismo apenas para responder a si mesmo por que, afinal, recusou a graça, após ter vislumbrado o “reino”. Carrère, por telefone, do Japão, em conversa com o Caderno 2, afirma, porém, que foram outros os motivos que o levaram a refletir sobre a ressonância dos evangelhos em sua vida.

Crise. Entre 1990 e 1993, Carrère passou por uma grave crise de depressão. Não acreditava mais em seu talento como escritor, tentou a psicanálise e acabou optando por ir à missa todos os dias. Seu casamento seguiu os ritos da Igreja Católica, mas ele, pouco a pouco, foi se afastando dela, dedicando-se em tempo integral a uma biografia do escritor de ficção científica norte-americano Philip K. Dick (1928-1982), famoso por seu livro Androides sonham com Ovelhas Elétricas?, adaptado para o cinema como Blade Runner. O americano, no fim da vida, teve visões místicas descritas em Exegesis, livro no qual ele define essas experiências de natureza religiosa (Dick sonhava em grego, segundo Carrère). 

Carrère, no caminho inverso, virou agnóstico. Não acredita mais na Ressurreição do Cristo. É um homem rico, no topo de sua carreira. Enfrenta, diz ele, “inúmeras desvantagens para entrar no Reino”, como reconhece no epílogo de seu novo livro, misto de obra memorialista, ensaio sobre o cristianismo primitivo e acerto de contas com o passado de um autor que, afinal, se pergunta se é possível recuperar a fé perdida. Ao contrário de Paulo, convertido na estrada de Damasco, Carrère é um desconvertido. Assume ser um homem cheio de contradições, que não se julga acima de seus personagens.

“Não escrevi um livro sobre Jesus, mesmo porque não acredito em sua divindade, e sim sobre o cristianismo primitivo”, diz o escritor, assumindo sua identificação e preferência pelo grego Lucas, que, na via inversa de Paulo e Pedro, dois dos principais responsáveis pela expansão do cristianismo, tem, como Carrère, um approach mais erudito com a história de Jesus (até mesmo porque Lucas não o conheceu e escreveu seu evangelho baseado em outras fontes).

Primeiro, é transparente a admiração do francês por gente que andou na contramão da doutrina cristã, ousando dar uma explicação natural para um fato sobrenatural, ao obrigar Cristo a descer do céu para o território da história. Para citar apenas um exemplo, ele se refere frequentemente à vida de Jesus contada pelo filósofo e teólogo bretão Ernest Renan (1823-1892) como uma tentativa semelhante de saber o que “realmente” pode ter acontecido na Palestina. Sem revelação, sem milagres. Renan, obviamente, foi excomungado no século 19. Já o contemporâneo Emmanuel Carrère virou best-seller, ao contar como “uma seita de pescadores analfabetos, na qual nenhuma pessoa racional teria acreditado, demoliu o Império Romano em menos de três séculos”. Outro que ele adota como companheiro nessa aventura teológica é o arqueólogo e historiador Paul Veyne, especialista na antiga Roma, de quem a Unesp lançou o excepcional Pão e Circo.

Intrigas. Lá pelo meio dessa epopeia, as referências à vida pessoal de Carrère dão lugar às intrigas entre os primeiros cristãos. Carrère concorda com Renan: Paulo se recusava a qualquer hierarquia e se tornou para Tiago, segundo o escritor, “o equivalente de Trotski para Stalin”. Uma campanha foi movida contra Paulo para denunciar seu sectarismo. “Ele é um bom personagem, sinto-me próximo dele, por ser ao mesmo tempo um doutor Jekyll e senhor Hyde, o médico e o monstro nessa história em que a hostilidade a Paulo é evidenciada pela perseguição de outros pregadores.” Caluniado pela igreja de Jerusalém, Paulo, porém, não rompe com ela. Continua com sua atividade missionária, é preso quando poderia se livrar facilmente da prisão e percebe que “sua pregação, separada do judaísmo, não o levaria muito longe”, observa o escritor em O Reino

É esse caráter obsessivo de Paulo que levou Carrère a comparar o apóstolo a outros personagens seus, entre eles o anti-herói de seus livros O Adversário e Limonov, embora sua preferência, como foi dito, recaia sobre Lucas, autor de um dos evangelhos canônicos e dos Atos dos Apóstolos. “Era um bom contador de histórias”, define Carrère, das quais destaca duas que só se encontram em Lucas: a do bom samaritano e a do filho pródigo. “Lucas me é familiar, simplesmente adoro o modo de pensar desse médico grego, do cronista que é o único ‘gói’ dessa história.”

Em O Adversário, Carrère também se mostra um ótimo narrador ao transformar em literatura a tragédia real de Jean-Claude Romand, um psicopata que, por 18 anos, enganou a família fingindo ser médico da Organização Mundial da Saúde. Prestes a ser desmascarado, ele mata a mulher, os filhos, o pai, a mãe e o Labrador dos pais. Carrère acompanhou todo o processo e manteve correspondência com o criminoso, que se converteu na prisão. Ele fala sobre Roland no livro, mas não gosta de comentar sua conversão nem sabe se vai escrever um dia sobre ela. “Não penso mais em Roland”, diz.

Carrère, que traduziu o Evangelho de São Marcos para a Bíblia da Editora Bayard (lançada em 2010) – em que Satanás é chamado de “adversário” –, não pretende voltar ao assunto religião tão cedo. Já descobriu o que significa o título de seu livro. Para ele, que jamais teve uma experiência mística como seu biografado Philip K. Dick, o “reino” não é um além, mas uma “dimensão da realidade que, de modo geral, permanece invisível para nós”.

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