Ubiratan Brasil/Estadão
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O escritor Laurentino Gomes inicia livro sobre a história da escravidão negra

Ele falou sobre suas pesquisas na 17.ª Bienal do Livro do Rio, que também recebeu o best-seller britânico David Nicholls

Ubiratan Brasil - Rio, O Estado de S. Paulo

07 Setembro 2015 | 06h00

País homenageado na 17.ª Bienal Internacional do Livro do Rio, a Argentina montou uma bela agenda de debates. No sábado à tarde, por exemplo, Noé Jitrik, Mempo Giardinelli e Maria Moreno discutiram sobre a literatura no exílio. Mais que a escrita utilizada por refugiados como meio de desabafo, o trio mostrou que existem variações significativas no termo.

“A escrita exilada de Henry Miller, por exemplo, tem um sentido completamente diferente da minha”, constatou Giardinelli que, enquanto o americano morou voluntariamente em Paris, foi obrigado a se refugiar no México, forçado pela ditadura de seu país. “E foi lá que lancei meus três primeiros livros. Assim, será que devo me considerar um escritor mexicano?”

Ainda no sábado, dia 5, um salão não totalmente lotado recebeu um dos best-sellers da Bienal, o britânico David Nicholls, autor de Um Dia. Bem-humorado (brincou com o tempo cinzento do Rio, dizendo que a cidade parecia uma Londres com praia), confessou que o único autor brasileiro que tomou conhecimento foi Clarice Lispector, mas não prosseguiu com a leitura pois a considerou “muito difícil”.

A plateia predominante jovem o deixou empolgado. “Normalmente, a idade média do público que vai aos meus encontros é de mais de 30 anos. Vendo essa moçada, fico mais animado.”

A bienal consolida-se assim como o caminho mais estreito entre autor e leitor. “Ficarei até o final, no próximo domingo (13/9), e ainda vou conversar em escolas”, anuncia Laurentino Gomes, autor de três best-sellers, livros que narraram o período de fortalecimento do País como nação (1808, 1822 e 1889). 

Ele agora inicia seu próximo projeto: uma imensa pesquisa sobre a história da escravidão negra. Será algo de fôlego, que vai consumir quatro anos de trabalho.

“Quero fazer como Lira Neto, que dividiu em três volumes sua biografia de Getúlio Vargas”, conta. “Também vou publicar minha pesquisa em três tomos, a partir de 2019.”

O trabalho está bem delineado – para o primeiro volume, Laurentino pretende mostrar a origem do tráfico negreiro, que teve a Inglaterra como primeira nação a organizar esse tipo de comércio. O segundo volume, que deverá sair em 2020, cobrirá o apogeu, época em que determinados países associavam seu progresso ao trabalho escravo – no Brasil, trata-se do período do auge da cana de açúcar, a partir de 1560, e com a descoberta de ouro, no século 18.

Finalmente, o terceiro volume, previsto para 2021, narrará em detalhes a fase final do tráfico até a abolição da escravatura no Brasil, em 1888. Como pretende fazer diversas viagens à África, especialmente a países da costa ocidental, Laurentino vai se fixar durante pelo menos dois anos em Portugal, onde será sua base.

“Não temos voos diretos saindo do Brasil para países africanos, com exceção da África do Sul”, justifica ele, que pretende também fazer pesquisas nos Estados Unidos.

Segundo ele, trata-se de uma história recheada de elementos degradantes. “Há documentos que mostram que navios ingleses sabiam com muita antecedência que se aproximavam de uma embarcação trazendo escravos – é que o cheiro ruim vindo daquelas caravelas, provocado pelas péssimas condições de higiene a que eram submetidos os escravos, se expandia por quilômetros.”

E, se provocou um desconforto em alguns historiadores quando lançou seu primeiro livro, em 2007, incomodados com a “intromissão” de um jornalista em sua área, Laurentino já sabe que terá de lidar agora como outro grupo ao retratar a escravidão: a de ativistas negros, que já revelaram seu descontentamento que essa fase da História seja narrada por um autor branco. “Mas isso não vai me impedir de realizar esse trabalho”, garante.

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